De alma lavada

“Um dia inteiro andando de moto debaixo de chuva é muito melhor do que uma hora de trabalho num escritório”.

Difícil imaginar essa frase sendo aceita como uma unanimidade fora do círculo pouco convencional dos motoqueiros. Mas ela foi repetida com frequência nesse final de semana, em Camboriu, Santa Catarina, durante o encontro que comemorava os 10 anos de existência da Lista Shadow, uma das maiores comunidades virtuais de motoqueiros do Brasil.

O fato é que choveu. E choveu, choveu e choveu. Saímos de Porto Alegre às sete da manhã de quinta-feira, com um céu claro e poucas nuvens. Mas chegamos em Torres já com a viseira dos capacetes riscadas por filetes de água e com os joelhos das calças encharcados. Paramos num posto de combustível, abastecemos, colocamos as capas de chuva e aí não parou mais de desabar água. Foram trezentos e cinquenta quilômetros debaixo de chuva até chegarmos à Camboriu. E lá continuou chovendo toda a noite e a sexta-feira inteira.

Mas o que importa a chuva se estamos entre amigos, num encontro onde a alegria exagerada, a camaradagem explícita, o humor politicamente incorreto e muita cerveja correm soltos? Reencontramos velhos amigos e conhecemos novos, vindos de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo e até de Minas Gerais. Conversamos bobagens, rimos alto, jogamos fla-flu e ping-pong com os reflexos meio prejudicados pelo álcool, dançamos e bebemos aos pés do Cristo Luz com uma imagem deslumbrante da cidade – debaixo de chuva, claro – num ritual de descontração e camaradagem difícil de descrever.

É uma espécie de catarse. Ao amarrar os alforjes, colocar o capacete, ligar a moto e pegar a estrada, os problemas e angústias do dia-a-dia ficam para trás. Aceleramos em direção a uma purgação de nossas culpas e pecados, um processo de purificação da alma que atinge seu ápice quando encontramos os amigos que percorreram caminho semelhante. Dentro de seu colete de couro com o brasão do motoclube costurado nas costas, o mais pacato executivo ou funcionário público vira um motoqueiro malvadão de mentirinha, que divide com seus pares histórias heróicas e divertidas, de credibilidade duvidosa, mas que todos fingem acreditar. E esse ritual se estende pela noite (ou enquanto durar a cerveja) até que, finalmente, todos atingem uma espécie de epifania, uma revelação, quase um orgasmo. E uma puta ressaca.

E então chega a hora de colocar as roupas, agora suadas e sujas de lama, de volta nos alforjes, vestir o capacete e as luvas e pegar a estrada de volta. Por ironia do Patrão Grande do Céu, saímos de Camboriu com um dia lindíssimo e rodamos os mais de quinhentos quilômetros da volta debaixo de um céu claro e ensolarado. De alma lavada, enxaguada e seca.

 

Comments: 4

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Realmente, o Landão é bem malvadinho….

encontro XDB!!!!

 
 

Gracias pela companhia na motocada, parceiro: minhas observações estão lá no http://www.pirex.blog.br/10-aniversario-da-lista-shadow-600-03-a-06062010/

Abração!

 
 

A festa realmente foi 10, os comentários tbm foram 10, o Guarda Chuva na mala de viagem, esse foi 11. hehehehe….

 
 

Bonelinho: e tu és uma grande figura. Bom demais rever o amigo.

Piréx: eu que agradeço a parceria. Espero que ela se repita por muitos e muitos encontros nesse mundão de Deus.

Xukrutz: DEZ mesmo foi a organização de todos os que se empenharam em preparar essa festança buenaça no más. Valeu a camaradagem e a companhia no retorno a Florianópolis.

Baita abraço.

 
 
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