Bonequinhas e outros papos…

Há muito descobri que festas como Natal e Ano Novo só têm um significado digno de respeito: a lembrança de pessoas que são importantes para nós. Funciona assim como uma espécie de rescaldo em meio ao incêndio de nosso dia-a-dia, essa vida meio suicida na qual incineramos lembranças e amizades.

Me lembra um pouco daqueles filmes onde um bombeiro, em meio às cinzas fumegantes de uma casa calcinada, encontra uma pequena boneca milagrosamente intacta. Bom, talvez não totalmente intacta. Uma mecha de cabelo ou a ponta do vestidinho chamuscadas para aumentar a carga dramática (afinal, a distância e a falta de lembrança não passam impunes).

Não devíamos abusar tanto das bonequinhas…

Finalmente recebi a cópia em DVD da entrevista que dei no dia 14 de novembro, na TV COM, no programa da Tânia Carvalho, sobre o lançamento do livro Deus está morto?. Eu achava que a entrevista havia sido muito boa. Na verdade, foi melhor. O livro foi tratado com profundidade incomum para esse tipo de programa, com a participação de um professor de filosofia da PUC, Luciano Jesus, e uma psicóloga, Marilene Fonseca, além da própria Tânia Carvalho e deste escriba que vos tecla. E alguns trechos, com a devida modéstia, são dignos de destaque:

“Uma grande narrativa”. Tânia Carvalho

“Excelente o livro, que eu recomendo vivamente. Li-o num só fôlego. A questão “Deus está morto?” é o ponto de partida para toda uma reflexão sobre valores que o autor desencadeia”. Luciano Jesus, Professor Titular de Filosofia da PUCRS.

“Primeiramente gostaria de parabenizar o autor por ter tido a coragem de examinar com mais profundidade uma temática tão importante, tão relevante para nosso cotidiano… Essa discussão é muito oportuna, ou mais do que isso, ela é urgente.” Marilene Fonseca, Psicóloga.

“A grande questão do ser-humano é a questão do sentido da vida. E o livro discute isso”. Luciano Jesus.

Assim que eu conseguir algum mago que decifre os arquivos e consiga baixar no youtube eu aviso.

Terminei de ler um livro algo perturbador: Onde os velhos não têm vez, de Cormac McCarthy, que foi adaptado no cinema pelos irmãos Cohen no oscarizado Onde os fracos não tem vez. O título original, como sempre, reflete muito melhor o romance: “No country for Old Man”.

Perturbador, primeiro, pela linguagem. O autor (ou a tradutora) cometeu alguns experimentalismos gramaticais que quase me fizeram voltar na livraria e devolver o livro por “defeito de fabricação”. Porém livro é livro e sempre merece uma chance de dizer para que veio. Livros não são obrigados e, na verdade, nem é desejável, que repitam fórmulas. Claro que alguns experimentalismos simplesmente dão errado. Esse é um caso.

Mas perturbador também porque a história é cruel. Um ex-combatente do vietnã e soldador aposentado que, durante uma caçada, encontra uma valise com dois milhões de dólares em meio a carros metralhados, corpos ensangüentados e pacotes de heroína. Um xerife com um senso ético exagerado para tentar compensar um grande erro do passado. Um ex-coronel do exército contratado como caçador de recompensas. Um assassino profissional a serviço de um cartel de traficantes tentando recuperar o dinheiro. E todos engolfados numa nova realidade cujos padrões morais são contaminados pelas drogas e onde a violência e a deterioração dos valores tradicionais deixam os velhos perplexos, os jovens perdidos e muitos cadáveres pelo caminho.

E ainda há algumas idéias interessantes, como essas:

“Você nunca sabe de que azar ainda pior sua falta de sorte o poupou”.

“Um dia me perguntaram se eu acreditava no Diabo. Acho que quando era garoto acreditava, mas na meia-idade minha crença já tinha diminuído. Agora estou começando a creditar de novo. Só isso explica um monte de coisas que estão acontecendo e que, de outra forma, não têm explicação”.

“Esses velhos com quem eu falo, se você pudesse ter dito a eles que haveria gente nas ruas das nossas cidades do Texas com cabelo verde e piercing no nariz e falando uma língua que eles nem conseguiriam entender, bem, eles simplesmente não teriam acreditado. Mas e se, além disso, você tivesse dito que eles seriam seus próprios netos?”

“É trabalho para uma vida inteira ver a si mesmo como realmente se é. E mesmo nesse momento você provavelmente estará enganado”.

“Tempos atrás alguns professores encontraram uma pesquisa que havia sido enviada nos anos trinta para algumas escolas. Era um questionário que perguntava quais eram os maiores problemas em dar aulas nas escolas. As respostas eram coisas como conversar em sala de aula ou correr nos corredores. Mascar chicletes. Copiar dever de casa do colega. Então eles pegaram um desses questionários em branco, imprimiram cópias e enviaram para as mesmas escolas. Apenas quarenta anos depois. Bem, eis as respostas: estupro, incêndio criminoso, assassinato. Drogas. Suicídio. Então eu penso sobre isso. Porque a maioria das vezes em que eu digo que o mundo está indo para o inferno as pessoas sorriem e dizem que estou ficando velho”.

“Ela era esposa de alguém mais ou menos importante. E ficou falando que a ala da direita isso e a ala da direita aquilo. Não tenho nem mesmo muita certeza do que ela estava falando… Por fim ela disse o seguinte: Não gosto do rumo que este país está tomando. Quero que a minha neta possa fazer um aborto. E eu disse, bem minha senhora, não acho que precise se preocupar com o rumo desse país. Pelo que eu vejo não há dúvidas de que ela não só vai poder fazer um aborto como ainda vai poder fazer com que sacrifiquem a senhora. O que mais ou menos encerrou nossa conversa”.

McCarthy gostaria de ler Deus está morto?

 

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