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	<title>O Jardim do Diabo &#187; Grandes eventos</title>
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	<description>A mente desocupada é o Jardim do Diabo</description>
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		<title>De alma lavada</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 18:53:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Um dia inteiro andando de moto debaixo de chuva é muito melhor do que uma hora de trabalho num escritório&#8221;.
Difícil imaginar essa frase sendo aceita como uma unanimidade fora do círculo pouco convencional dos motoqueiros. Mas ela foi repetida com frequência nesse final de semana, em Camboriu, Santa Catarina, durante o encontro que comemorava os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Um dia inteiro andando de moto debaixo de chuva é muito melhor do que uma hora de trabalho num escritório&#8221;.</p>
<p>Difícil imaginar essa frase sendo aceita como uma unanimidade fora do círculo pouco convencional dos motoqueiros. Mas ela foi repetida com frequência nesse final de semana, em <a href="http://www.camboriu.com.br/" target="_blank">Camboriu</a>, Santa Catarina, durante o encontro que comemorava os 10 anos de existência da <a href="http://br.groups.yahoo.com/group/shadow600/" target="_blank">Lista Shadow</a>, uma das maiores comunidades virtuais de motoqueiros do Brasil.</p>
<p>O fato é que choveu. E choveu, choveu e choveu. Saímos de Porto Alegre às sete da manhã de quinta-feira, com um céu claro e poucas nuvens. Mas chegamos em Torres já com a viseira dos capacetes riscadas por filetes de água e com os joelhos das calças encharcados. Paramos num posto de combustível, abastecemos, colocamos as capas de chuva e aí não parou mais de desabar água. Foram trezentos e cinquenta quilômetros debaixo de chuva até chegarmos à Camboriu. E lá continuou chovendo toda a noite e a sexta-feira inteira.</p>
<p>Mas o que importa a chuva se estamos entre amigos, num encontro onde a alegria exagerada, a camaradagem explícita, o humor politicamente incorreto e muita cerveja correm soltos? Reencontramos velhos amigos e conhecemos novos, vindos de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo e até de Minas Gerais. Conversamos bobagens, rimos alto, jogamos fla-flu e ping-pong com os reflexos meio prejudicados pelo álcool, dançamos e bebemos aos pés do <a href="http://www.cristoluz.com.br/" target="_blank">Cristo Luz</a> com uma imagem deslumbrante da cidade &#8211; debaixo de chuva, claro &#8211; num ritual de descontração e camaradagem difícil de descrever.</p>
<p>É uma espécie de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Catarse" target="_blank">catarse</a>. Ao amarrar os alforjes, colocar o capacete, ligar a moto e pegar a estrada, os problemas e angústias do dia-a-dia ficam para trás. Aceleramos em direção a uma purgação de nossas culpas e pecados, um processo de purificação da alma que atinge seu ápice quando encontramos os amigos que percorreram caminho semelhante. Dentro de seu colete de couro com o brasão do motoclube costurado nas costas, o mais pacato executivo ou funcionário público vira um motoqueiro malvadão de mentirinha, que divide com seus pares histórias heróicas e divertidas, de credibilidade duvidosa, mas que todos fingem acreditar. E esse ritual se estende pela noite (ou enquanto durar a cerveja) até que, finalmente, todos atingem uma espécie de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Epifania_(sensação)" target="_blank">epifania</a>, uma revelação, quase um orgasmo. E uma puta ressaca.</p>
<p>E então chega a hora de colocar as roupas, agora suadas e sujas de lama, de volta nos alforjes, vestir o capacete e as luvas e pegar a estrada de volta. Por ironia do Patrão Grande do Céu, saímos de Camboriu com um dia lindíssimo e rodamos os mais de quinhentos quilômetros da volta debaixo de um céu claro e ensolarado. De alma lavada, enxaguada e seca.</p>

<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04731_640x480/' title='DSC04731_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04731_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Alforje de um motoqueiro malvadão" title="DSC04731_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04748_640x480/' title='DSC04748_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04748_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Belas máquinas..." title="DSC04748_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04750_640x480/' title='DSC04750_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04750_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Malvadões??? Fala sério..." title="DSC04750_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04755_640x480/' title='DSC04755_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04755_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vai faltar cerveja" title="DSC04755_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04763_640x480/' title='DSC04763_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04763_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Como motoqueiros malvadões jogam fla-flu" title="DSC04763_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04766_640x480/' title='DSC04766_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04766_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O reencontro de velho amigos" title="DSC04766_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04771_640x480/' title='DSC04771_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04771_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Motoqueiros malvadões e malvadinhos" title="DSC04771_640x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04788_360x480/' title='DSC04788_360x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04788_360x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Casal abençoado no Cristo Luz" title="DSC04788_360x480" /></a>
<a href='http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/de-alma-lavada/dsc04823_640x480/' title='DSC04823_640x480'><img width="150" height="150" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/06/DSC04823_640x480-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="1.075 quilômetros mais feliz" title="DSC04823_640x480" /></a>

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		<title>Mar de Letras, bendito seja</title>
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		<pubDate>Sun, 02 May 2010 16:12:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grandes eventos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Mar de Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Philip Roth]]></category>

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		<description><![CDATA[26/04 a 01/05
1-No planejamento de 2010, elegi como uma das prioridades mais prioritárias(com o perdão da redundância) o Projeto Mar de Letras. E não apenas pelo ócio reparador, pelo exercício intelectual edificante ou pelas eventuais produções literárias. O Projeto Mar de Letras é uma espécie de ponta de lança, de projeto piloto de um desejo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>26/04 a 01/05</p>
<p>1-No planejamento de 2010, elegi como uma das prioridades mais prioritárias(com o perdão da redundância) o Projeto Mar de Letras. E não apenas pelo ócio reparador, pelo exercício intelectual edificante ou pelas eventuais produções literárias. O Projeto Mar de Letras é uma espécie de ponta de lança, de projeto piloto de um desejo maior, uma nova fase após a conturbada jornada de menino-prodígio, jovem-trabalhador-exemplar, filhinho-de-papai, empresário peixe-fora-d&#8217;água e alma perdida. Metade do plano já funcionou.</p>
<p>2-Cheguei na praia, 2a feira, debaixo de chuva e, mesmo que o tempo tenha ameaçado dar uma trégua para que eu pudesse dar aquele velho pulo no centro e comprar algumas bobagens, na volta desabou um temporal que me fez chegar ao apartamento completamente encharcado. Porém, a noite, o céu limpou e fui dormir com estrelinhas espalhadas pelo firmamento. Muito meigo por parte de São Pedro, depois daquela bomba d`àgua que ele me jogou na cabeça.</p>
