Mar de letras com lareira
1-Socorro, socorro! Estou sendo atropelado por uma manada imensa de pieguice! São dezenas, centenas de selvagens clichês e lugares-comuns me pisoteando com seus cascos doces e afáveis! Estou cercado, as patas levantam uma poeira melosa que gruda na pele e me entorpece. Tento fugir mas não consigo. Não posso. Não quero…
Primeiro, é o fato de estar eu aqui em mais um Mar de Letras, desfrutando dessa possibilidade maravilhosa que é poder ficar uma semana inteira completamente dedicado à duas das atividades que mais me dão prazer: ler e escrever. E, dessa vez, sem nenhuma pressão de prazo ou conteúdo. Apenas carpe dien! Maravilhoso.
Segundo, é o tempo ter me brindado com dois belos espetáculos: um céu de porcelana, límpido como um sonho de patricinha lendo a Capricho e um mar azul aveludado debruçado sob minha janela. E a lua, ah a lua, cheia, enorme, dourada ao nascer por trás da linha do horizonte e tornando-se branca e bela e tingindo o mar com uma longa franja fluorescente enquanto sobe para o céu. Tudo muito, muito, muito lindo.
E na minha chegada, segunda de tarde, saio a caminhar pela beira da praia, com o sol acariciando a pele e o azul do mar acariciando os olhos e a doce lembrança de minha companheira amada acariciando as lembranças. E chegam mais lembranças, penso na minha filha também amada, nas coisas que tenho, naquelas que não tenho mas não me faltam, nos bons amigos, na minha moto neste momento recebendo uma pintura personalizada, no pedaço de costela e nos corações de frango que me esperam na geladeira, e nas cervejas, e no Reservado Concha y Toro Cabernet Sauvignon que comprei com certa audácia, nos dois pacotes de lenha encostados à lareira, nos três filmes que comprei e que descansam ao lado da TV e do aparelho de DVD, em todas as coisas boas que conquistei e todas as pessoas maravilhosas que conheço e em toda a felicidade que isso tudo me proporciona e olha eu aí afogado em pieguice…
2-Segunda-feira o jantar foi preparado pela minha Lika amada. Não, ela não está aqui na praia comigo. Mas no final de semana ela tinha feito uma carne de panela espetacular e congelou o pouco que sobrara. Não tive dúvidas: peguei o pote do freezer e coloquei na sacola térmica que trouxe para a praia. De noite, coloquei a carne na panela de ferro, acrescentei mais dois pedaços de costela, um tomate picado, coentro, salsa, sálvia, manjericão, sal e uma dose generosa de molho de pimenta vermelha. Para acompanhar, cozinhei alguns pedaços de aipim. Junte a isso aquele Cabernet Sauvignon da Concha y Toro e tive um banquete digno de um imperador romano. Bem, talvez um pouco menos. Mas é a pieguice, a pieguice…
3-Depois do jantar assisti ao filme O livro de Eli, com Denzel Washington. No começo me pareceu uma dessas ficções científicas cheias de violência e com final melancólico. Não apenas o enredo mas a própria estética do filme é muito semelhante a Mad Max. Num futuro não muito distante, após uma guerra de extermínio maciço, não há mais quase sobreviventes sobre a terra. Um homem solitário caminha pelas estradas carregando um livro misterioso que ele lê todas as noites. Certo dia ele escuta uma voz que o manda apanhar o livro e caminhar em direção ao oeste. E ele cumpre essa missão sem saber exatamente porquê. No caminho, ele encontra vários grupos de bandidos e saqueadores e têm que lutar contra eles. Mas, além de ser um exímio lutador, quando ele recebeu a missão foi também informado que seria protegido. E enfrenta dois, três, cinco, dez bandidos ao mesmo tempo e sempre vence. Lá pela metade do filme descobrimos que o livro que ele carrega é um dos últimos exemplares da bíblia, já que todos os demais foram queimados por serem julgados perigosos. E que a missão que a voz lhe dera é levar esse único exemplar até onde há um tipógrafo para que possam ser impressos outros exemplares. O interessante é que ele fracassa em sua missão e, ao mesmo tempo, tem sucesso. Apesar da conotação fortemente religiosa e da dicotomia algo caricata do “bem contra o mal”, o filme tem algumas sacadas surpreendentes. Dá para assistir, mas sem muitas expectativas.
4-Semana passada, estive com meu editor, o Walmor Santos. Fui reclamar que, nesse ano de 2010, ele ainda não vendeu nenhum trabalho meu dentro do projeto O autor na sala de aula. Entre outras explicações, ele argumentou que os temas dos meus livros são muito pesados e que me faltam mais títulos, especialmente infanto-juvenis, para serem trabalhados em séries menos avançadas. Seria uma questão de logística. As escolas acabam escolhendo autores que possuem um leque mais abrangente de obras e que podem trabalhar com um número maior de turmas. Em resumo, saí da reunião com o compromisso de escrever alguns textos que possam ser direcionados para trabalhos com o Ensino Básico. Já produzi alguma coisa mas sinto dificuldade em escrever algo “mais simples”.
