Mar de Letras 01_2010 – III e chega

O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo O último caso da colecionadora de livros? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos meses e estou um pouco enfarado de velhos doentes (sim, sim, prometo que depois falo de Philip Roth e seus últimos temas recorrentes).

Mas voltando às minhas leituras (já disse que falo de Philip Roth outra hora), tenho um plano que arquitetei no ano retrasado: ler no mínimo um livro de cada um dos últimos vencedores dos Prêmios Nobel de Literatura. Encarei Kenzaburo Oe e seu excelente Uma questão pessoal e Günter Grass e o estranho Gato e rato, comprei mais uns dois ou três e acabei me desviando para meu Trabalho de Conclusão de Curso da PUC. Agora, ando um pouco relutante em encarar essa literatura escolhida pela academia menos por seus méritos do que por seus aspectos políticos e sociais. Tomei um certo fartão de ler, nas cadeiras de literatura da PUC, um calhamaço de textos sobre pretensas minorias e oprimidos sociais: foram histórias de homossexuais, lésbicas, judeus, africanos, muçulmanos, alemães segregados nos tempos da guerra, gaúchos expulsos de suas pequenas propriedades pelo avanço dos latifúndios, vítimas de preconceitos e desajustados sociais de toda espécie. Há mérito em dar espaço para novas vozes, escapando do cerco opressivo dos WASP, e acabei lendo algumas boas histórias e textos de ótima qualidade. Mas quando o critério de escolha não é o mérito literário e sim algum tipo de denúncia social, acaba desabando muita porcaria nesse caldeirão bem intencionado. A verdade é que, se meu interesse fosse histórico ou sociológico, eu não teria escolhido a faculdade de Letras. É imprescindível que, além de uma boa história, um livro tenha também qualidades literárias.

Há uma outra opção que me atrai pois significa retornar ao atraente gênero dos romances policiais. Em um dos programas de TV do Anthony Bourdain, ele entrevistou um conhecido autor de romances policiais da Escócia, Ian Rankin. Fiquei interessado e acabei comprando o livro Questão de sangue, que está lá na estante me olhando com aquela cara de “e aí, vai encarar?”. Quem sabe, quem sabe…

Também tenho algumas pendências, como ler novamente O Nome da Rosa, de Umberto Eco, que já comecei várias vezes e nunca consegui chegar ao fim. É um livro tão denso e cheio de referências extra-textuais (apesar de ser, no fundo, um romance policial) que acabo me sentindo sufocado por não compreender todas suas implicações.

Mas há outra linha de leitura que preciso seguir. Meu novo projeto literário, que por enquanto estou chamando apenas de “Humano…”, é uma espécie de continuação de Deus está morto? Se no livro anterior traço uma espécie de painel de como uma sociedade pode passar da civilização para a barbárie, nesse próximo pretendo discutir exatamente o caminho inverso. Para isso, quero reler alguns livros de história e de filosofia, principalmente sobre o período em que a humanidade emergiu das trevas da Idade Média e brilhou no renascimento e no iluminismo.

Esse emaranhado de opções cuspidas e escarradas acima acaba me lembrando a piada do sujeito que chegou no balcão do bar e pediu uma coca-cola. O atendente perguntou: “Regular ou diet?”. Ele pensou um pouco e respondeu: “Regular”. O atendente perguntou novamente: “Cherry ou normal?”. O sujeito pensou um tempo maior e disse: “Normal”. O atendente perguntou outra vez: “Com cafeína ou sem?”. O cara perdeu a paciência e falou: “Pensando bem, me vê uma Pepsi”.

Não, não vou ler a Caras.

…x…

Foi, no mínimo, uma sacanagem. Um pouco incomodado com meus remorsos, resolvi acordar mais cedo na quinta-feira. Não muito mais cedo, confesso, mas ainda assim mais cedo. Tomei meus mates e, continuando com a campanha anti-remorsos, decidi sair para minha caminhada. O céu estava claro e um sol já alto fez com que me lembrasse das recomendações da Lika. Meio contra a vontade, me lambuzei de protetor solar, coloquei um chapéu, óculos escuros e parti para a beira do mar, em direção a Araçá.

Tudo ia bem até que resolvi dar uma olhada por cima do ombro. Às minhas costas, um céu cinza-chumbo ameaçador se estendia até a Patagônia. A minha frente, um céu azul e um sol de verão. Atrás, uma amostra-grátis do Apocalipse.

Claro que voltei para casa debaixo de um aguaceiro de afogar jundiá. A chuva empapava minha camisa, embaçava meus óculos, arriava as abas do meu chapéu. E fazia eu me sentir completamente ridículo com aquele monte de protetor solar me lambuzando.

