Desabamento
Dizem que foi um estrondo violento, como se fosse um terremoto. Não escutei. Acordei pouco depois da meia-noite com o barulho das sirenes dos caminhões de bombeiros e dos carros da polícia. Primeiro pensei que fosse um desses eventos artísticos que transtornam uma cidade e tiram a paz de todos os cidadãos residentes em benefício de uma horda de forasteiros que invade as ruas, pisa nas flores, cospe nas calçadas, emporcalha os canteiros com latas de cerveja, garrafas de cachaça e bitucas de cigarro, fala alto, quebra placas de sinalização, arruma brigas e confusões, muitas vezes sequer assistindo o maldito do show. E depois partem, deixando para trás um cenário trágico de terra arrasada.
Quando fui até à janela e vi o primeiro carro de bombeiros passar, imaginei que talvez fosse um incêndio. Já havia vários carros estacionados na rua em frente ao meu apartamento e aumentava o fluxo de pessoas que passavam a pé, apressadas. Mas não vi nenhum clarão de chamas nem fumaça. Sou curioso, mas meu nível de morbidez não é dos mais elevados. A conclusão óbvia é que, seja lá o que tivesse acontecido, coisa boa não era. Apenas no dia seguinte soube que havia desabado parte de um edifício a meia quadra do meu prédio, e que quatro pessoas haviam morrido em meio aos escombros.
A primeira reação é de incredulidade: como pode acontecer uma coisa dessas? Um prédio desabar! Um prédio é um lugar feito para pessoas morarem, tem engenheiros responsáveis, projetos cheios de coeficientes de segurança, fiscalização de órgãos públicos, paga um monte de taxas e impostos para ser construído, é um lar com famílias dentro: não pode simplesmente desabar! Logo em seguida, uma segunda idéia nos assalta: será que o MEU prédio é seguro? Para quem nunca tinha dado muita importância para isso, agora fica impossível subir ou descer as escadas sem ficar procurando marcas de rachaduras nas paredes ou trincas de ferragem enferrujada nas vigas de concreto. E essa dúvida e a angústia que ela provoca ficará permeando nosso pensamento durante muito tempo.
Mas, depois do impacto inicial e suas repercussões naturalmente egocêntricas, nos damos conta de que pessoas morreram e isso causa um profundo malestar, uma tristeza um pouco solidária mas que também traz a idéia de que “poderia ter sido eu”.
No fim, resta aquela sensação de vulnerabilidade, de que a vida é muito efêmera, que somos uma partícula de pó insignificante diante de um universo hostil. E dá uma vontade de viver mais rapidamente, de acelerar nossos sonhos, de pegar um empréstimo suicida e torrar tudo numa moto poderosa e numa grande viagem ao redor do mundo.
…






Empréstimo! Torrar! Moto poderosa! Volta ao mundo!
Vamuneeeeeeeeessssaaaaa!
Abraço!
Olha que a Luiza, a Lika e a Paty nos puxam as orelhas! Então, vamos sair rapidinho antes que elas nos vejam, huahuahuahuahuahuahuahuahu.
K.