A confraria do Ademir
Reza um dito popular que você pode fazer uma festa sem dinheiro, mas não pode fazer uma festa sem amigos. É uma meia verdade. Com dinheiro suficiente, você não apenas consegue arranjar um bocado de convidados para sua festa como já pode, atualmente, inclusive alugar amigos pela internet . Mas, claro, não se trata de amizades verdadeiras.
Um amigo de verdade é aquele que, por exemplo, participa de uma confraria de apreciadores de vinhos e, na reunião mensal em que ele é o confrade organizador e tem direito a trazer um convidado especial, convida você. Pois foi o que aconteceu comigo na semana passada. Tive a satisfação de participar de um encontro da confraria de meu amigo Ademir na Vinhos do Mundo.
Um belo evento. Pessoas simpáticas de ótimo nível, bons vinhos, um pequeno desafio intelectual com variedades de uvas, safras e origens geográficas. E, depois que o nível alcoólico atinge um certo patamar, somam-se descontração, boas risadas e até alguns comentários maldosos típicos de grupos.
E, enquanto girava na taça um Syrah extraordinário para liberar seus aromas, eu refletia sobre os motivos que levam as pessoas a criarem confrarias.
Primeiro há, obrigatoriamente, um hobby, uma atividade à qual os confrades se dedicam com grande prazer e que acaba por uní-los. Pode ser um esporte, arte, gastronomia ou outras atividades menos confessáveis, como a prática de rituais satânicos ou o prosaico roubo de dinheiro público. Mas essa é a parte mais concreta e formal. Há outras motivações mais interessantes.
O desafio intelectual pode ser uma delas, aprofundando o conhecimento sobre determinado assunto que nos agrada, descobrindo novas nuances e distintas perspectivas. Diminuir a solidão também pode ser um motivo. Praticar jogos de poder. Conhecer novas pessoas. Descolar flertes amorosos. Ou até agradar a mãe, diriam alguns freudianos mais empedernidos.
Mas há uma outra nuance mais sutil e, apesar disso, de uma força extraordinária. Há algo de espiritual em todos os contatos humanos e que se potencializa quando se reunem grupos de pessoas. É uma sensação de pertencer a algo grandioso, magnífico e inexplicável, que pode ou não ter conotação religiosa mas que está ligado a algo transcendente.
Ou tudo isso é apenas um rasgo de viadagem provocado pelos eflúvios alcoólicos do Chateau Pesquie Quintessence, o Syrah que me enfeitiçou. Seja o que for, foi muito bom.
Obrigado, Ademir, e demais companheiros da confraria.






Tem outro motivo pras confrarias de vinho: um modismo de classe média, que não tem dinheiro pra comprar um Chateauneuf-du-pape sozinho e se reune com amigos pra dividir a conta.
É mais barato e sempre mais divertido. E ainda nos possibilita chamar os amigos de fora pra confraternizar.
Obrigado pela presença, e pela homenagem.
Grande abraço
Ademir
Kleber, bel[issimo texto! Acho que poucas pessoas se referem ao amigo com tanta cortesia e deferência. Foi um prazer te conhecer, ter passado horas entre taças e rótulos , mas também foi um prazer saber que trabalha as palavras com tanta delicadeza e as usa de modo tão especial. Até breve. um beijo grande. Ana
Bem lembrado esse outro motivo, Ademir. Mas, como prefiro o alterego de motoqueiro malvadão para compensar a rotina de empresário, evito alimentar modismos pequeno-burgueses. Mas que eles têm um lado prazeroso, ah, tem mesmo. Quanto à presença, eu é que agradeço a oportunidade.
Baita abraço.
Cara Ana: obrigado pelas palavras gentis. Mas o fato é que fiquei realmente feliz com o convite do Ademir e com a agradável companhia de vocês. Portanto, eu é que agradeço a oportunidade proporcionada pelo meu amigo e a acolhida dos confrades.
Está certo que poderíamos ter sido poupados daquele vinho n-o 4 (o famigerado Chateau LaFleur). Mas aí a noite teria sido quase perfeita. E, como dizem que a perfeição só existe lá no céu, é bom termos alguns contratempos para permanecermos, ao menos por enquanto, nessa imperfeita e adorável vida terrena.
Espero ter uma nova oportunidade de reencontrá-los. Quem sabe não recebo novo convite em uma ocasião em que o quórum sofra alguma baixa inesperada e seja desejável mais alguém para rachar a conta?
Um abraço.