Mar de letras, reflexões e algumas bobagens
Passei a última semana na praia. Não, não estava vadiando. Ou não completamente. É o que denominei de Mar de Letras, do qual já falei aqui, uma tentativa de conseguir me concentrar nos meu projetos literários. Depois do lançamento de “A luz que guia também pode cegar”, em 2004, fiquei praticamente quatro anos sem lançar um novo livro. Esse ostracismo estava me arrasando, fazendo com que me sentisse péssimo, algo como um sádico sabotador dos próprios sonhos. Eu estava na busca de alguma estratégia que pudesse me fazer voltar a produzir. O trabalho na empresa, o crescente envolvimento na Faculdade de Letras da PUC e algumas viagens grandiosas consumiam todas minhas energias.
Então resolvi radicalizar. Uma semana por mês isolado na praia, sem mulher, TV a cabo ou internet, concentrado apenas em ler e escrever. Pausas somente para o chimarrão, meditação, longas caminhadas à beira-mar, alguns filmes e experiências culinárias. Coloquei a estratégia em prática muito menos vezes do que pretendia, é verdade, mas os resultados foram excelentes. Do Mar de Letras nasceu “Deus está morto?”, que está tendo ótima repercussão. E, na semana passada, comecei meu próximo livro.
Além do texto do novo livro, rabisquei outras idéias, reflexões, desabafos e, como evitar?, algumas bobagens. Ou o inverso. Nos próximos dias, vou publicar algumas delas.
—*—
22/07/09 – 4a feira
Estou lendo “Cozinha confidencial”, de Anthony Bourdain. Tony Bourdain, como é chamado, é um chef de cousine do restaurante Les Halles, de Nova York. Após algumas investidas no mundo da literatura, ele ficou famoso com essa obra de suposta não-ficção, onde relata sua vida, sua carreira de cozinheiro e o submundo dos restaurantes onde trabalhou. É uma prosa rápida, rica em metáforas, cheia de histórias divertidíssimas e repleta de drogas, álcool, pequenos furtos e grandes canalhices. Mas, às vezes, ele exagera.
No capítulo “Um dia na minha vida”, ele diz que acorda todos os dias, religiosamente, às cinco para às seis da manhã e, enquanto escova os dentes e assiste ao noticiário com a esposa, já está planejando mentalmente os pratos especiais do dia que terá que incluir no cardápio. Às sete e meia é o primeiro a chegar no restaurante, onde começa uma rotina que inclui receber e conferir mercadorias, vistoriar todas as praças de produção da cozinha, controlar, contratar e demitir um batalhão de cozinheiros, garçons, ajudantes e lavadores de pratos, pilotar pessoalmente a praça de salteados manejando fornos e frigideiras enquanto grita, esbraveja e supervisiona a produção de mais de trezentas refeições de alta culinária como atum grelhado à livornaise com batatas assadas e aspargos grelhados, boudin noir com maçãs caramelizadas, confits de canard e moules marinières, seja lá que diabo de comida isso signifique. Nesse meio tempo, precisa ligar para fornecedores, conferir o estoque, atender o patrão em suas exigências fora de hora, separar brigas e negar aumentos, enquanto engole aspirinas e mal consegue morder um sanduiche entre os turnos do almoço e jantar. Sai do restaurante já depois da meia-noite e, ao invés de ir para casa desmaiar na cama, pega um táxi até um bar na Broadway, desce um lance de escadas e fica bebendo cerveja, vodka e escutando Cramps e Velvet enquanto começa a pensar no cardápio do dia seguinte, que inicia religiosamente às cinco para às seis. E isso seis dias por semana!
Nem Clark Kent ou Peter Parker, em sua dupla jornada para salvar o mundo, conseguiriam manter essa balada. Mas vale a pena: as histórias são divertidas e ele escreve realmente muito bem.
…





