Cinderela às avessas

Era uma vez uma princesa feia. Mas feia de doer. Porém, era uma princesa, mesmo que não tivesse esse título pelas vias protocolares da linhagem familiar ou das benesses matrimoniais. O que provava que ela era uma princesa na alma era o fato de ter se apaixonado por ela um príncipe. E não um príncipe qualquer, mas o Príncipe da Inglaterra.

Mas ela era feia. E, em tempos onde o culto à beleza já superava em muito a valorização das virtudes (inclusive as principescas), a Princesa Feia foi trocada por outra que, apesar da mediocridade e da falta de graça, era linda. Muito linda. E, óbvio, pela Princesa Linda se apaixonou o populacho, enaltecendo-a como um anjo redentor, uma divindade criada pela vontade do povo que projetava-se nela, medíocre e sem graça, mas que podia alcançar a realeza.

Havia, contudo, um detalhe insignificante para o povo mas importante no mundo real, frio e insensível em suas formalidades institucionais. O Príncipe não se apaixonara pela Princesa Linda. Ou, se paixão houvera, ela se esvaira nos desvãos fatalistas da volubilidade humana. E como numa redenção purgativa, o Príncipe assumiu que amava mesmo era a Princesa Feia.

Inescrutáveis são os desígnios do destino (ou as ações humanas bem camufladas), mas o final da história é trágico e, ao mesmo tempo, redentor. A Princesa Linda morreu, a Princesa Feia viu-se enfim aceita na corte e o Príncipe provou que o amor, sim, é cego. Cego de doer.

 

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