Mar de Letras 01_2010 – II

Diário de bombordo

Por falar em Bastardos Inglórios, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um mínimo de cem escalpos de alemães. É ao menos uma abordagem diferente daquela que o cinema nos acostumou a ver, com milhares de judeus marchando submissos para as câmaras de gás. No desenrolar da ação, duas outras tramas paralelas se entrelaçam numa conspiração para eliminar o terceiro Reich.

Mas o filme é Tarantino demais. Não são as referências cinematográficas extra-filme, nem o clima indisfarçável de western e o constante ar de paródia e de deboche que acaba me incomodando. Essa fórmula, que zomba do conceito de verossimilhança, precisa de mais humor ou mais cinismo para funcionar. Em Bastardos Inglórios faltaram ambos.

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Quarta-feira acordei tarde de novo. Não tinha mais a pedra no estômago, mas continuei com remorso, agora também por perder novamente outro pedaço da manhã. Ao menos o tempo tem me ajudado. Chovia quando levantei e, exceto por alguns breves minutos ao longo do dia, o céu esteve sempre cinzento. Na verdade, esteve assim na segunda e na terça-feira. Cevei meu mate e, pensando sobre os planos para 2010, li alguns relatos das poucas vezes em que consegui executar meu projeto Mar de Letras no ano passado. Mas já falei disso e falei com gosto.

Evitei o mesmo erro de terça e comi uma fatia de cuca integral às onze, três pedaços de milho verde à uma e um sanduíche aquecido na torradeira às duas. Isso permitiu que eu voltasse a pensar com carinho na janta e isso me levou, inevitavelmente, a um belo pedaço de costela assada. Fora essa fidelidade gauchesca ao churrasco, devo confessar que esse Mar de Letras está terrivelmente pobre em termos gastronômicos.

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Terminei de ler O último caso da colecionadora de livros, de John Dunning. Foi uma enorme decepção. John Dunning é o autor de um dos melhores livros policiais que já li até hoje. A empatia com seu detetive Cliff Janeway, que conheci em Impressões e Provas, foi imediata. Não apenas o texto era bem construído e o ritmo rápido e contagiante. A saga pessoal de Janeway me cativou. Ele é um policial durão que, nas horas vagas, coleciona livros raros. No meio da trama, ao enfrentar um criminoso abjeto que constantemente se livra da lei graças à sua fortuna pessoal, a advogados imorais e a um sistema frouxo que beneficia os criminosos, ele passa dos limites e é obrigado a abandonar seu emprego. Então, corajosa (ou temerariamente), ele se atira num sonho maluco de virar livreiro. Falando assim, pode soar meio inverossímil. Aliás, policial durão que coleciona livros raros parace uma baita viadagem. Mas a narrativa é bem construída e Janeway transita bem nesse duplo papel, com um certo ar de menino perdido que não sabe o que quer da vida.

Já nesse O último caso da colecionadora de livros tudo é ruim. A trama é mal arquitetada e tudo soa meio falso. A investigação de Janeway é arrastada, claudicante e sem uma lógica que o leitor possa acompanhar. Mas o pior é que a narrativa se arrasta por quase quatrocentas páginas com um desenrolar absurdo. O grande detetive Janeway, dono de uma livraria em Denver, passa quase todo o livro trabalhando de ajudante em hipódromos, carregando feno, lavando e esfregando cavalos e limpando bosta das baias. Nos intervalos ele interroga pessoas de forma aleatória e com resultados pífios.

Acho que John Dunning perdeu um leitor.

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Foi um amigo que me levou a esse lugar, há algum tempo, numa ruazinha estreita e calçada de pedras de Edimburgo. (…) Um lugar perfeito para tomar uma cerveja, acreditem. Um pub de esquina, despretensioso, com uma pequena placa e janelas esfumaçadas. Da rua não se pode ver nada lá dentro. (…) É a calma perfeita, e o primeiro gole de cerveja inspira sentimentos de serenidade quase transcendental. O refúgio ideal, longe do mundo moderno, longe de todos os seus problemas. Imediatamente depois de dependurar meu casaco num velho cabide, virei para meu amigo e comuniquei: “Vou ficar morando aqui”.

Essa pequena passagem do livro Em busca do prato perfeito, de Anthony Bourdain (que peguei na estante após abandonar John Dunning), me fez lembrar com imensa saudade dos pubs de Londres. A calma, a paz, a serenidade, um ar meio medieval em meio às mesas e balcões de madeiras pesadas e escuras, uma sensação de isolamento mesmo em meio a outras pessoas, um estranho sentimento de se estar em um encontro perfeito com nós mesmos, prontos para confidências, abertos a pensamentos impuros, dispostos a uma honestidade brutal ou a um simples e reconfortante silêncio respeitoso.

Ainda há lugares para se fugir desse burburinho de gente barulhenta que se acotovela feito um enxame de formigas na beira da praia de Capão ou desses malditos carros de som que passam anunciando as ofertas do Shoping de Fábricas ou as promessas estridentes dos Aqualoucos.

 

Comments: 4

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Paz e tranquilidade no verão só em Porto Alegre, camarada. Se não serve de consolo, pelo menos me ajuda a invejar menos os que podem estar na praia.

Abraço!

 
 

Caro Piréx, até tens razão. Mas Imbé e Capão se transformam, no verão, em sucursais do inferno. Pior que até para santos como eu!

Abraço.

 
 

Olá Kleber!
Vejo que como sempre andas a aproveitar muito bem a vida. Parabéns pela formatura e boas férias! Eu, como estou sem poder viajar literalmente, nesse final de semana viajei pelas páginas do teu Caso Complicado. (finalmente). Também li o Deus está morto antes do final do ano. Mas deixa eu dizer que me surpreendi com o Caso Complicado. Não deu pra desgrudar um minuto. Primeiro porque gosto muito de histórias policiais, segundo porque não sabia que você era tão bom detetive quanto escritor rsrsrsrs…, terceiro porque me senti um pouco voltando a Hong Kong, vendo a baía, passando pelo túnel, pelos prédios enormes … Também gostei muito do outro livro, acho que tb me senti um pouco na pele do professor. Valeu! Preciso agradecer , como leitora. Grande abraço!

 
 

Marli, obrigado pelas palavras elogiosas.

Para um escritor, esse tipo de testemunho sincero (e emocionado) provoca uma sensação profunda de satisfação e realização. É como se tivéssemos, ao nosso lado, um velho e querido amigo capaz de compartilhar nossos sentimentos mais profundos.

Obrigado e espero continuar produzindo obras que mereçam tua leitura.

Um grande abraço.

 
 
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