1-Alguns chamam de azar. Outros, de injustiça. Mas uma das características mais emocionantes do futebol, que contribui decisivamente para que ele seja um esporte tão popular em todo o mundo, é o imponderável. Por suas características em relação a outros esportes, é maior a probabilidade de que nem sempre o melhor vença, diferente do que acontece, por exemplo, no basquete, no volei ou mesmo no tênis.
É famosa a frase difundida no universo do futebol: “Quem não faz, toma”. Muitas vezes, uma equipe tem amplo domínio do jogo, tem maior posse de bola, cria várias oportunidades para marcar e, de repente, num lance fortuito, acaba levando um gol de contra-ataque e perde o jogo. Exatamente como aconteceu com a Alemanha no jogo contra a Sérvia.
Na última rodada da fase de classificação da Copa do Mundo, quando não apenas o resultado do jogo, mas também o restrospecto e as partidas dos concorrentes diretos a uma vaga podem decidir quem segue para as oitavas-de-final e quem arruma as malas e volta para casa, o imponderável assume ares dramáticos.
Foi assim, por exemplo, nas duas partidas que decidiam as vagas do Grupo B. Inglaterra jogava contra a Eslovênia, líder da chave, e os Estados Unidos enfrentavam a Argélia. Todos com chances de classificação. Para a Inglaterra, uma das favoritas ao título, o empate significava o vexame da desclassificaçao já na primeira fase. Já a Eslovênia poderia se classificar não apenas com um empate, mas até mesmo com uma derrota, dependendo do resultado da outra partida entre Estados Unidos e Argélia. A Inglaterra foi agressiva, atacou o tempo todo, fez um a zero ainda no primneiro tempo e perdeu várias chances claras de gol. Enquanto isso, a Eslovênia se defendia e, de vez em quando, arriscava um contra-ataque. No outro jogo, um empate classificaria os Estados Unidos por saldo de gols marcados, desde que a Inglaterra não vencesse.
Nesse jogo de xadrez cheio de correria, pontapés e berros de vuvuzelas, o efeito dramático aumentava. A Inglaterra atacava mas não conseguia fazer o segundo gol, ficando cada vez mais a mercê da maldição do “quem não faz, toma”. Se levasse um gol, estava eliminada. Já na outra partida, Estados Unidos e Argélia faziam um jogo franco e agressivo já que, com o placar de um a zero para a Inglaterra, apenas a vitória interessava a ambos.
Aos 40 minutos do segundo tempo, a Eslovênia faz um cruzamento pelo alto para a área, a bola escorrega num defensor inglês e se oferece para o arremate do esloveno. Ele bate e o goleiro defende. A bola volta para outro esloveno, livre para marcar, que chuta em cima de um zagueiro. A bola espirra para a direita e outro esloveno entra na corrida e emenda uma bomba… para fora. Quase a maldição se cumpria. Terminou o jogo com Inglaterra e Eslovênia classificadas. Todos se cumprimentaram, os ingleses festejaram mais efusivamente e se encaminharam para o vestiário.
Mas o outro jogo ainda não havia terminado. Tendo começado dois minutos mais tarde, continuava numa batalha franca. Qualquer dos dois times que marcasse um gol conseguiria a classificação e mandaria a Eslovênia de volta para casa. Aos 45 do segundo tempo, os argelinos conseguiram uma falta próxima à área, levaram todos os jogadores para o ataque e, no cruzamento, um deles cabeceou em gol. Mas o goleiro americano defendeu, ligou um rápido contra-ataque, a bola foi cruzada na área, o goleiro da Argélia se jogou nos pés de americano para defender e a bola sobrou para o craque americano, Donovan, que com o lado do pé empurrou para as redes.
Espantosamente, a Eslovênia saíra de campo classificada e chegou aos vestiários fora da Copa. Um justo castigo para quem fez um jogo covarde e apostou num placar que não dependia dela. A Argélia, penúltima seleção africana com chances de classificação, foi derrotada, indo juntar suas lágrimas de esperança frustrada às demais colegas já desclassificadas do pobre continente africano, Nigéria e África do Sul. E as duas potências econômicas mundiais, Inglaterra e Estados Unidos, que têm muito pão e são as que menos precisavam de circo, seguem para as oitavas-de-final.
Quem disse que a vida é justa? Ou é?
2-Na última rodada do Grupo F, a Itália, de péssima campanha, jogava uma partida de vida ou morte. Começou cheia de apetite, marcando forte no campo da Eslovênia. Mas isso não durou mais do que cinco minutos. Enquanto as equipes partiam para uma disputa acirrada para ver quem praticava mais faltas, o jogo foi ficando truncado e a Eslovênia, lentamente, tomou conta da partida. Com mais posse de bola, bons toques e penetrações mais agudas, chegou várias vezes à meta italiana. Já a Azurra, atual campeã do mundo e que precisava da vitória, teve sua melhor chance apenas aos 40 minutos com uma cabeçada… mas de um zagueiro esloveno contra o próprio gol.
Então começou o segundo tempo e as emoções e a dramaticidade da Copa do Mundo entraram em campo. A Eslovênia continuava melhor e marcou primeiro. Mas a Itália tomou vergonha na cara e tentou superar a má qualidade técnica com empenho e dedicação. Apesar do esforço e de várias chances perdidas, a Itália sofreu o segundo gol. Mas não desistiu e fez dois a um. Então a Eslovênia marcou o terceiro já perto do final do jogo e parecia que tudo estava acabado. Mas a Itália fez três a dois e, a essas alturas, o empate já servia para classificá-la pelo saldo de gols marcados. O jogou ficou dramático. E, aos quarenta e seis, numa bola cruzada, parecia que os deuses do Olimpo novamente favoreceriam as grandes nações, como acontecera com os Estados Unidos. A bola sobrou na quina da pequena área para Pepe que enquadrou o corpo e bateu de pé esquerdo. Mas para fora.
E a Itália estava desclassificada. Campeã da última Copa do Mundo, repetia o fiasco da equipe francesa, vice-campeã, sendo ambas eliminadas ainda na primeira fase. Havia uma certa torcida mundial contra a França pela maneira irregular com que ela conseguira a classificação para a Copa, eliminando a Irlanda em um gol ilegal onde Henry dominou com a mão antes de cruzar para o gol definitivo francês. Já a Itália foi desclassificada pelo seu desempenho pífio num grupo fácil, com a deprimente campanha de dois empates e uma derrota.
Assim, uma Europa que já está mergulhada numa tenebrosa crise financeira, vai ter também que lamber dolorosas feridas esportivas.
3-Já a Dinamarca joga como se seus atletas tivessem gelo escorrendo pelas veias. O jogador dinamarquês pode estar com a bola dominada na meia-lua da sua área, com dezesssete adversários cercando para dar o bote, e ele gira o corpo com elegância e dá um toque no meio de todos os famintos inimigos empurrando a pelota para um companheiro. E assim ficaram os dinamarqueses, tocando a bola com elegância, enquanto o Japão ia empilhando gols com um espantoso talento individual nas cobranças de falta, nos dribles, nas penetrações em velocidade e até mesmo no espírito coletivo, como foi o lance genial do jogador Honda no terceiro gol japonês.
Além de fabricar automóveis e computadores, o Japão provou que também aprendeu a jogar futebol. Não é nenhum Iphone, mas vai incomodar.