Mas, lembrando a hora em que eu andava acordando e o relaxameno com minhas caminhadas, fiquei contente por não ter caído um raio na minha cabeça.

…x…

Assisti ao filme A Onda, que estava em evidência nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa. É uma produção alemã que traz para discussão, mais uma vez, o sentimento atual dos alemães em relação ao episódio do nazismo. O enredo é interessante: um professor pouco tradicional planeja trabalhar, em uma classe especial, com o tema político anarquia, com o qual se identifica. No entanto, devido a uma manobra de um professor mais antigo, ele acaba incumbido de trabalhar com um tema totalmente oposto, a autocracia, que é um sistema ditatorial no qual um determinado grupo assume o governo e passa a exercer não apenas o poder, mas a representar a própria lei. Um pouco desconfortável, esse professor sente dificuldade em desenvolver o tema com seus alunos, principalmente quando surge em sala de aula a discussão sobre o nazismo como um exemplo de autocracia do passado. Como vários alunos defendem a tese de que não têm culpa pelos erros de seus antepassados e que não haveria mais espaço para um regime fascista na Alemanha, o professor sugere uma experiência prática. Propõe a criação de uma autocracia no próprio grupo, através da disciplina, organização e igualdade. Em pouco tempo, através da liderança rígida do professor que define um pensamento único e proíbe discordâncias, do sentimento de unidade que surge, da anulação das individualidades e da criação de símbolos (como o nome do grupo, A Onda, um uniforme e um logotipo), cria-se um forte sentimento de grupo. Esse sentimento dá aos membros da Onda a sensação de que são melhores do que os outros e eles passam a excluir os que não pertencem ao grupo. Inevitavelmente, esse comportamento logo resulta em episódios de intolerância, preconceito e violência. E, quando o professor se dá conta, o movimento fugiu ao seu controle.

É uma interessante visão da natureza humana e do comportamento das massas, quando manipuladas. É fácil (e assustador) perceber que a maioria nem sempre tem razão. Porém, é igualmente uma maneira de reduzir a responsabilidade do povo alemão pelos resultados do nazismo, evidenciando o enorme poder que uma liderança carismática pode exercer e a irracionalidade que permeia os comportamentos grupais.

Mas A Onda, se por um lado descreve o comportamento sectário e violento que, aos poucos, vai tomando conta do grupo, não deixa de mostrar que há escolha e que, no fim, é impossível fugir da responsabilidade individual. No grupo, há duas pessoas de comportamento exatamente oposto. Um garoto que transforma o movimento do grupo na sua razão de vida, e uma estudante que, desde o princípio, percebe que há algo de errado no rumo que os acontecimentos vão tomando e acaba lutando contra o movimento.

Tecnicamente, o filme não é dos melhores, principalmente para quem está acostumado ao padrão hollywoodiano. Mas a atuação do professor como líder do movimento é convincente e a riqueza do tema acaba prendendo a atenção até o desfecho presumivelmente trágico.

Recomendo.

…x…

Como publiquei um post exaltando os amigos que estiveram presentes na minha formatura, não posso deixar de comentar que dois queridos companheiros que não estiveram lá me ligaram durante a semana. Alberto e João, obrigado pelas felicitações e pelo apoio sincero. Estão, obviamente, perdoados.

…x…

Entre outros aspectos, esse primeiro Mar de Letras do ano estava se destacando pela pobreza culinária. Como disse em outras ocasiões, sinto verdadeiro prazer em pensar em combinações de ingredientes e temperos e, mais ainda, de colocar tudo isso em prática na cozinha. Mas, até agora, tudo que fui capaz de fazer foi um churrasco de carne velha, uma macarronada com restos de frango, uma torrada com tomate, outro churrasco e um picadinho de queijo e salamito.

Então resolvi, na quinta-feira, tentar um prato que há tempos vinha planejando. Não sei quando ouvi falar nele pela primeira vez, mas assisti no mês passado a um programa gastronômico do Olivier Anquier em que ele visitou um famoso restaurante flutuante em Angra dos Reis e o proprietário apresentou uma de suas especialidades: o ceviche. Dizem que é uma especiaria originária dos Incas e um prato muito comum no Peru e no Equador. Outros dizem que sua origem é árabe, tendo chegado na Europa e na Espanha e, daí, alcançado as colônias na América do Sul.

Acreditando que a verdadeira origem do universo é, na verdade, esse blog, vamos ao que interessa. O ceviche é, basicamente, pedaços de peixe (de preferência de carne firme) que são mergulhados em suco de limão por um tempo que varia conforme o tipo de peixe. A carne é cozida apenas pela acidez do limão. Depois, os pedaços de peixe são misturados com cebola e tomate picados. Também podem ser acrescentados pimentão (verde e vermelho) picados e azeitonas fatiadas. Pelas características do prato, acredito que algumas alcaparras combinariam bem e cogumelos fariam um belo contraponto em termos de textura.