<p>3-Semelhante ao Mar de Letras de Março, esse também está completamente focado no novo livro que estou escrevendo sob encomenda. É uma pena porque, de todos os objetivos inerentes ao espírito lúdico e intelectualmente produtivo que imaginei para o Mar de Letras, só resta o trabalho árduo de escrever e escrever. Pior que é escrever a história dos outros, e não a de todos e minha também, que é o nome que se dá para ficção. Mas ainda assim é bem melhor do que digitar códigos de barra na internet ou decidir quais os fornecedores que serão brindados com o grampo por falta de dinheiro.</p>
<p>4-Esqueci de dizer que, além da obrigatoriedade de trabalhar quase que exclusivamente no livro da Fritz&amp;Frida, esse Mar de Letras começou meio capenga. Como não consegui adiantar todos os compromissos de uma semana, tive que passar na empresa na 2a feira de manhã. Trabalhei até o meio-dia e, na saída, passei no Makro Atacado imaginando algumas possibilidades gastronômicas para a semana especial que se prefigurava. Até um pacote com mexilhões, anéis de lula, pedaços de polvo e camarão eu comprei, imaginando algo parecido com a soberba Casuela de Calamares que fiz certo dia para a Lika. Espero que não fique só na imaginação. Até um Merlot de boa cepa veio junto como incentivo.</p>
<p>5-Segunda a noite comi um pedaço de pizza que trouxe de Porto Alegre, levemente incrementada com mais uns pedaços de queijo e uma lata de sardinha ao molho de tomate. Gastronomicamente, um início pobre, confesso. Pretendo, para os próximos Mares de Letra, elegar a gastronomia como parte integrante e prioritária do projeto.</p>
<p>6-Para aumentar minha produtividade na produção dos textos do novo, decidi que o cardápio do meio-dia se resumiria a um sanduiche. O motivo não é tanto a perda de tempo na confecção de um cardápio mais elaborado, mas os efeitos colaterais da degustação de uma refeição mais substanciosa acompanhada, invariavelmente, de cerveja ou vinho. A produção intelectual do início da tarde fica algo prejudicada. No entanto, esse plano falhou miseravelmente na terça-feira. Acontece que, no retorno da minha caminhada da manhã, já perto do meio-dia, passei em frente a um dos quiosques da beira-mar de Capão e um aroma irrestível penetrou em minhas narinas e me arrastou até o lugar de onde ele vinha: uma churrasqueira. Isso mudou imediatamente meus planos para o jantar, que era um espagueti a bolonhesa com iscas de peito de frango (tudo ingredientes que já estavam na geladeira). Fiz o espagueti no almoço e tirei do congelador um belo pedaço de maminha que irá para a churrasqueira à noite.</p>
<p>7-Fazia tempo que não faltava luz em Capão da Canoa. Ao menos não por mais de duas horas, como aconteceu na terça-feira. Interessante que sempre que falta luz relembro que esse é, sem dúvida nenhuma, uma das invenções mais imprescindíveis do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, sua ausência revela uma porção de coisas que estavam ocultas (ou, no caso, melhor seria dizer ofuscadas). Por exemplo, terça era noite de lua cheia. E é sempre um espetáculo fantástico ver a lua surgindo no horizonte, atrás do mar, linda e brilhante. Mas, com todas as luzes de Capão apagadas, ela brilhou ainda mais imponente. Avassalador. Daquelas coisas de assistir de joelhos, agradecendo a verdadeira dádiva.</p>
<p>8-Também descobri, com a falta de luz, que não tenho em casa nem lanterna, nem uma mísera vela. Ainda bem que uma pequena luminária que uso no meu notebook e que funciona conectada à porta USB, quebrou o galho. E à lua cheia, claro, que iluminou parte da minha sala como se fosse dia.</p>
<p>9-Outra coisa da qual estava afastado (e que, de vez em quando, me traz muitas saudades) era meu violão. Desta vez não esqueci de trazer o afinador eletrônico (que substitui, como uma muleta, minha incapacidade deprimente de distinguir tons) e meu livrinho de músicas. Os dedos vacilaram nas pestanas e começaram a doer logo após os primeiros acordes. Mas o coração pulou faceirinho uma barbaridade.</p>
<p>10-Vi, pela janela, um velhinho atravessar a rua com seu passo claudicante. Usava um casaco de crochê mostarda, um gorro preto de lã, sandálias e meias escuras. Arrastava as pernas com dificuldade, olhando para os lados e para o chão à sua frente com desconfiança. Do outro lado da rua, na calçada, uma menina loirinha de uns treze anos, vestindo uma bermuda de malha azul brilhante e uma camisetinha branca sem mangas, avançava rápida sobre seu par de patins. Nunca antes esse contraste me pareceu tão aterrorizante. Será que é porque nunca antes eu tive cinquenta e um anos?????????????</p>
<p>11-Depois das chuvas, os dias têm sido lindíssimos. Claros, ensolarados, com uma temperatura de país civilizado. Não bastasse isso, o mar está liso e azulado, com as longas linhas de ondas quebrando muito brancas. As caminhadas da manhã são revigorantes. Terça, havia um vento sudoeste frio e irritante, que tive que driblar voltando da caminhada pela avenida Paraguaçú. Mas ver o movimento, as vitrines coloridas e a agitação de tamanho exato do centro de Capão da Canoa também tem sua beleza. Acho que estou ficando velho e sentimental&#8230;</p>
<p>12-Na nova versão cinematográfica de Sherlock Holmes, o famoso detetive afirma: &#8220;É inconveniente tentar criar teorias com fatos incompletos. Fatalmente você deturpará os fatos para provar sua teoria, ao invés de procurar uma teoria que explique os fatos, como manda a boa ciência&#8221;. Eis uma das pragas modernas: todas as pessoas estão cheias de teorias e pouco se lixam para os fatos. A realidade, quando se trata de desejos e necessidades, é totalmente irrelevante. Daí para se chegar a conclusão de que todos tem a sua própria verdade foi um tapa. E deu nessa merda na qual estamos atolados. O fato é que não poderia ter dado em outra coisa.</p>
<p>13-Descobri hoje, na propaganda política obrigatória e indesejável, que o Partido Progressista faz parte da base do Governo Lula. Dizia um dos políticos que ocupava a telinha que o governo do PT defendia pontos importantes da cartilha do partido. Quem é o PP? Não sei. Mas descobri também que um de seus principais membros é Paulo Maluf. Depois, querem que se leve a política a sério no Brasil&#8230;</p>
<p>14-&#8221;A hipocrisia é nosso último reduto de privacidade&#8221;, diz Cindy, uma scort-girl, no livro &#8220;Fletcher venceu&#8221;, de Gregory McDonald. Sim, estou lendo um livro de Fletcher, um jornalista atrapalhado que desrespeita tudo que é regra e gosta de brincar de detetive. É uma paródia, de gosto duvidoso e qualidade literária pobre. Espero que não seja a decadência, mas apenas um prato leve entre leituras mais pesadas. Na verdade, cansei um pouco de ver Philip Roth falando de suas paranóias com a velhice e sua fixação com a morte.</p>
<p>15-Sábado, último dia de Mar de Letras, acordei muito cedo para assistir ao nascer do sol. Cevei um mate, ajeitei a cadeira na frente da janela, sentei e aguardei o espetáculo. Por mais que eu estivesse preparado, não imaginaria algo tão esplêndido. Magnífico. Maravilhoso. Fantástico. Espetacular. Extasiante. Monumental. Incrível. Mágico. Inebriante. Etc, etc, etc&#8230; Sei que a alegria e a felicidade faz uma literatura muito mais pobre do que a dor e a angústia. Já dizia Vinícius de Morais, nosso querido e eternamente embriagado poetinha: &#8220;mas pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza / é preciso um bocado de tristeza / se não não se faz um samba, não&#8221;. Ah, foda-se a tristeza e até a boa literatura. Nessa hora, quero mesmo é poder sentir toda essa felicidade que a vida me reservou (ou eu conquistei, sei lá). Só sei que vale a pena lutar por ela, mesmo tendo que sacrificar outras coisas. Inclusive a boa literatura.</p>
<div id="attachment_355" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04015_640x4801.jpg"><img class="size-full wp-image-355" title="DSC04015_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04015_640x4801.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">A lua surgindo no horizonte</p></div>
