HD TV: verdades e mentiras

Todos sabem que vendedor é uma profissão que exige uma grande dose de persuasão. E boa parte dela está baseada na sua capacidade de mentir ou, na melhor das hipóteses, de esconder informações que não interessem ao seu obejtivo maior que é vender a qualquer custo.

Com a proximidade da Copa do Mundo, e um pouco decepcionado com o péssimo sinal que recebo da Sky, minha operadora de TV a cabo, resolvi pesquisar se valia a pena assinar um pacote com canais HD (de alta definição). A primeira coisa que descobri é que a oferta de canais transmitindo em HD é muito pequena. Depois, descobri que a desinformação dos vendedores, tanto das operadoras de TV paga quanto das lojas que comercializam aparelhos, é de chorar. E descobri, finalmente, que esses vendedores compensam sua falta de conhecimento com um bem arquitetado conjunto de informações falsas cujo objetivo é vender pacotes de canais HD e TVs Full HD.

Antes de analisarmos os fatos verdadeiros, vamos recordar algumas definições técnicas. O principal fator que caracteriza a qualidade de uma transmissão de imagem é chamado de definição. Como se forma a imagem em uma TV? A grosso modo, ela é desenhada em “linhas” na tela, começando da esquerda para a direita e de cima para baixo. Mas não são linhas contínuas, como se você pegasse uma régua e fizesse um traço a caneta. As linhas são formadas por pontos, como se você colocasse vários pontinhos, um ao lado do outro. Então imagine que você vai colocar uma cena na tela da TV e começa no canto superior esquerdo. Você coloca um monte de pontinhos, um ao lado do outro, até formar a primeira linha. Então, começa a colocar os pontinhos na segunda linha e assim por diante, até completar a imagem em toda a tela. Como você vê, dá um trabalho danado desenhar cada lance de uma partida de futebol ou de um filme, mesmo de um jogo entre pernas-de-pau ou um filme ruim à beça.

Cada um desses pontinhos se chama pixels. É fácil concluir que quanto mais linhas de pontinhos, ou seja, quanto mais pixels, mais nítida será a imagem. As TVs antigas (analógicas) tinham imagens formadas por 400 linhas horizontais e 525 linhas verticais (que se escreve 525×400). Com o crescimento dos televisores (que antigamente tinham, no máximo, 21 polegadas), essa quantidade de pontinhos (pixels) não era mais suficiente para “encher” a tela. Então, junto com as tecnologias LED e Plasma, surgiram várias definições maiores, sendo classificadas como SD (standard definition) imagens formadas por 480 linhas e, a partir de 720 linhas, como HD (hight definition). Os padrões atuais de TVs de LCD e Plasma mais comuns encontradas nas lojas são de 1020×720, 1366×726 e 1920×1080 (a famosa Full HD). Além da quantidade de linhas, também é importante saber como essas imagens são formadas, se de forma entrelaçada ou progressiva. Uma explicação mais detalhada pode ser encontra nesse artigo. E é importante pensar que uma definição de 340 linhas em uma tela de celular pode ser excelente e que uma definição de 720 linhas em uma TV de 50 polegadas não é grande coisa.

Feita essa pequena (e necessária) introdução, vamos aos fatos. A primeira coisa que vendedores de TV a cabo e, principalmente, de televisores, nos levam a crer é que TV digital é sinônimo de alta definição (e que, portanto, para assistirmos a Sky ou NET digital precisamos ter uma TV digital). Depois, eles nos induzem a pensar que alta definição é sinônimo de 1920×1080 pixels (isto é, 1920 linhas verticais e 1080 linhas horizontais progressivas, chamada de full HD).  Nesse embalo, as operadoras de TV por assinatura dizem que transmitem sua programação HD em 1080 linhas e, obviamente, os vendedores de TV empurram a idéia de que apenas com uma TV Full HD (bem mais cara) você poderá assistir a esses programas com uma ótima definição. Tudo mentira.

Primeiro, transmissão digital não é sinônimo de alta definição (e nem mesmo de grande qualidade). É apenas uma forma de transmissão de sinais diferente da TV analógica. Isso explica uma coisa que todos vêem mas não conseguem entender: porque a imagem da Sky, que é digital (e tão alardeada nas propagandas), recebida numa TV digital de 40 polegadas ou mais, é pior do que a imagem normal da TV aberta recebida numa TV analógica de 21 polegadas? Muito simples. Porque a imagem da Sky, apesar de ser digital, é transmitida em definição standard, e fica uma porcaria em uma TV com tela grande (tem poucos pixels e não consegue “encher” a tela).