Eu, particularmente, sou fã de uma citação atribuída a Woody Allen quando indagado sobre comidas exóticas, principalmente aquelas especiarias asiáticas que costumam rastejar no prato: “Eu gosto da minha comida morta. Bem morta”. Eu ampliaria essa citação para dizer que gosto da minha comida cozida. Bem cozida. Não tenho nenhuma atração por carnes cruas (exceto, talvez, um carpaccio regado com um bom azeite extra-virgem e guarnecido de alcaparras). Portanto, esse peixe cozido apenas pelo suco de limão não gozava da minha confiança. Para evitar passar fome caso minhas suspeitas se confirmassem, resolvi fazer metade do peixe levemente frito e depois rapidamente refogado no vinho branco.

Assim, montei os dois pratos, ambos misturados com cebola, tomate, pimentões verde e vermelho e azeitonas verdes recheadas com pimentão fatiadas. No prato com o peixe cozido misturei um pouco de suco de limão. Ficaram dois pratos de sabor completamente diferentes e nenhum deles muito bom.

O ceviche, apesar de não ter ficado com gosto de peixe cru, ficou muito forte, com o sabor excessivamente carregado pelo limão. Talvez se, depois do tempo marinando, o peixe fosse lavado em água ou em vinho branco, ficasse com um gosto menos ácido. Já o peixe cozido, ao contrário, ficou com gosto de nada. Apenas a cebola e as azeitonas deram um pouco de sabor ao conjunto. Mas há a forte possibilidade de que essa minha impressão tenha sido causada pelo contraste com o sabor forte do peixe marinado em limão.

No final, fiquei com a impressão de que uma mistura, na proporção de duas partes de peixe cozido com uma parte de ceviche, resultaria num prato de personalidade bem marcante.

…x…

Uma pergunta que Tony Bourdain costuma fazer quando entrevista chefs de cousine: “Imagine você no corredor da morte, com direito a uma última refeição. Que prato você pediria?”.

Acho isso uma grande sacanagem. Não estar no corredor da morte já que é provável que a cota de pecados que acumulei seja suficiente para me garantir uma vaga nesse lugar famoso. Falo de escolher apenas UM prato. Quem poderia resumir seus desejos mais viscerais a apenas uma opção?

Mas pense, se você estivesse nessa situação, o que pediria. É provável que a resposta a esta pergunta revele mais de você do que todas as consultas ao analista que você já freqüentou na vida. E a revelação, sinto dizer, provavelmente o surpreenderá. Negativamente.

Apenas uma pessoa no mundo é capaz de adivinhar qual o prato que você escolheria, o que equivale a dizer que apenas uma pessoa no mundo, e não é você, o conhece de verdade. É aquela que lava suas cuecas.

Não me pergunte qual a relação que existe entre especiarias gastronômicas e lavagem de cuecas. Não faço a mínima idéia. Mas pode acreditar que é verdade.

…x…

Ok, ok. Se eu estivesse no corredor da morte e tivesse direito a uma última refeição, que prato eu pediria?

Minha tese está correta. Eu gostaria de achar que pediria um filé de salmão grelhado guarnecido por aspargos, champignons e legumes cozidos no vapor, acompanhado de um Chardonay ou de um Chablis de boa cepa. Ou, quem sabe, um boeuf a bourgnion com um vigoroso Cabernet Sauvignon. Mas esse não sou eu, sou apenas quem eu acho que gostaria de ser.

Na verdade, eu pediria um churrasco de costela mal-passado, com aipim cozido e um engradado de cerveja bem gelada.

Eu avisei…

…x…

Esse Mar de Letras, o primeiro de 2010, não era para fazer um balanço do ano passado nem para definir objetivos e metas para esse ano. Não era para ler coisas que eu deveria ter lido e não consegui, nem para escrever coisas pendentes ou inacabadas. Esse Mar de Letras era para vadiar. Para relaxar. Para não fazer nada que representasse uma obrigação auto-imposta ou uma responsabilidade herdada.

Em novembro, completei cinqüenta e um anos. Um dia antes, minha filha fez dezoito e alcançou a maioridade. No domingo passado, me formei na Faculdade de Letras da PUC, minha segunda faculdade. Esses acontecimentos representam, para mim, uma espécie de marco, o encerramento de uma etapa de vida.

