Mar de Letras again
14 a 20/03/2010
1-Eis-me novamente em Capão para mais uma edição do Mar de Letras. Depois das últimas confissões sobre o prazer quase transcendental que esse retiro ócio-literário-espiritual me proporciona, desnecessário repetí-las. Apenas para não deixar passar em branco esse momento de intenso sentimento, vou abandonar momentaneamente a linguagem literária para reafirmar essa sensação de uma forma mais, como direi, popular: é bom pra caralho!
2-Bueno, deixe-me retirar o ócio e o espiritual. O Mar de Letras de janeiro tinha uma forte carga de relax após os quatro anos da Faculdade de Letras. Eu estava com um fartão da PUC (agora estou com saudades, fazer o quê…), e queria mesmo vadiar, apenas vadiar. Por isso caminhei muito, li muito, vi vários filmes e produzi uma razoável quantidade de textos descomprometidos. Dessa vez, porém, estou aqui com um compromisso e já bastante atrasado. Em dezembro, fechei contrato para a produção de mais uma história empresarial de uma importante indústria de alimentos do Vale dos Sinos. Com as festas de final de ano, as várias férias (esse foi um ano generoso!) e mais carnaval e otras cositas, acabei ficando atrasado com meu cronograma. Consegui fazer várias entrevistas e recolher boa quantidade de material, mas a produção literária estava um fiasco. Então, esse Mar de Letras foi uma concentração para recuperar o atraso. Deu certo.
3-Mas, em contrapartida, todo o resto foi pobre de doer.
4-Em termos de leitura, avancei mais algumas páginas do livro que eu já estava lendo, maisquememória, do Marcelo Bakes, mas sem dedicação nem entusiasmo. É um livro estranho, que merece o rótulo de interessante mas que não me fez perder o sono nenhuma noite. Consegui ler um conto do Altair Martins, publicado no jornal literário Rascunho que assino (e pouco leio), uma reportagem antiga sobre uma viagem de moto de um maluco até Ushuaia (maluco não por ter ido até lá de moto, mas por ter feito isso em três dias e meio, com uma média de quase mil quilômetros por dia!). Ah, e li também um rótulo de um vidro de azeite de oliva. Pouco, muito pouco. Também tentei ler uns dois artigos da Speak-Up, uma espécie de curso de inglês em formato de revista, mas o resultado foi tão lamentável que nem conta. Apaga aí.
5-Em termos culinários, foi pior ainda. Tirando os churrascos de segunda, quinta e sexta, o resto foi alguns sanduíches sem imaginação, uma galinha assada no forno com menos imaginação ainda e uma omelete sem comentários. Arrisquei uma salada de siri, usando um pouco da carne que havia comprado para fazer umas casquinhas no sábado para minha amada e a sogra, mas o resultado foi decepcionante. Não das casquinhas, bem entendido. Mas, pensando bem, que chances tinha uma salada de siri de sair uma coisa que prestasse?
6-No departamento cinematográfico, as coisas não foram muito melhores. Remei dois dias num filme chato de doer que simplesmente não engrenava. O nome do dito era O solista, com o Downey Junior e o Jamie Fox. Os atores não são ruins, mas o roteiro se arrastava para lugar nenhum. Simplesmente abandonei o maldito. Praga de alguma associação anti-pirataria?
7-Também tentei o The blind side (pessimamente traduzido em português para Um sonho possível), filme que deu um espantoso Oscar para Sandra Bulock na edição desse ano. Em tese, o filme se baseia numa história real. Mas é tão inverossímel que só pode mesmo ter acontecido na realidade. Na ficção, não convence.
8-Quanto ao Oscar da Sandra, certamente foi uma piada da Academia. Logo, logo eles devem chamar a Meryl Streep, pedir desculpas e dizer que as piadas da cerimônia estão mesmo ficando cada vez mais sem graça.
9-Para não dizer que foi tudo lamentável, cinematograficamente falando, dei boas risadas com o DVD do show do Guri de Uruguaiana, uma competente criação do Jairo Kobe. Ver o Michael Jackson e o Elvis Presley interpretando o Canto Alegretense foi de lascar. E as participações do Rui Biriva e do Daniel Torres estavam excelentes.
10-O tempo ajudou e consegui manter longas e deliciosas caminhadas à beira mar. Como o mar estava limpo e a areia livre do enxame de porcos que caminham sobre duas patas e transformam a praia num lixão a céu aberto durante a temporada, foi só alegria. Deu até para filosofar sobre o incrível contraste entre a obra de Deus e a obra dos homens, expostas lado a lado. Mas ficou tão piegas que vou poupar vocês, estimados leitores.
11-Escrevo essas tortuosas linhas na sexta-feira, depois de um churrasquinho amigo e de terminar de ver o filme da Sandra Bulock, e já recordo que amanhã é dia de voltar para a cidade. Algumas lamentações até caberiam, mas seria uma ingratidão.
12-Nesse entrevero, troquei vários telefonemas com minha amada que está na maior ansiedade. Depois de dez anos com seu valente Ka, ela está trocando de carro. Merecido, muito merecido. É uma mulher adorável, cheia de entusiasmo e batalhadora. Merece até o excepcional (e modesto) parceiro que tem.
13-Como nem tudo é perfeito, acabo de lembrar que a pia está cheia de louça, talheres, copos e espetos. Minha saudade da minha amada aumentou.
14-Por mais inacreditável que pareça (e é realmente inacreditável), depois da fraca produção literária da segunda-feira decidi que teria que mudar minha rotina para que pudesse chegar ao menos perto do objetivo deste Mar de Letras. Então, acordei às sete e meia na terça e, na quarta, quinta e hoje, às sete. Eu disse que era inacraditável. Eu próprio não acredito. E amanhã, sábado, pretendo acordar às sete de novo. Acredito menos ainda.
15-Pois acordei de novo às sete! Foi demais! Nem São Pedro aguentou. Choveu uma barbaridade.
16-Mas chuva só é castigo para quem fica. Como eu ia embora da praia, logo saiu um sol de rachar.
17-Nada que abalasse meu bom humor ou diminuísse essa minha espécie de felicidade existencial. Ah, que bem me faz um Mar de Letras!
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