Angústia e celebração

Estávamos em cinco motos. Na frente, puxando o bonde, ia o Xukrutz, morador de Florianópolis e conhecedor da região. Atrás dele, Zé Águia, Daisson, Russo, Rudy e eu, fechando o bonde como ferrolho. Havíamos saído de Florianópolis às nove da manhã de sexta-feira, apanhado Zé Águia e Rudy pelo caminho e já seguíamos adiante de Itajaí, acelerando por uma BR 101 movimentada e cheia de caminhões. O destino era Morretes, no Paraná, onde comeríamos o famoso barreado e, no sábado, subiríamos a Serra da Graciosa rumo à Limeira, em São Paulo, para participar da festa de aniversário do motogrupo SombreroS.

Começamos uma leve subida em um trecho de pista dupla, com um canteiro no meio, uma vala para escoamento de água e um muro de concreto separando da pista contrária. No topo do aclive iniciava uma curva pouco acentuada à direita. A 100 quilômetros por hora, acompanhando o fluxo do trânsito, me mantinha concentrado na pista, no movimento de carros e caminhões ao meu redor, na moto do Rudy que seguia logo à minha frente e na correta tomada de curva. De repente, escuto um barulho forte e, pela visão periférica, vejo à minha esquerda, dentro da vala, uma nuvem de poeira e uma moto dando uma cambalhota no ar a mais de um metro e meio de altura! A reação imediata que chega junto com o susto é a de manter o controle da moto. Liguei o pisca e, na primeira brecha, fui para o acostamento da direita, fiz a volta e retornei alguns metros. Já havia carros parando e um companheiro do grupo, que parara no acostamento da esquerda, corria para dentro do valo. Desci da moto, tirei o capacete e corri na mesma direção, atravessando a BR meio afoito. Na vala, deitado de costas, com a jaqueta preta de motociclista toda suja de terra e grama, com a perna esquerda dobrada num ângulo preocupante, estava nosso amigo Daisson.

A partir daí, tudo aconteceu de forma meio confusa e desordenada. O tempo parecia passar depressa demais, as pessoas correndo para todos os lados, carros parando, tudo meio irreal como se fosse um pesadelo. E, estranhamente, se tinha a sensação de que o tempo havia parado, com o Daisson estendido ao lado da estrada naquela valeta de concreto, nós ao redor tentando reconfortá-lo com palavras confusas, a moto logo adiante tombada no asfalto, a ambulância demorando a chegar.

Não há como descrever o pânico, a incredulidade, a angústia de ver um amigo naquela situação crítica e a sensação de inutilidade que nos sufoca, de incapacidade de prestar ajuda. Alguns ficaram ao lado dele tentando mantê-lo acordado e lúcido, outros se reuniram para erguer a moto e recolher seus pertences que ficaram espalhados pelo acostamento, todos lutando contra o nervosismo até a chegada da ambulância.

Quando a sirene surgiu e a ambulância estacionou ao nosso lado, despejando enfermeiros pela porta traseira, o medo começou a ceder lugar para a esperança. O espanto do acidente e a enorme angústia de estar ao lado de uma cena de dor e destruição foi substituída por mãos hábeis, equipamentos de socorro e palavras que nos reconfortaram. Apesar da gravidade do acidente, nosso amigo estava fora de perigo e a caminho do hospital.

Só então, passada a reação inicial de se mobilizar em torno do ferido e tentar ajudar na medida do possível é que alguns se deram ao direito de começar a tremer e a confessar o susto e o medo que sentiram. Demorou um bom tempo, após a partida da ambulância e do guincho que viera buscar a moto, para conseguirmos recolocar os capacetes, as luvas e ligarmos, meio receosos, nossas motocicletas.

E assim terminava, prematuramente, nossa aventura em direção a Serra da Graciosa, ao Barreado de Morretes e a grande festa de aniversário dos SombreroS. Esse roteiro, planejado com antecedência e entusiasmo, foi substituído pela vigília angustiada no pátio do hospital Marieta Konder Bornhausen, ao longo de todo o resto da sexta-feira, a espera dos resultados das radiografias e do diagnóstico médico.