Desde os catorze anos, quando meu pai me levou para a empresa e disse que era hora de começar  a trabalhar para dar valor ao dinheiro, que tenho vivido soterrado por objetivos, metas, planos e projetos. Sempre fui assim. O desempenho escolar, a poupança rígida para as primeiras viagens, o vestibular na UFRGS, a casa na praia, a primeira motocicleta, os projetos de engenharia na empresa, as expectativas do casamento, planos e mais planos ambiciosos de crescimento nos negócios, a educação da filha. E então a difícil convivência com os fracassos, o inevitável sentimento de culpa, uma cobrança opressiva e permanente. Ao decidir mudar tudo e recomeçar, mais planos, projetos, objetivos e metas. E cobranças, muitas cobranças.

A maldição é que o carrasco mais cruel que maneja o chicote das cobranças não é um patrão obsessivo e autoritário, um pai controlador, nem mesmo uma sociedade manipuladora ou um círculo de relações com um opressivo código de status. O grande criador, manipulador e controlador desse sistema de exigências sou eu próprio.

Não que isso seja necessariamente ruim. É bem provável que seja uma vida melhor do que ser inconseqüente, irresponsável e vagabundo. Mas tenho a sensação de que, ao fim e ao cabo, andei exagerando. Eu devia pegar um pouco mais leve comigo mesmo.

Pois essa é a idéia não só desse Mar de Letras, mas de todo o ano de 2010. Uma espécie de Ano Sabático, de relaxamento e reflexão, de colocar em prática alguns dos meus desejos mais profundos que estão encarceirados exatamente porque fogem do padrão, do normal, do seguro.

Isso pode soar meio absurdo para um sujeito que, aos quarenta anos, decidiu mudar radicalmente de profissão, fez uma nova faculdade, escreveu vários livros, deu dezenas de palestras para estudantes por todo o interior do Rio Grande do Sul, cruzou a Cordilheira dos Andes de moto, embarcou em vários cruzeiros marítimos, fez incontáveis viagens e se divertiu com amigos do peito. E que conseguiu, ao menos algumas vezes, por em prática esse tal de Mar de Letras, onde jogou para um lado toda a rotina, as obrigações e as responsabilidades para se dedicar à contemplação de uma janela maravilhosa de frente para o mar, lendo, escrevendo e se dando ao direito de fazer apenas o que der vontade. Bem, não apenas soa como absurdo: é um absurdo mesmo.

A verdade é que ter feito tudo o que fiz sem, no entanto, ter rompido radicalmente com o passado nem ter jogado todas as cartas numa aventura incerta pode muito bem ser visto mais como uma virtude do que como um defeito. E essa minha aparente revolta contra as cobranças nada mais é do que a repetição da mesma maldição. Afinal, aqui estou me cobrando novamente por não ter feito as coisas de forma diferente.

Acho que estou precisando de umas boas palmadas na bunda…

…x…

 

Comments: 4

Leave a reply »

 
 
 

Foi-me impossível ler todo o texto, devido à alta prolixidade, digo, produção intelectual do autor do mesmo.

Mas captei A ONDA, filme que assisti há pouco, regravação de outro melhor feito na Califórnia.

E isso tudo vem a recrudecer os postulados de Bion sobre autoridade, poder e liderança. Conteúdo este largament discutido por Roberto Cohen no seu TCC sobre uma lista de discussão virtual (Mazáh guri bão aquele).

O grupo depende de um líder conforme a situação. E a mentalidade grupal – muitas vezes – é contrária e adversa da de seus indivíduos.

Katzo, que assunto ducaráio (desculpem os palavrões neste ambiente acadêmico e de alto nível).

El GDM’s

 
 

Como assim “nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa”, cara-pálida? Estás indo contra teus irmãos empresários? Ê santo do pau oco…

Para descansar a cabeça e encontrar a explicação de muita coisa do nosso Braziu Brazileiro, recomendo a leitura do 1808. Veja lá: http://www.laurentinogomes.com.br/

Abraço!

 
 

GD, uma semana lendo bons livros, assistindo bons filmes, caminhando na beira do mar, fazendo churrasco e curtindo um momento cheio de novas perspectivas. Não era para estar prolixo?
Sei que entendes, sei que me entendes…

 
 

Caro Piréx, são as leis de mercado rearranjando o segmento de DVDs. Perto do meu apto em Capão tem 4678971321654987987 e 1/2 barraquinhas de venda de DVDs, hum, como direi, genéricos, e NENHUMA locadora. Logo, como acredito firme_mente em minha responsabilidade social na redistribuição de renda no Brasil, estou contribuindo para redirecionar fundos para a indústria nacional de fundo de quintal. Cuja qual, diga-se de passagem, vai muito bem (enquanto a minha vai meio mal).
Ah, e thanks pela dica.
Baita abraço.

 
 
Leave a Reply
 
  (will not be published)