Mar de letras, reflexões e algumas bobagens IV – final

24/07/09 – 6a feira

Nessa semana de Mar de Letras consegui fazer outra coisa que me fascina e que há muito estava relegada ao ostracismo, soterrada por duplicatas a pagar e a receber, demonstrativos de caixa, ensaios acadêmicos, planejamento de aulas de estágio, viagens e palestras no interior, churrascos e quitutes para minha amada, estudos de mapas e roteiros para uma possível próxima viagem de moto, mails e mais mails para amigos e listas de discussões, e programas do Anthony Bourdain no canal Travel & Living. Consegui, que maravilha, dedilhar várias canções já esquecidas no violão.

Ajudado pelas indispensáveis letras cobertas com as cifras dos acordes, arranhei Belchior e suas Paralelas, O Rei Roberto e a maravilhosa Como é grande o meu amor por você, Nelson Gonçalves, Elton John, Cat Stevens, Jack Johnson e até algumas gauchescas como Veterano, Sabe Moço, Guri e a imortal Querência Amada, de Teixerinha.

Divino, divino, como diria minha amada.

—*—

Assisti Gran Torino, o último filme de Clint Eastwood. Esperava bem mais. Conheci Clint na famosa série sobre Dirty Harry, um policial durão que carregava uma Magnum 44 que mais parecia um canhão de artilharia ligeira. Ele estava perfeito no papel de um tira de poucas palavras e muita ação, que desprezava os ritos burocráticos da lei. A séria Dirty Harry foi uma das precurssoras do estereótipo do policial revoltado com a onda de direitos humanos que, segundo eles, tratava melhor os bandidos do que as vítimas.

Clint construiu uma carreira vitoriosa, partindo de papéis em sofríveis westerns de quinta categoria até conquistar o Oscar com Os imperdoáveis. E foi capaz, em meio aos personagens invariavelmente violentos e irrascíveis, de construir uma obra de arte de sentimentalismo como As pontes de Madison. Mas poucos filmes foram tão marcantes e surpreendentes como Menina de Ouro, um drama cuja inesperada reviravolta final deixou muitos espectadores estupefatos e confusos com lágrimas inesperadas despencando dos olhos.

Gran Torino é meio morno e segue no embalo de uma cascata de clichês narrativos que já estão surrados: a selvageria do espaço urbano norte-americano infestado por gangues de latinos ou asiáticos, o veterano de guerra com um trauma que não consegue superar, o velho durão incompreendido pelos filhos, o sujeito que despreza pessoas de outras raças cujos valores não compreende até que percebe que eles podem ser melhores do que o interesse egoísta da própria família, o cara durão por fora mas sensível por dentro que acaba resgatando da miséria moral um fracassado e fazendo dele seu pupilo. E, para estragar de vez, o final politicamente correto que tem azedado alguns filmes modernos, onde o sacrifício pessoal pela salvação da sociedade supera os instintos de vingança e de violência.

Dizem que foi o último filme da carreira de Clint Eastwood. Pouco provável. Mas, se for verdade, ele merecia uma despedida bem melhor.

—*—

Olho pela janela algo melancólico. A tarde cai, uma nesga de sol ainda escapa por trás dos prédios e mancha de luz a areia úmida e as ondas teimosas do mar. Netuno está de ressaca: as ondas se amontoam desde muito longe e vêm bater ruidosamente contra o concreto da amurada do calçadão. Tudo é muito lindo, o mar calmo ou revolto, as ondas comportadas ou rebeldes, o céu azul. E a longa linha do horizonte mostrando onde o mundo acaba de mentirinha, uma bela metáfora de nossa visão limitada que transforma pequenos dissabores em prenúncios do apocalipse.

Hoje é sexta-feira, meu último dia na praia. Acabei de almoçar e o relógio já ameaça com cinco horas da tarde. Resultado um pouco da noite anterior quando a fugidia inspiração me fez escrever até o meio da madrugada.

É uma péssima mania ficar antecipando as coisas desagradáveis, pensando na partida quando ainda há um bom tempo para curtir a chegada, na chuva quando há sol, na dor quando estamos envoltos em prazer. Mas sou assim mesmo, um amontoado de péssimas manias entremeadas de humor, ironia, projetos megalômanos, melancolia e alguns rasgos de sensibilidade.

Mas não é tanto a partida que me incomoda, a perspectiva desconfortável de abandonar essa janela mágica e esse mar imenso, magnífico e insano. Afinal, volto para os braços da minha amada, para minha churasqueira dedicada, para o convívio dos meus amigos que estão lá em dezenas de mails debochados ou insultuosos. O que mais me incomoda, na verdade, é a pilha de louça que me espera na cozinha e que não poderei deixar lá, juntando bixo.

Outra bela metáfora cujo brilhante significado revelarei a vocês, tão logo descubra qual é.

—*—

 

Comments: 3

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Mas vem cá: sexta-feira não é dia de trabalhar? :D

Abraço!

 
 

Grande Piréx: num esforço hercúleo, tento imitar os amigos mais bem sucedidos e mais inteligentes.

Às vezes consigo!

Abraçasso.

 
 

Diabolin!
CLint Eastwood é o cara! “Ja matei bicho, mulher e criança, ja matei praticamente tudo que voa anda e rasteja, e hoje eu vim a qui pra matar você.”

Memorável…

E Charles Bronson? Vai escrever sobre ele um dia!? Acho que seria o justiceiro ideal para ser ter em Brasília!!

Abraço!

 
 
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