<div id="attachment_356" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04050_640x4801.jpg"><img class="size-full wp-image-356" title="DSC04050_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04050_640x4801.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">O nascer do sol... indescritível</p></div>
<p>&#8230;</p>
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		<title>Fórum da Liberdade</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 02:39:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assistir ao Fórum da Liberdade é sempre um exercício revigorante para o intelecto. Principalmente quando existem idéias contraditórias e podemos tirar conclusões a partir de nossas próprias deduções. Ou podem tirar conclusões aqueles que possuem, no mínimo, dois neurônios realizando sinapses (o Tico e o Teco). Não pude assistir a todas as palestras, mas o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assistir ao Fórum da Liberdade é sempre um exercício revigorante para o intelecto. Principalmente quando existem idéias contraditórias e podemos tirar conclusões a partir de nossas próprias deduções. Ou podem tirar conclusões aqueles que possuem, no mínimo, dois neurônios realizando sinapses (o Tico e o Teco). Não pude assistir a todas as palestras, mas o que vi (e ouvi) foi suficiente para confirmar algumas convicções e ver repetidos alguns exageros.</p>
<p><strong>Tiro no pé</strong></p>
<p>O principal convidado do Fórum da Liberdade desse ano como representante das idéias socialistas foi o Professor João Quartim de Moraes, um estudioso de formação marxista e adepto da teoria de que, no futuro, o capitalismo desembocará, fatalmente, em uma sociedade socialista. Mas sua palestra (e seus argumentos) foram por demais claudicantes diante dos atuais fatos históricos, como a comparação entre os resultados práticos da Alemanha e da Coréia Comunistas frente às suas irmãs gêmeas capitalistas ou o sempre desconcertante hábito dos cubanos de fugirem do paraíso socialista em balsas de borracha através de mares infestados de tubarões para desembarcar na cruel, desumana e pavorosamente capitalista Miami.</p>
<p>Mas o grande tiro no pé acabou sendo dado pelo mega-executivo Carlos Ghosn, Presidente do Conselho de Administração e Diretor Executivo da Renault e da Nissan Motor. Convidado como expoente do mundo empresarial e defensor da economia de mercado, acabou elogiando envergonhadamente a intervenção dos governos na recente crise mundial, achando que agiram muito bem governantes franceses e americanos ao transferirem milhões de dólares dos contribuintes para as empresas automobilísticas ameaçadas de falência. Sua justificativa não poderia ter sido melhor invocada por esquerdistas de todos os matizes: o salvamento de empregos. Entre eles, obviamente, o próprio.</p>
<p><strong>As raposas e o galinheiro</strong></p>
<p>O painel sobre capitalismo, que deveria ser um dos mais importantes e merecedor, por certo, de sólida e vigorosa argumentação, acabou sendo entregue a dois banqueiros (Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central, e Pedro Moreira Salles, Presidente do novo colosso bancário Itaú-Unibanco) e a um executivo estrangeiro que veio fazer média porque está abrindo negócios no Brasil.</p>
<p>Não foi apenas um painel monótono: comandado por dois representantes de um setor da economia que é visto com desconfiança por boa parte da sociedade, acabou pecando pela falta de credibilidade.</p>
<p><strong>Divertido mas nada a ver</strong></p>
<p>O palestrante que mais mexeu com a platéia, entre aqueles a que assisti, foi o renomado articulista de Veja e defensor meio circense dos administradores do Brasil, Stephen Kanitz. Gastou seu tempo fazendo propaganda de si próprio e tentando provar que os verdadeiros heróis da nação brasileira são os administradores. Foi o momento Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo do fórum.</p>
<p><strong>Boas idéias</strong></p>
<p>Mas teve coisas boas (e outras coisas ainda melhores) nas palestras a que assisti.</p>
<p>O discurso de Marcel Granier, presidente da RCTV, a emissora perseguida e fechada por Hugo Chavez na Venezuela, foi emocionante. Ao invés de demonstrar ódio e atacar Chavez, Granier exaltou a importância da liberdade de imprensa e o trabalho árduo (e perigoso) no qual estão envolvidos todos aqueles que tentam resistir à ditadura chavista. E ressaltou a difícil tarefa de vencer o medo.</p>
<p>Juan Fernando Carpio Tobar-Subía, professor de economia no Equador, fez uma palestra magistral. Densa, cheia de informações e exemplos e, ao mesmo tempo, divertida. É dele uma afirmação instigante: é repetida com insistência a tese da exploração dos países mais pobres pelos países mais ricos, principalmente em relação ao comércio de commodities e matérias primas. Afirma-se que os países ricos compram produtos baratos (ferro, alumínio, petróleo, carne, bananas) e revendem produtos industrializados caríssimos. Pois Fernando Carpio afirma que exploração de verdade é alguém oferecer um cacho de bananas ou um barril de óleo gosmento em troca de um Ipod.</p>
<p>Outro fato interessante que aconteceu foi a confissão, mesmo que disfarçada, feita por Quartim de Moraes, o socialista, de que a Rússia, em determinado momento de crise de produção de alimentos e de fome generalizada, permitiu que algumas comunidades de camponeses passassem a produzir alimentos sem o controle do Estado, em um sistema de liberdade, entregando apenas parte da produção como imposto, ao invés de entregar toda a produção e depois receber de volta cotas de racionamento de alimentos. O aumento de produtividade foi tremendo! Lembrou um pouco os cubanos que criam porcos e galinhas nos seus apartamentos, escondidos do governo, para terem uma alimentação melhor.</p>
<p>Outra questão que surgiu em mais de uma palestra do Fórum da Liberdade foi considerações sobre a pobreza no mundo, principalmente na palestra de Eduardo Marty, um argentino muito bem articulado. Todos os dados comprovam que houve um significativo aumento da riqueza em todos os continentes. E que esse crescimento foi bem mais acentuado nos países que optaram por sistemas econômicos de mercado. O padrão de vida de um cidadão de classe média nos dias atuais é superior ao de um rei da Idade Média.</p>
<p>Por falar nessa questão, Fernando Carpio propôs um exercício de raciocínio interessante. Ele pediu que se imaginasse esse rei medieval entrando em uma máquina do tempo e vindo aos dias atuais. Aqui, ele visitaria a casa de um cidadão rico e a de um cidadão pobre. O que mais impressionaria esse visitante do tempo? As diferenças ou as semelhanças entre as duas residências? É claro que seriam as semelhanças. Esse rei, que nunca viu uma geladeira ou um fogão a gás, encontraria ambos nas duas casas. De marcas e qualidade diferentes, é certo, mas ambos estariam presentes, tanto para o rico quanto para o pobre. Encontraria também, para seu total espanto, coisas incríveis como televisão e rádio. E encontraria em ambas as residêncais a maior invenção de todos os tempos, o utensílio mais útil e revolucionário que se pode imaginar: o banheiro. Para um rei que fazia suas necessidades em um penico e as guardava debaixo da cama, o banheiro é muito mais revolucionário do que o Ipod ou a internet.</p>
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		<title>Mar de Letras again</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Mar 2010 02:13:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[14 a 20/03/2010
1-Eis-me novamente em Capão para mais uma edição do Mar de Letras. Depois das últimas confissões sobre o prazer quase transcendental que esse retiro ócio-literário-espiritual me proporciona, desnecessário repetí-las. Apenas para não deixar passar em branco esse momento de intenso sentimento, vou abandonar momentaneamente a linguagem literária para reafirmar essa sensação de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>14 a 20/03/2010</p>
