Mar de letras, reflexões e algumas bobagens II

Em frente ao meu apartamento da praia têm duas canchas de bochas, próximas aos quiosques da beira-mar. São lugares de encontro de pessoas de vários tipos, a maioria idosos que preenchem seus dias vazios de aposentados com um esporte tão leve quanto um jogo de damas. E, claro, com a alegre camaradagem entre aqueles que compartilham uma mesma paixão. Ou uma mesma fuga. Ao lado de uma das canchas existe uma churrasqueira que no verão, invariavelmente, produzia festivos encontros gastronômicos que acabava reunindo não apenas os jogadores de bocha habituais, mas familiares e amigos. Um simpático local de convivência social à beira-mar.

No final do verão, uma dessas canchas foi tomada por um grupo de sem-tetos. Eram uns dez. Colocaram suas mochilas e seus cobertores rasgados contra uma das extremidades da cancha, que é protegida no fundo e nas laterais por tábuas de madeira e tem um pequeno telhado de zinco de pouco mais de um metro. Em alguns dias que estive na praia após a temporada de verão, acompanhei um pouco da rotina deles. Levantavam em torno das dez da manhã e alguns saiam em pequenos grupos. Horas depois voltavam com pedaços de madeira e sacos de supermercado. Faziam fogo na churrasqueira, cozinhavam alguma coisa e ficavam por ali até metade da tarde, passando garrafas brancas de mão em mão. No meio da tarde o ritual de busca de lenha, comida e bebida se repetia, muitas vezes com grupos diferentes dos da manhã.

O que mais estranhei não foi o aparecimento na praia dessas pessoas marginalizadas da sociedade, já tão comuns nas metrópoles como Porto Alegre. Foi, isso sim, o desaparecimento dos frequentadores habituais. Em algum momento imaginei que eles fossem lutar por seu espaço, que fossem tolerar essa situação apenas como provisória e emergencial, uma espécie de concessão aos novos companheiros até que eles resolvessem sua situação crítica e encontrassem um outro lugar para morar.

Estamos em julho e os sem-teto maltrapilhos continuam lá. Já não é o grupo original de dez. Ontem vi três e hoje havia apenas dois. Estavam sem camisa, sentados em cadeiras de plástico tiradas de algum dos quiosques, tomando sol enquanto colocavam fogo na churrasqueira. Não vi mochilas ou cobertores no canto da cancha. Notei também que toda uma lateral de madeira da cancha desapareceu, provavelmente transformada em lenha em momentos de maior preguiça.

Não parecem mais sem-tetos desesperados encontrando um lugar emergencial onde deitar seu infortúnio por uma noite. Parecem os novos donos do lugar.

Dos antigos frequentadores, nem sombra.

 

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