Do caos à vadiagem

Fui atirado do caos à vadiagem. Ou quase isso.

Duas semanas atrás eu estava envolvido em tantos acontecimentos importantes (urgentes e inadiáveis) que me sentia numa panela de pressão. Cheguei a comentar aqui.

Passado o lançamento de “Deus está morto?” e meu aniversário, e terminadas as provas e os trabalhos de final de semestre da PUC (em especial o estágio obrigatório), me sinto como se estivesse pairando numa atmosfera sem gravidade. Da bigorna na cabeça à leveza do inefável.

Claro que não é bem assim. Os problemas e as responsabilidades da empresa continuam,minha filha está às vésperas do vestibular (com toda a tensão que isso provoca), o final de ano traz muitas festas e ainda mais despesas, os tropeços familiares acontecem, os erros do passado cobram suas dívidas insistentemente e as incertezas do futuro não desaparecem jamais.

Mas a pressão diminuiu.

Para não relaxar demais e andar de pijama e chinelos-de-dedo da manhã à noite, resolvi seguir as sugestões de um sujeito que escreveu um texto muito interessante, que reproduzo abaixo.

A essência da tese dele é que devemos fazer coisas diferentes (e importantes) o maior número de vezes. Se possível, todos os dias.

Comecei ontem: fiz absolutamente nada. O que, comparando com o que eu vinha fazendo antes, foi algo totalmente novo. E importante, claro.

Hoje, almocei com minha filha e, de noite, fiz um churrasquinho para a Lika. Amanhã, pretendo buscar minha moto na revisão e incentivar minha turma de motoqueiros a reativar o encontro das Quintas-Gaudérias. Sexta, tem a festa de final de ano da empresa.

É melhor reservar o sábado para me dedicar intensamente a fazer nada de novo.

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Por quê o tempo parece acelerar?

 Texto de Airton Luiz Mendonça (Publicado no jornal o Estado de São Paulo)
O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio… você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Então… Quando tempo suficiente houver passado, você perderá completamente a noção das horas, dos dias…ou anos. Estou exagerando para efeito didático, mas em essência é o que ocorreria.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. Se alguém tirar estes sinais sensoriais da nossa vida, simplesmente perdemos a noção da passagem do tempo.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia.

Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia. Para que não fiquemos loucos, o cérebro faz parecer que nós não vimos, não sentimos e não vivenciamos aqueles pensamentos automáticos, repetidos, iguais.

Por isso, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir, tudo parece muito complicado, o câmbio, os espelhos, os outros veículos… nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular (proibido no Brasil), ao mesmo tempo. E você usa apenas uma pequena “área” da atenção para isso.

Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência).

Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente.

Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa… São apagados de sua noção de passagem do tempo… Por que estou explicando isso?

Que relação tem isso com a aparente aceleração do tempo? Tudo.

A primeira vez que isso me ocorreu foi quando passei três meses nas florestas de New Hampshire, Estados Unidos, morando em uma cabana. Era tudo tão diferente, as pessoas, a paisagem, a língua, que eu tinha dores de cabeça sempre que viajava em uma estrada, porque meu cérebro ficava lendo todas as placas (eu lia mesmo, pois era tudo novidade, para mim). Foram somente três meses, mas ao final do segundo mês eu já me sentia como se estivesse há um ano longe do Brasil. Foi quando comecei a pesquisar a razão dessa diferença de percepção.

Bastou eu voltar ao Brasil e o tempo voltou a “acelerar”. Pelo menos, assim parecia. Veja, quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir — as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações… enfim… as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.

Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a…r-o-t-i-n-a.

Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

O ANT

 

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Ursão:
Resolvi dar um passeio no seu jardim, ler um pouco do seu blog e vi as fotos do seu aniversário. Em pensar que há 10 anos atrás qdo. te conheci, você não estava achando a mínima graça em comemorar 40 anos se lembra disso? No entanto agora, a impressão que eu tive é que foi muito bom!!! Como dizem, a idade vai nos dando sabedoria…. Parabéns atrasado meu urso, pelos cinquentinha e sucesso no seu novo livro.

 
 

Querida Beth, que surpresa agradável tua visita! Pois tens razão: minha vida, nos últimos dez anos, melhorou e muito! A decisão de mudar tudo foi difícil, dolorosa, arriscada, temerária mesmo. Mas valeu a pena. O destino tem sido generoso comigo (apesar de me cobrar algumas contas atrasadas com certa crueldade). Mas os bons momentos e as conquistas têm sido amplamente superiores.

E entre essas alegrias estão, com certeza, meus livros. Eles são, ao mesmo tempo, motivo e resultado dessa mudança. Criadores e criaturas.

Obrigado pelo apoio e pelas palavras carinhosas.

Um grande abraço.

http://www.kleberboelter.com

 
 
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