<p>1-Eis-me novamente em Capão para mais uma edição do <em>Mar de Letras</em>. Depois das últimas confissões sobre o prazer quase transcendental que esse retiro ócio-literário-espiritual me proporciona, desnecessário repetí-las. Apenas para não deixar passar em branco esse momento de intenso sentimento, vou abandonar momentaneamente a linguagem literária para reafirmar essa sensação de uma forma mais, como direi, popular: é bom pra caralho!</p>
<p>2-Bueno, deixe-me retirar o ócio e o espiritual. O Mar de Letras de janeiro tinha uma forte carga de relax após os quatro anos da Faculdade de Letras. Eu estava com um fartão da PUC (agora estou com saudades, fazer o quê&#8230;), e queria mesmo vadiar, apenas vadiar. Por isso caminhei muito, li muito, vi vários filmes e produzi uma razoável quantidade de textos descomprometidos. Dessa vez, porém, estou aqui com um compromisso e já bastante atrasado. Em dezembro, fechei contrato para a produção de mais uma história empresarial de uma importante indústria de alimentos do Vale dos Sinos. Com as festas de final de ano, as várias férias (esse foi um ano generoso!) e mais carnaval e otras cositas, acabei ficando atrasado com meu cronograma. Consegui fazer várias entrevistas e recolher boa quantidade de material, mas a produção literária estava um fiasco. Então, esse Mar de Letras foi uma concentração para recuperar o atraso. Deu certo.</p>
<p>3-Mas, em contrapartida, todo o resto foi pobre de doer.</p>
<p>4-Em termos de leitura, avancei mais algumas páginas do livro que eu já estava lendo, <em>maisquememória</em>, do Marcelo Bakes, mas sem dedicação nem entusiasmo. É um livro estranho, que merece o rótulo de interessante mas que não me fez perder o sono nenhuma noite. Consegui ler um conto do Altair Martins, publicado no jornal literário Rascunho que assino (e pouco leio), uma reportagem antiga sobre uma viagem de moto de um maluco até Ushuaia (maluco não por ter ido até lá de moto, mas por ter feito isso em três dias e meio, com uma média de quase mil quilômetros por dia!). Ah, e li também um rótulo de um vidro de azeite de oliva. Pouco, muito pouco. Também tentei ler uns dois artigos da <em>Speak-Up</em>, uma espécie de curso de inglês em formato de revista, mas o resultado foi tão lamentável que nem conta. Apaga aí.</p>
<p>5-Em termos culinários, foi pior ainda. Tirando os churrascos de segunda, quinta e sexta, o resto foi alguns sanduíches sem imaginação, uma galinha assada no forno com menos imaginação ainda e uma omelete sem comentários. Arrisquei uma salada de siri, usando um pouco da carne que havia comprado para fazer umas casquinhas no sábado para minha amada e a sogra, mas o resultado foi decepcionante. Não das casquinhas, bem entendido. Mas, pensando bem, que chances tinha uma salada de siri de sair uma coisa que prestasse?</p>
<p>6-No departamento cinematográfico, as coisas não foram muito melhores. Remei dois dias num filme chato de doer que simplesmente não engrenava. O nome do dito era <em>O solista</em>, com o Downey Junior e o Jamie Fox. Os atores não são ruins, mas o roteiro se arrastava para lugar nenhum. Simplesmente abandonei o maldito. Praga de alguma associação anti-pirataria?</p>
<p>7-Também tentei o <em>The blind side</em> (pessimamente traduzido em português para <em>Um sonho possível</em>), filme que deu um espantoso Oscar para Sandra Bulock na edição desse ano. Em tese, o filme se baseia numa história real. Mas é tão inverossímel que só pode mesmo ter acontecido na realidade. Na ficção, não convence.</p>
<p>8-Quanto ao Oscar da Sandra, certamente foi uma piada da Academia. Logo, logo eles devem chamar a Meryl Streep, pedir desculpas e dizer que as piadas da cerimônia estão mesmo ficando cada vez mais sem graça.</p>
<p>9-Para não dizer que foi tudo lamentável, cinematograficamente falando, dei boas risadas com o DVD do show do Guri de Uruguaiana, uma competente criação do Jairo Kobe. Ver o Michael Jackson e o Elvis Presley interpretando o <em>Canto Alegretense</em> foi de lascar. E as participações do Rui Biriva e do Daniel Torres estavam excelentes.</p>
<p>10-O tempo ajudou e consegui manter longas e deliciosas caminhadas à beira mar. Como o mar estava limpo e a areia livre do enxame de porcos que caminham sobre duas patas e transformam a praia num lixão a céu aberto durante a temporada, foi só alegria. Deu até para filosofar sobre o incrível contraste entre a obra de Deus e a obra dos homens, expostas lado a lado. Mas ficou tão piegas que vou poupar vocês, estimados leitores.</p>
<p>11-Escrevo essas tortuosas linhas na sexta-feira, depois de um churrasquinho amigo e de terminar de ver o filme da Sandra Bulock, e já recordo que amanhã é dia de voltar para a cidade. Algumas lamentações até caberiam, mas seria uma ingratidão.</p>
<p>12-Nesse entrevero, troquei vários telefonemas com minha amada que está na maior ansiedade. Depois de dez anos com seu valente Ka, ela está trocando de carro. Merecido, muito merecido. É uma mulher adorável, cheia de entusiasmo e batalhadora. Merece até o excepcional (e modesto) parceiro que tem.</p>
<p>13-Como nem tudo é perfeito, acabo de lembrar que a pia está cheia de louça, talheres, copos e espetos. Minha saudade da minha amada aumentou.</p>
<p>14-Por mais inacreditável que pareça (e é realmente inacreditável), depois da fraca produção literária da segunda-feira decidi que teria que mudar minha rotina para que pudesse chegar ao menos perto do objetivo deste Mar de Letras. Então, acordei às sete e meia na terça e, na quarta, quinta e hoje, às sete. Eu disse que era inacraditável. Eu próprio não acredito. E amanhã, sábado, pretendo acordar às sete de novo. Acredito menos ainda.</p>
<p>15-Pois acordei de novo às sete! Foi demais! Nem São Pedro aguentou. Choveu uma barbaridade.</p>
<p>16-Mas chuva só é castigo para quem fica. Como eu ia embora da praia, logo saiu um sol de rachar.</p>
<p>17-Nada que abalasse meu bom humor ou diminuísse essa minha espécie de felicidade existencial. Ah, que bem me faz um <em>Mar de Letras</em>!</p>
<p>&#8230;</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; III e chega</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 03:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<category><![CDATA[A Onda]]></category>
		<category><![CDATA[Anthony Bourdain]]></category>
		<category><![CDATA[ceviche]]></category>
		<category><![CDATA[Philip Roth]]></category>

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		<description><![CDATA[O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo O último caso da colecionadora de livros? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo <em>O último caso da colecionadora de livros</em>? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos meses e estou um pouco enfarado de velhos doentes (sim, sim, prometo que depois falo de Philip Roth e seus últimos temas recorrentes).</p>
<p>Mas voltando às minhas leituras (já disse que falo de Philip Roth outra hora), tenho um plano que arquitetei no ano retrasado: ler no mínimo um livro de cada um dos últimos vencedores dos Prêmios Nobel de Literatura. Encarei Kenzaburo Oe e seu excelente <em>Uma questão pessoal</em> e Günter Grass e o estranho <em>Gato e rato</em>, comprei mais uns dois ou três e acabei me desviando para meu Trabalho de Conclusão de Curso da PUC. Agora, ando um pouco relutante em encarar essa literatura escolhida pela academia menos por seus méritos do que por seus aspectos políticos e sociais. Tomei um certo fartão de ler, nas cadeiras de literatura da PUC, um calhamaço de textos sobre pretensas minorias e oprimidos sociais: foram histórias de homossexuais, lésbicas, judeus, africanos, muçulmanos, alemães segregados nos tempos da guerra, gaúchos expulsos de suas pequenas propriedades pelo avanço dos latifúndios, vítimas de preconceitos e desajustados sociais de toda espécie. Há mérito em dar espaço para novas vozes, escapando do cerco opressivo dos WASP, e acabei lendo algumas boas histórias e textos de ótima qualidade. Mas quando o critério de escolha não é o mérito literário e sim algum tipo de denúncia social, acaba desabando muita porcaria nesse caldeirão bem intencionado. A verdade é que, se meu interesse fosse histórico ou sociológico, eu não teria escolhido a faculdade de Letras. É imprescindível que, além de uma boa história, um livro tenha também qualidades literárias.</p>