Segundo, nenhuma operadora de TV a cabo transmite imagens com 1080 linhas progressivas (full HD). São, sim, imagens de alta definição (HD), mas com, no máximo, 720 linhas (e, em geral, menos do que isso). Portanto, com uma TV de 1336×726 (padrão da maioria das TV digitais) você estará perfeitamente aparelhado para assistir a TV de alta definição, sem precisar trocar seu aparelho por uma full HD como o fazem crer os vendedores de televisão. Se você comprar uma Full HD, gastará uma boa grana a mais e terá um equipamento cujos recursos não utilizará. Aliás, pasme, mas nem seu DVD de última geração, com upscale, True Motion e o escambau, transmite com 1080 linhas. Os únicos aparelhos comerciais, atualmente, que produzem imagens full HD são os Blu-Ray e alguns jogos do Play Station 3. Um ótimo artigo que explica bem isso pode ser encontrado aqui.

Portanto, a vendedora da Sky ou da NET que disser que, assinando seus pacotes HD, você estará recebendo imagens com 1080 linhas, estará mentindo. Vendedor de TV que disser que você precisa comprar uma TV full HD para assistir aos canais HD da TV por assinatura, estará mentindo ainda mais (porque essa mentira custará caro).

É recomendável lembrar que, se a definição é o fator mais importante ao escolher uma TV digital, ele não é o único. Outros parâmetros como tempo de resposta, taxa de contraste e outros também são importantes.

Mas, afinal, há uma diferença significativa entre os canais normais e os canais HD (em alta definição)? A resposta é sim. E muita, quando há riqueza de detalhes. Numa partida de tênis ou num show, aparece ao fundo uma platéia toda borrada nas TVs normais. Você nem consegue identificar se quem está assistindo é uma moça loirinha ou um orangotango peludo. Numa transmissão em alta definição, você saberá não apenas a cor do cabelo da loirinha, mas também a cor dos seus olhos e se ela está piscando para você. É impressionante a qualidade e a nitidez de detalhes em grande parte da programação em HD, principalmente quando provenientes de fontes qualificadas.

Se você puder, desfrute dessa nova e incrível experiência de imagem e som proporcionada pelas novas tecnologias. Mas não se deixe fazer de bobo.

 

Comments: 6

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O Jardim do Diabo é cultura – e do tipo tecno.

Show, bro. Abraço!

 
 

Além de peão agora vc está entrando no mundo da TI é?
Suas definições da formação das imagens descreveu perfeitamente o princípio da transmissão de FAX, onde tudo isso começou, ainda com pixels monocromáticos, ou seja, 0 (zero) = branco (sem impressão) e 1 (um) = negro (com impressão).
Parabéns pelo artigo.
BuenaMazzoAbrax

 
Avelino Cassol
 

k_ralho, Diaboleta, tu ta cada vez + phodão.
Muito bom o teu artigo. Aproveitando, estgou vendendo uma TV LCD FHD.

Abraço

Avélinho

 
 

Diabolin,

Excelente explicação…
Mas o que não tem explicação é ver um filme em 1080 (num Bluray ou Play 3) numa TV full HD.
Mas outra coisa que é muito melhor são as TV´s acima de 60 Hz. Tenho uma com 120Hz e é uma coisa um tanto quanto por demais!!!
Um abraço do tamanho do Rio Grande.
Rodrigo Costa.

 
 

Ótima postagem! Conheci agora o blog e estou gostando bastante, tanto pela linguagem acessível, quanto pela “simples complexidade” com que você escreve.

Parabéns e sucesso!

 
Kleber Boelter
 

Grande Piréx: o Jardim do Diabo é uma grande mixórdia. Às vezes, até sai algo que preste. Abraço.

Grande Mazzo, o fax foi uma coisa espantosa, não? Mais espantoso ainda é que a gente estava lá quando esse negócio meio pré-histórico aconteceu! Huahuahuahua. Abração.

Grande Avélinho, nosso magnânino Prez: fodão eu sou em ter amigos como vocês. Valeu, brother. Ah, agora descobri que não preciso trocar a minha tv para ver programas em HD. Abração.

Rodrigo, essas novas tecnologias são incríveis, não? Imagens e som cada vez mais espetaculares. Por isso sou meio viciado nesse negócio. Obrigado pela visita e um abraço.

Vítor, obrigado pelas palavras simpáticas. Esse blog é meio caótico, eu sei. Mas, conhecendo seu autor, chego a conclusão de que poderia ser bem pior, huahuahuahua. Baita abraço.

 
 
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