Mas quem acha que esse cancelamento de planos tão carinhosamente arquitetados só teve tristezas se engana por completo. De repente, a importância das amizades e a força e a solidariedade dessas parcerias muitas vezes alimentadas apenas na virtualidade da internet, e que era o objetivo principal da reunião no aniversário dos SombreroS, se fez presente com ainda mais intensidade no pátio do Marieta Bornhausen. Amigos e conhecidos da Lista Shadow e de outros recantos reais e virtuais se reuniram em torno da solidariedade a um amigo e, entre pastéis, cerveja, coca-cola, risadas, angústias, rezas e muita torcida positiva, exercitaram seu ritual de amizade e parceria.

Que este momento difícil se preste não para moralismos baratos ou regras e recomendações de conduta. Que ele sirva, isso sim, para a celebração dessa maravilha que é estar vivo, e vivendo entre amigos e amores verdadeiros.

 

Comments: 12

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Caramba…

Mas que urucubaca do cacete impregnada na Lista Shadow, facção rumo-a-sombreros, rapaiz…

É uma notícia ruim atrás da outra (atrás é bem coisa de gaúcho).

Vou descolar o celular dele e ver como anda.

Smack

EL GDM

 
 

Putz! Mas que droooogaaaaaaa! Espero que o mano esteja bem. Mande notícias, por favor… Valeu pelo companheirismo com Daisson! Abraços! Adv

 
 

Complementando, menos mal que foi “só” isso. Descendo de SP neste findi, vi cena horrível. Motoqueiro (jáspion) varou carro pequeno. Entrou por uma porta, saiu pela outra, levando junto o motorista. Há poucos minutos de eu passar pelo local. Isso nunca é bom ver, mas serve de lição para que fiquemos sempre de olho aberto, pois pilotar moto não depende só de nós, e sim dos outros.

 
 

Naquele momento, só fizemos o que nos era possivel fazer, como comentou o Diabolin acima, enquanto aguardavamos o socorro, UTI movel com pára-médicos, nos sentimos impotentes diante de tamanha tragedia, vendo o tempo passar em uma velocidade anormal e achando que o socorro demorava demais.
Mas é assim quando se espera por uma ação, parece que demora mais que o normal.
Parabéns a equipe da Auto Pista Litoral, pelo excelente atendimento presdtado ao nosso amigo Daisson.

 
 

Grande Kleber!

Por dentro de um malvadão, um grande coração!

Parabéns a todos pelo apoio ao Daisson!

 
 

Meus amigos…
Sinceramente eu não esperava menos de cada um que de certa forma auxiliou, não só o Daisson, mas todos os envolvidos…
Amo muito tudo isso..

Abraços

 
 

Grande GD: esse agosto foi pesado. Mas o pior já passou.

Abraço.

 
 

Caro Adv: ontem ele passou por cirurgia e o estrago foi menor do que o esperado. No final, apenas pinos, placas, rebites, parafusos, grampos, clipes, barbante e cola no fêmur. Deve receber alta amanhã ou depois.

Abraço.

 
 

Grande, Xutz: bem lembrado! A ação dos socorristas foi excelente. É incrível como, no meio daquela tensão, a chegada de gente especializada que sabe o que fazer tranquiliza a todos.

Abraço.

 
 

Chiamenti, como disse o Xutz, fizemos o possível, cada um dentro de sua capacidade de reação ao cagaço. Poderia ter sido bem pior. Agora é torcer pela recuperação do Daisson e para que não fiquem sequelas.

Abraço.

 
 

Caro Leporídeo, foi o que ficou de positivo: a solidariedade e a parceria de todos. E a lição de, em cima de uma moto, toda a atenção é pouco. Pena não termos podido, ao final, curtir a festa dos SombreroS com vocês. O próprio Daisson lamentou muito, pois ele havia planejado com carinho e antecedência essa motocada. Espero que ano que vem possamos estar presentes.

Abraço.

 
 

[...] não sem antes degustar o famoso barreado, especialidade gastronômica do lugar. Infelizmente, o acidente com nosso companheiro Daisson interrompeu nossos planos. Pois nessa semana eu tinha compromissos [...]

 
 
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