<p>Há uma outra opção que me atrai pois significa retornar ao atraente gênero dos romances policiais. Em um dos programas de TV do Anthony Bourdain, ele entrevistou um conhecido autor de romances policiais da Escócia, Ian Rankin. Fiquei interessado e acabei comprando o livro <em>Questão de sangue</em>, que está lá na estante me olhando com aquela cara de &#8220;e aí, vai encarar?&#8221;. Quem sabe, quem sabe&#8230;</p>
<p>Também tenho algumas pendências, como ler novamente <em>O Nome da Rosa</em>, de Umberto Eco, que já comecei várias vezes e nunca consegui chegar ao fim. É um livro tão denso e cheio de referências extra-textuais (apesar de ser, no fundo, um romance policial) que acabo me sentindo sufocado por não compreender todas suas implicações.</p>
<p>Mas há outra linha de leitura que preciso seguir. Meu novo projeto literário, que por enquanto estou chamando apenas de “Humano&#8230;”, é uma espécie de continuação de <em>Deus está morto?</em> Se no livro anterior traço uma espécie de painel de como uma sociedade pode passar da civilização para a barbárie, nesse próximo pretendo discutir exatamente o caminho inverso. Para isso, quero reler alguns livros de história e de filosofia, principalmente sobre o período em que a humanidade emergiu das trevas da Idade Média e brilhou no renascimento e no iluminismo.</p>
<p>Esse emaranhado de opções cuspidas e escarradas acima acaba me lembrando a piada do sujeito que chegou no balcão do bar e pediu uma coca-cola. O atendente perguntou: “Regular ou diet?”. Ele pensou um pouco e respondeu: “Regular”. O atendente perguntou novamente: “Cherry ou normal?”. O sujeito pensou um tempo maior e disse: “Normal”. O atendente perguntou outra vez: “Com cafeína ou sem?”. O cara perdeu a paciência e falou: “Pensando bem, me vê uma Pepsi”.</p>
<p>Não, não vou ler a Caras.</p>
<p>&#8230;x&#8230;<em></em></p>
<p>Foi, no mínimo, uma sacanagem. Um pouco incomodado com meus remorsos, resolvi acordar mais cedo na quinta-feira. Não muito mais cedo, confesso, mas ainda assim mais cedo. Tomei meus mates e, continuando com a campanha anti-remorsos, decidi sair para minha caminhada. O céu estava claro e um sol já alto fez com que me lembrasse das recomendações da Lika. Meio contra a vontade, me lambuzei de protetor solar, coloquei um chapéu, óculos escuros e parti para a beira do mar, em direção a Araçá.</p>
<p>Tudo ia bem até que resolvi dar uma olhada por cima do ombro. Às minhas costas, um céu cinza-chumbo ameaçador se estendia até a Patagônia. A minha frente, um céu azul e um sol de verão. Atrás, uma amostra-grátis do Apocalipse.</p>
<p>Claro que voltei para casa debaixo de um aguaceiro de afogar jundiá. A chuva empapava minha camisa, embaçava meus óculos, arriava as abas do meu chapéu. E fazia eu me sentir completamente ridículo com aquele monte de protetor solar me lambuzando.</p>
<p>Mas, lembrando a hora em que eu andava acordando e o relaxameno com minhas caminhadas, fiquei contente por não ter caído um raio na minha cabeça.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Assisti ao filme <em>A Onda</em>, que estava em evidência nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa. É uma produção alemã que traz para discussão, mais uma vez, o sentimento atual dos alemães em relação ao episódio do nazismo. O enredo é interessante: um professor pouco tradicional planeja trabalhar, em uma classe especial, com o tema político anarquia, com o qual se identifica. No entanto, devido a uma manobra de um professor mais antigo, ele acaba incumbido de trabalhar com um tema totalmente oposto, a autocracia, que é um sistema ditatorial no qual um determinado grupo assume o governo e passa a exercer não apenas o poder, mas a representar a própria lei. Um pouco desconfortável, esse professor sente dificuldade em desenvolver o tema com seus alunos, principalmente quando surge em sala de aula a discussão sobre o nazismo como um exemplo de autocracia do passado. Como vários alunos defendem a tese de que não têm culpa pelos erros de seus antepassados e que não haveria mais espaço para um regime fascista na Alemanha, o professor sugere uma experiência prática. Propõe a criação de uma autocracia no próprio grupo, através da disciplina, organização e igualdade. Em pouco tempo, através da liderança rígida do professor que define um pensamento único e proíbe discordâncias, do sentimento de unidade que surge, da anulação das individualidades e da criação de símbolos (como o nome do grupo, <em>A Onda</em>, um uniforme e um logotipo), cria-se um forte sentimento de grupo. Esse sentimento dá aos membros da <em>Onda</em> a sensação de que são melhores do que os outros e eles passam a excluir os que não pertencem ao grupo. Inevitavelmente, esse comportamento logo resulta em episódios de intolerância, preconceito e violência. E, quando o professor se dá conta, o movimento fugiu ao seu controle.</p>
<p>É uma interessante visão da natureza humana e do comportamento das massas, quando manipuladas. É fácil (e assustador) perceber que a maioria nem sempre tem razão. Porém, é igualmente uma maneira de reduzir a responsabilidade do povo alemão pelos resultados do nazismo, evidenciando o enorme poder que uma liderança carismática pode exercer e a irracionalidade que permeia os comportamentos grupais.</p>
<p>Mas <em>A Onda</em>, se por um lado descreve o comportamento sectário e violento que, aos poucos, vai tomando conta do grupo, não deixa de mostrar que há escolha e que, no fim, é impossível fugir da responsabilidade individual. No grupo, há duas pessoas de comportamento exatamente oposto. Um garoto que transforma o movimento do grupo na sua razão de vida, e uma estudante que, desde o princípio, percebe que há algo de errado no rumo que os acontecimentos vão tomando e acaba lutando contra o movimento.</p>
<p>Tecnicamente, o filme não é dos melhores, principalmente para quem está acostumado ao padrão hollywoodiano. Mas a atuação do professor como líder do movimento é convincente e a riqueza do tema acaba prendendo a atenção até o desfecho presumivelmente trágico.</p>
<p>Recomendo.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Como publiquei um post exaltando os amigos que estiveram presentes na minha formatura, não posso deixar de comentar que dois queridos companheiros que não estiveram lá me ligaram durante a semana. Alberto e João, obrigado pelas felicitações e pelo apoio sincero. Estão, obviamente, perdoados.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Entre outros aspectos, esse primeiro Mar de Letras do ano estava se destacando pela pobreza culinária. Como disse em outras ocasiões, sinto verdadeiro prazer em pensar em combinações de ingredientes e temperos e, mais ainda, de colocar tudo isso em prática na cozinha. Mas, até agora, tudo que fui capaz de fazer foi um churrasco de carne velha, uma macarronada com restos de frango, uma torrada com tomate, outro churrasco e um picadinho de queijo e salamito.</p>
<p>Então resolvi, na quinta-feira, tentar um prato que há tempos vinha planejando. Não sei quando ouvi falar nele pela primeira vez, mas assisti no mês passado a um programa gastronômico do Olivier Anquier em que ele visitou um famoso restaurante flutuante em Angra dos Reis e o proprietário apresentou uma de suas especialidades: o ceviche. Dizem que é uma especiaria originária dos Incas e um prato muito comum no Peru e no Equador. Outros dizem que sua origem é árabe, tendo chegado na Europa e na Espanha e, daí, alcançado as colônias na América do Sul.</p>
<p>Acreditando que a verdadeira origem do universo é, na verdade, esse blog, vamos ao que interessa. O ceviche é, basicamente, pedaços de peixe (de preferência de carne firme) que são mergulhados em suco de limão por um tempo que varia conforme o tipo de peixe. A carne é cozida apenas pela acidez do limão. Depois, os pedaços de peixe são misturados com cebola e tomate picados. Também podem ser acrescentados pimentão (verde e vermelho) picados e azeitonas fatiadas. Pelas características do prato, acredito que algumas alcaparras combinariam bem e cogumelos fariam um belo contraponto em termos de textura.</p>
<p>Eu, particularmente, sou fã de uma citação atribuída a Woody Allen quando indagado sobre comidas exóticas, principalmente aquelas especiarias asiáticas que costumam rastejar no prato: “Eu gosto da minha comida morta. Bem morta”. Eu ampliaria essa citação para dizer que gosto da minha comida cozida. Bem cozida. Não tenho nenhuma atração por carnes cruas (exceto, talvez, um carpaccio regado com um bom azeite extra-virgem e guarnecido de alcaparras). Portanto, esse peixe cozido apenas pelo suco de limão não gozava da minha confiança. Para evitar passar fome caso minhas suspeitas se confirmassem, resolvi fazer metade do peixe levemente frito e depois rapidamente refogado no vinho branco.</p>
<p>Assim, montei os dois pratos, ambos misturados com cebola, tomate, pimentões verde e vermelho e azeitonas verdes recheadas com pimentão fatiadas. No prato com o peixe cozido misturei um pouco de suco de limão. Ficaram dois pratos de sabor completamente diferentes e nenhum deles muito bom.</p>
<p>O ceviche, apesar de não ter ficado com gosto de peixe cru, ficou muito forte, com o sabor excessivamente carregado pelo limão. Talvez se, depois do tempo marinando, o peixe fosse lavado em água ou em vinho branco, ficasse com um gosto menos ácido. Já o peixe cozido, ao contrário, ficou com gosto de nada. Apenas a cebola e as azeitonas deram um pouco de sabor ao conjunto. Mas há a forte possibilidade de que essa minha impressão tenha sido causada pelo contraste com o sabor forte do peixe marinado em limão.</p>
<p>No final, fiquei com a impressão de que uma mistura, na proporção de duas partes de peixe cozido com uma parte de ceviche, resultaria num prato de personalidade bem marcante.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Uma pergunta que Tony Bourdain costuma fazer quando entrevista chefs de cousine: “Imagine você no corredor da morte, com direito a uma última refeição. Que prato você pediria?”.</p>
<p>Acho isso uma grande sacanagem. Não estar no corredor da morte já que é provável que a cota de pecados que acumulei seja suficiente para me garantir uma vaga nesse lugar famoso. Falo de escolher apenas UM prato. Quem poderia resumir seus desejos mais viscerais a apenas uma opção?</p>
<p>Mas pense, se você estivesse nessa situação, o que pediria. É provável que a resposta a esta pergunta revele mais de você do que todas as consultas ao analista que você já freqüentou na vida. E a revelação, sinto dizer, provavelmente o surpreenderá. Negativamente.</p>
<p>Apenas uma pessoa no mundo é capaz de adivinhar qual o prato que você escolheria, o que equivale a dizer que apenas uma pessoa no mundo, e não é você, o conhece de verdade. É aquela que lava suas cuecas.</p>
<p>Não me pergunte qual a relação que existe entre especiarias gastronômicas e lavagem de cuecas. Não faço a mínima idéia. Mas pode acreditar que é verdade.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Ok, ok. Se eu estivesse no corredor da morte e tivesse direito a uma última refeição, que prato eu pediria?</p>
<p>Minha tese está correta. Eu gostaria de achar que pediria um filé de salmão grelhado guarnecido por aspargos, champignons e legumes cozidos no vapor, acompanhado de um Chardonay ou de um Chablis de boa cepa. Ou, quem sabe, um <em>boeuf a bourgnion</em> com um vigoroso Cabernet Sauvignon. Mas esse não sou eu, sou apenas quem eu acho que gostaria de ser.</p>
<p>Na verdade, eu pediria um churrasco de costela mal-passado, com aipim cozido e um engradado de cerveja bem gelada.</p>
<p>Eu avisei&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Esse Mar de Letras, o primeiro de 2010, não era para fazer um balanço do ano passado nem para definir objetivos e metas para esse ano. Não era para ler coisas que eu deveria ter lido e não consegui, nem para escrever coisas pendentes ou inacabadas. Esse Mar de Letras era para vadiar. Para relaxar. Para não fazer nada que representasse uma obrigação auto-imposta ou uma responsabilidade herdada.</p>
<p>Em novembro, completei cinqüenta e um anos. Um dia antes, minha filha fez dezoito e alcançou a maioridade. No domingo passado, me formei na Faculdade de Letras da PUC, minha segunda faculdade. Esses acontecimentos representam, para mim, uma espécie de marco, o encerramento de uma etapa de vida.</p>
<p>Desde os catorze anos, quando meu pai me levou para a empresa e disse que era hora de começar  a trabalhar para dar valor ao dinheiro, que tenho vivido soterrado por objetivos, metas, planos e projetos. Sempre fui assim. O desempenho escolar, a poupança rígida para as primeiras viagens, o vestibular na UFRGS, a casa na praia, a primeira motocicleta, os projetos de engenharia na empresa, as expectativas do casamento, planos e mais planos ambiciosos de crescimento nos negócios, a educação da filha. E então a difícil convivência com os fracassos, o inevitável sentimento de culpa, uma cobrança opressiva e permanente. Ao decidir mudar tudo e recomeçar, mais planos, projetos, objetivos e metas. E cobranças, muitas cobranças.</p>
<p>A maldição é que o carrasco mais cruel que maneja o chicote das cobranças não é um patrão obsessivo e autoritário, um pai controlador, nem mesmo uma sociedade manipuladora ou um círculo de relações com um opressivo código de status. O grande criador, manipulador e controlador desse sistema de exigências sou eu próprio.</p>
<p>Não que isso seja necessariamente ruim. É bem provável que seja uma vida melhor do que ser inconseqüente, irresponsável e vagabundo. Mas tenho a sensação de que, ao fim e ao cabo, andei exagerando. Eu devia pegar um pouco mais leve comigo mesmo.</p>
<p>Pois essa é a idéia não só desse Mar de Letras, mas de todo o ano de 2010. Uma espécie de Ano Sabático, de relaxamento e reflexão, de colocar em prática alguns dos meus desejos mais profundos que estão encarceirados exatamente porque fogem do padrão, do normal, do seguro.</p>
<p>Isso pode soar meio absurdo para um sujeito que, aos quarenta anos, decidiu mudar radicalmente de profissão, fez uma nova faculdade, escreveu vários livros, deu dezenas de palestras para estudantes por todo o interior do Rio Grande do Sul, cruzou a Cordilheira dos Andes de moto, embarcou em vários cruzeiros marítimos, fez incontáveis viagens e se divertiu com amigos do peito. E que conseguiu, ao menos algumas vezes, por em prática esse tal de Mar de Letras, onde jogou para um lado toda a rotina, as obrigações e as responsabilidades para se dedicar à contemplação de uma janela maravilhosa de frente para o mar, lendo, escrevendo e se dando ao direito de fazer apenas o que der vontade. Bem, não apenas soa como absurdo: é um absurdo mesmo.</p>
<p>A verdade é que ter feito tudo o que fiz sem, no entanto, ter rompido radicalmente com o passado nem ter jogado todas as cartas numa aventura incerta pode muito bem ser visto mais como uma virtude do que como um defeito. E essa minha aparente revolta contra as cobranças nada mais é do que a repetição da mesma maldição. Afinal, aqui estou me cobrando novamente por não ter feito as coisas de forma diferente.</p>
<p>Acho que estou precisando de umas boas palmadas na bunda&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; II</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 00:38:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cliff Janeway]]></category>
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		<category><![CDATA[Mar de Letras]]></category>
		<category><![CDATA[O último da colecionadora de livros]]></category>
		<category><![CDATA[Quentin Tarantino]]></category>

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		<description><![CDATA[Diário de bombordo
Por falar em Bastardos Inglórios, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Diário de bombordo</strong></p>
<p>Por falar em <em>Bastardos Inglórios</em>, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um mínimo de cem escalpos de alemães. É ao menos uma abordagem diferente daquela que o cinema nos acostumou a ver, com milhares de judeus marchando submissos para as câmaras de gás. No desenrolar da ação, duas outras tramas paralelas se entrelaçam numa conspiração para eliminar o terceiro Reich.</p>
<p>Mas o filme é Tarantino demais. Não são as referências cinematográficas extra-filme, nem o clima indisfarçável de western e o constante ar de paródia e de deboche que acaba me incomodando. Essa fórmula, que zomba do conceito de verossimilhança, precisa de mais humor ou mais cinismo para funcionar. Em <em>Bastardos Inglórios</em> faltaram ambos.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Quarta-feira acordei tarde de novo. Não tinha mais a pedra no estômago, mas continuei com remorso, agora também por perder novamente outro pedaço da manhã. Ao menos o tempo tem me ajudado. Chovia quando levantei e, exceto por alguns breves minutos ao longo do dia, o céu esteve sempre cinzento. Na verdade, esteve assim na segunda e na terça-feira. Cevei meu mate e, pensando sobre os planos para 2010, li alguns relatos das poucas vezes em que consegui executar meu projeto Mar de Letras no ano passado. Mas já falei disso e falei com gosto.</p>
<p>Evitei o mesmo erro de terça e comi uma fatia de cuca integral às onze, três pedaços de milho verde à uma e um sanduíche aquecido na torradeira às duas. Isso permitiu que eu voltasse a pensar com carinho na janta e isso me levou, inevitavelmente, a um belo pedaço de costela assada. Fora essa fidelidade gauchesca ao churrasco, devo confessar que esse Mar de Letras está terrivelmente pobre em termos gastronômicos.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Terminei de ler <em>O último caso da colecionadora de livros</em>, de John Dunning. Foi uma enorme decepção. John Dunning é o autor de um dos melhores livros policiais que já li até hoje. A empatia com seu detetive Cliff Janeway, que conheci em <em>Impressões e Provas</em>, foi imediata. Não apenas o texto era bem construído e o ritmo rápido e contagiante. A saga pessoal de Janeway me cativou. Ele é um policial durão que, nas horas vagas, coleciona livros raros. No meio da trama, ao enfrentar um criminoso abjeto que constantemente se livra da lei graças à sua fortuna pessoal, a advogados imorais e a um sistema frouxo que beneficia os criminosos, ele passa dos limites e é obrigado a abandonar seu emprego. Então, corajosa (ou temerariamente), ele se atira num sonho maluco de virar livreiro. Falando assim, pode soar meio inverossímil. Aliás, policial durão que coleciona livros raros parace uma baita viadagem. Mas a narrativa é bem construída e Janeway transita bem nesse duplo papel, com um certo ar de menino perdido que não sabe o que quer da vida.</p>
<p>Já nesse <em>O último caso da colecionadora de livros</em> tudo é ruim. A trama é mal arquitetada e tudo soa meio falso. A investigação de Janeway é arrastada, claudicante e sem uma lógica que o leitor possa acompanhar. Mas o pior é que a narrativa se arrasta por quase quatrocentas páginas com um desenrolar absurdo. O grande detetive Janeway, dono de uma livraria em Denver, passa quase todo o livro trabalhando de ajudante em hipódromos, carregando feno, lavando e esfregando cavalos e limpando bosta das baias. Nos intervalos ele interroga pessoas de forma aleatória e com resultados pífios.</p>
<p>Acho que John Dunning perdeu um leitor.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p><em>Foi um amigo que me levou a esse lugar, há algum tempo, numa ruazinha estreita e calçada de pedras de Edimburgo. (&#8230;) Um lugar perfeito para tomar uma cerveja, acreditem. Um pub de esquina, despretensioso, com uma pequena placa e janelas esfumaçadas. Da rua não se pode ver nada lá dentro. (&#8230;) É a calma perfeita, e o primeiro gole de cerveja inspira sentimentos de serenidade quase transcendental. O refúgio ideal, longe do mundo moderno, longe de todos os seus problemas. Imediatamente depois de dependurar meu casaco num velho cabide, virei para meu amigo e comuniquei: “Vou ficar morando aqui”.</em></p>
<p>Essa pequena passagem do livro <em>Em busca do prato perfeito</em>, de Anthony Bourdain (que peguei na estante após abandonar John Dunning), me fez lembrar com imensa saudade dos pubs de Londres. A calma, a paz, a serenidade, um ar meio medieval em meio às mesas e balcões de madeiras pesadas e escuras, uma sensação de isolamento mesmo em meio a outras pessoas, um estranho sentimento de se estar em um encontro perfeito com nós mesmos, prontos para confidências, abertos a pensamentos impuros, dispostos a uma honestidade brutal ou a um simples e reconfortante silêncio respeitoso.</p>
<p>Ainda há lugares para se fugir desse burburinho de gente barulhenta que se acotovela feito um enxame de formigas na beira da praia de Capão ou desses malditos carros de som que passam anunciando as ofertas do Shoping de Fábricas ou as promessas estridentes dos Aqualoucos.</p>
<p>&#8230;</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; I</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 23:05:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<category><![CDATA[planejamento]]></category>
		<category><![CDATA[retiro espiritual]]></category>

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		<description><![CDATA[20 a 25/01/2010
Diário de bombordo
Enquanto pensava em começar a escrever o diário desse Mar de Letras, já meio atrasado (hoje é quarta-feira e estou aqui desde o final da segunda), resolvi reler alguns dos últimos relatos do projeto. É fácil alinhavar motivos e justificativas que me levaram a criar esse projeto, mas é difícil explicar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>20 a 25/01/2010</strong></p>
<p><strong>Diário de bombordo</strong></p>
<p>Enquanto pensava em começar a escrever o diário desse Mar de Letras, já meio atrasado (hoje é quarta-feira e estou aqui desde o final da segunda), resolvi reler alguns dos últimos relatos do projeto. É fácil alinhavar motivos e justificativas que me levaram a criar esse projeto, mas é difícil explicar o quanto ele significa para mim e o prazer que ele me dá. É um conjunto de atividades que valorizo demais (ler, escrever, exercitar o intelecto), esta janela fantástica de frente para o mar e a sensação de liberdade, de dedicação apenas ao que é importante (mesmo que isso signifique, às vezes, não fazer nada ou trabalhar pesado). Mas lá estava, nesses relatos às vezes emocionados, às vezes meio decepcionados, um bom retrato do que vai pelo meu coração e mente. Há racionalizações irretocáveis, explosões de alegria, angústia e decepção. E também alguma poesia. Indiscutível, talvez, apenas a certeza de que a freqüência em que consegui colocar o Projeto Mar de Letras em prática é muito menor do que eu planejara. Em 2009 foram apenas duas edições, em julho e agosto.</p>
<p>Mas, como em todo início de ano, aqui estou novamente prometendo que, desta vez, será diferente. Há algumas circunstâncias que conspiram a favor: o término da Faculdade de Letras da PUC cuja formatura foi no domingo passado, que me roubava tempo e energia, apesar do estimulante exercício intelectual; o fato de minha filha ter feito dezoito anos, ter entrado para a faculdade e começado a trabalhar, o que, ao menos em tese, diminui o peso da minha responsabilidade com seu sustento e me permite levar mais a sério meus sonhos adiados; um certo estágio da carreira de escritor que me permite projetar resultados um pouco mais concretos; e, mais importante, o desejo de completar esse processo de transição iniciado há mais de dez anos.</p>
<p>Sei que é meio auto-flagelante lembrar que já fiz promessas parecidas antes, cobertas de argumentos bem racionalizados, transformadas em planos e metas infalíveis que, miseravelmente, falharam.   e que acabaram se mostrando um grande engano. Mas foda-se. Lá vou eu novamente!</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Cheguei na segunda já no fim da tarde. Era para ter saído de Porto Alegre de manhã, mas consegui ficar arrumando mesas, guardando papéis, revisando pendências, respondendo emails, limpando piscina, enrolando e enrolando até às quatro. Resultado que cheguei em Capão anoitecendo, num final de tarde cinzento e com um nordestão furioso varrendo a praia e levantando nuvens de areia. Com isso, minha caminhada sagrada foi suspensa e parti direto para a segunda parte do meu plano, sem dúvida a mais importante: abrir uma cerveja gelada, colocar carvão na churrasqueira e tirar da geladeira um pedaço de costela que tinha ficado lá no final de semana. Sem remorsos!</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Na terça, fiz uma coisa nada aconselhável quando se trata de alimentação. Como fui deitar tarde na segunda assistindo ao filme <em>Bastardos Inglórios</em> (do qual falarei logo adiante), acabei acordando já quase dez da manhã. Fiz um mate e fui revisar meu diário de 2009 para fazer um resumo, ressaltar as realizações mais importantes e esboçar algumas metas para 2010. Acabei tomando café (meu sagrado e inútil<a href="#_ftn1">[1]</a> prato de cereais) depois do meio dia e almoçando às quatro da tarde. Tudo errado, mas com potencial para piorar. Como almocei muito tarde e estava com uma fome de tiranossauro, devorei uma travessa pantagruélica de espagueti com peito de frango desfiado ao molho de tomate. Resultado que passei o resto da tarde e boa parte da noite com uma pedra no estômago. Era mais de meia noite quando consegui beliscar um picadinho de queijo e salamito de janta. E, claro, fui dormir tarde de novo. Desta vez, com remorsos.</p>
<hr size="1" /><a href="#_ftnref1">[1]</a> Com esse comentário inauguro a prática de Notas de Rodapé para relatos despretensiosos. Sem dúvida, uma baita pretensão. Quanto ao comentário em si, ano passado fiz uns exames que acusaram um alto nível de colesterol. O médico recomendou cuidados com a alimentação e, a partir de então, comecei a comer religiosamente, toda manhã, um prato de cereais com granola, aveia e flocos de milho. Semana passada repeti os exames e meu colesterol havia aumentado!</p>
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		<title>Destino generoso</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 16:10:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho repetido que o destino tem sido generoso comigo. Pode soar meio piegas (e talvez até seja), mas o que posso fazer se é verdade?
Concordo que tenho uma razoável participação nisso. Se ficasse apenas deitado numa rede me lamentando da vida ou escutando a grama crescer, certamente não aconteceriam tantas coisas emocionantes nessa minha curta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho repetido que o destino tem sido generoso comigo. Pode soar meio piegas (e talvez até seja), mas o que posso fazer se é verdade?</p>
<p>Concordo que tenho uma razoável participação nisso. Se ficasse apenas deitado numa rede me lamentando da vida ou escutando a grama crescer, certamente não aconteceriam tantas coisas emocionantes nessa minha curta biografia. Mas a sorte tem estado a meu lado.</p>
<p>Poucos dias após ter retornado de um belíssimo cruzeiro por Fernando de Noronha, Natal, Recife e Porto de Galinhas, e de ter passado um maravilhoso (e emotivo) final de ano com grandes amigos, eis que outra grande emoção me aguardava.</p>
<p>Ontem, após quatro anos de batalha, me formei na Faculdade de Letras da PUC-RS. Foram anos de muito estudo e trabalho, onde abri mão de várias coisas, principalmente de um maior convívio com minha família e amigos, para conquistar mais essa graduação. Mas também foram anos de prazer e diversão, nesse desafio intelectual que muito me estimula.</p>
<p>Além da cerimônia de colação de grau, com todo seu ritual e simbolismo planejados para representarem algo grandioso, também tive a felicidade de receber o abraço de familiares e amigos.Obrigado a todos que estiveram presentes nesse momento especial e também àqueles que me apoiaram ao longo de toda a jornada. E, já que é para ser piegas, um sincero agradecimento a mim mesmo.</p>
<div id="attachment_252" class="wp-caption alignnone" style="width: 627px"></p>
<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_255" class="wp-caption alignnone" style="width: 627px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03113_640x4802.jpg"><img class="size-full wp-image-255" title="DSC03113_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03113_640x4802.jpg" alt="" width="617" height="463" /></a><p class="wp-caption-text">Turma de formandos em Letras - PUC-RS 2010</p></div>
</dt>
</dl>
</div>
<div id="attachment_254" class="wp-caption alignnone" style="width: 646px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03170_640x480.jpg"><img class="size-full wp-image-254" title="DSC03170_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03170_640x480.jpg" alt="" width="636" height="476" /></a><p class="wp-caption-text">Minha companheira amada</p></div>
<div id="attachment_256" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03166_640x480.jpg"><img class="size-full wp-image-256" title="DSC03166_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03166_640x480.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">Minha filha amada</p></div>
<div id="attachment_257" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03164_640x480.jpg"><img class="size-full wp-image-257" title="DSC03164_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03164_640x480.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">Minhas meninas e meu irmão</p></div>
<div id="attachment_258" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03185_640x480.jpg"><img class="size-full wp-image-258" title="DSC03185_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03185_640x480.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">Os amigos que foram comemorar</p></div>
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		<title>Um grande 2010 para todos nós!</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jan 2010 01:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Grandes eventos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[2010]]></category>
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		<description><![CDATA[Já havia experimentado a fómula ano passado e o sucesso foi espetacular. Repeti esse ano e deu certo de novo. Na verdade, não tinha como dar errado. Passar a entrada do ano junto com bons amigos é, sem dúvida, a melhor escolha que se pode fazer.
E espero que essa fórmula sirva também como uma avant-premiére [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já havia experimentado a fómula ano passado e o sucesso foi espetacular. Repeti esse ano e deu certo de novo. Na verdade, não tinha como dar errado. Passar a entrada do ano junto com bons amigos é, sem dúvida, a melhor escolha que se pode fazer.</p>
<p>E espero que essa fórmula sirva também como uma avant-premiére para 2010. Há muito que tenho me convencido de que não há nada mais importante do que os amores e os amigos, no que se misturam e se completam. Sim, sim, tem também churrasco e cerveja gelada. Mas isso todo mundo sabe.</p>
<p>Obrigado aos amigos que me brindaram com sua hospitalidade e seu afeto nessa entrada de 2010. Espero que esses momentos de prazer se repitam muitas vezes.</p>
<p>E estendo esse desejo para meus demais bons amigos que, se não estiveram presentes fisicamente nos abraços de felicitações do primeiro do ano, certamente estiveram em lembrança.</p>
<p>Um grande 2010 para todos nós!</p>
<p><img id="image223" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03033_640x480.JPG" alt="DSC03033_640x480.JPG" /></p>
<p><img id="image224" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03050_640x480.JPG" alt="DSC03050_640x480.JPG" /></p>
<p><img id="image226" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03064_640x480.JPG" alt="DSC03064_640x480.JPG" /></p>
<p><img id="image227" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03070_640x480.JPG" alt="DSC03070_640x480.JPG" /></p>
<p><img id="image225" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/01/DSC03043_640x480.JPG" alt="DSC03043_640x480.JPG" /></p>
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