4-Estava lendo Meridiano de sangue, de Cormac McCarthy. Estava mas não estou mais porque cansei. Já havia lido Onde os velhos não tem vez dele (comentários aqui), livro que acabou virando filme oscarizado, e tinha ficado com uma impressão ambígua. Boa quanto à história e à densidade do texto. Ruim quanto ao estilo. E um pouco incomodado com o excesso de violência, em geral uma violência gratuita. Não sei aonde ouvi falar desse outro livro de McCarthy mas encomendei-o com expectativa. Assim que chegou, a orelha e a contracapa diziam: “Meridiano de sangue é um marco da literatura norteamericana contemporânea. Harold Bloom o compara a Mobby Dick, de Herman Melville, e a Enquanto agonizo, de William Faulkner”. Fiquei com um pé atrás: muita pretensão. E continua: “Esta obra prima descreve o mundo brutal na fronteira entre o Texas e o México na metade do século XIX” e “Meridiano de sangue é um romance épico. Nele, McCarthy reiventa a mitologia do Oeste americano para criar uma obra ao mesmo tempo grandiosa e arrebatadora”. Um exagero. O romance é arrastado e com um estilo literário meio experimentalista. Não há travessões para marcar os diálogos, os discursos indiretos são frequentes, há várias frases curtas e truncadas com o objetivo de causar efeito, alguns jogos de palavras escorregam para um pedantismo que tenta impressionar. E há o famigerado recurso de trocar as vírgulas por uma sequência intermináveis de “es” (e o kid desceu do cavalo e caminhou até a sombra e sentou-se e descansou). E McCarthy não está falando de alguma intriga numa corte européia mas de um bando de mercenários que cruza terras áridas do oeste à cavalo atrás de escalpos de índios. Setenta por cento do texto são descrições de paisagens: montanhas, vales, escarpas, arbustos, argila, sol, lua, calor, ocotillos e opúncias, desertos, planícies, arroios.
Outra parte significativa são cenas de uma violência nauseante: “O branco ergueu o olhar ébrio e o preto avançou e com um único golpe decepou sua cabeça. Duas cordas espessas de sangue escuro e duas mais finas subiram como serpentes do toco do seu pescoço e num arco foram sibilar dentro do fogo”. “O caminho foi se estreitando entre rochedos e após algum tempo chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete, oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam desse modo penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis para fitar cegamente o céu nu. Calvas e pálidas e inchadas, larvais de algum ser indefinido”.
Em termos literários o livro é profundo, denso, rico esteticamente, com vocabulário caudaloso e figuras de linguagem complexas. Mas a história não flui. A sensação é de que estamos caminhando ao lado de um trem enorme e complicado e o maquinista não nos dá a chance de embarcarmos para aproveitar a viagem. Acabamos presos apenas à imagem do trem, sem conhecermos direito seus passageiros ou a paisagem que ele atravessa. Tem cara daqueles livros escritos para a crítica literária e não para o leitor.
5-E, por falar em McCarthy, acabei de ver um filme baseado em outro de seus livros. É A estrada, estrelado por Viggo Mortensen. Foi duro de assistir. O filme é angustiante, deprimente às raias do desespero. O enredo é muito parecido com O livro de Ely (comentado acima): um dia, um grande clarão branco extingue toda a vida vegetal e animal na face da terra. Sobram apenas algumas famílias que, aos poucos, vão morrendo de fome em uma terra estéril que nada mais fornece aos seus habitantes. Um tema que deve provocar orgasmos nas ONGs ambientalistas. Como nesse mundo aniquilado só restaram seres humanos, logo eles passam a fazer parte do próprio cardápio do almoço e do jantar. O suicídio se transforma em uma epidemia, uma válvula de escape que as pessoas usam para fugir do desespero da fome ou para não virarem bifes na mesa dos que abandonaram seus pruridos civilizatórios em nome da sobrevivência. Viggo Mortensen é um dos sobreviventes que vaga pela estrada com seu filho, lembrando constantemente da esposa que não conseguiu resistir ao desespero e também optou por acabar com a própria vida. E o filme é a jornada de pai e filho magérrimos, imundos, famintos, vagando como mendigos pela estrada, fugindo de eventuais grupos que transformaram o canibalismno em sua forma de sobrevivência. Comecei a ver o filme na terça e parei no meio. Uma sensação de desconforto e angústia começou a me deprimir. Só terminei de assistir na quinta, forçando a barra. É para quem gosta de mergulhar em reflexões mórbidas.
Mas o mais impressionante do filme não é a miséria e a dor física da fome, mas a destruição das relações humanas. Todos se olham como inimigos. Ninguém confia mais em ninguém. Todos estão reduzidos à animais empenhados apenas na própria sobrevivência. Numa cena, o menino pergunta a um homem: “Você tem filhos?”. Ele responde: “Sim”. E o menino pergunta, com a maior naturalidade: “E você não comeu eles?”.
6-Não sou de me engajar nessas campanhas televisivas ou radiofônicas que prometem prêmios, viagens ou encontros com ídolos enfadonhos. Mas surgiu uma na Globo à qual não consegui resistir. A chamada é apoteótica e vem seguida de imagens de dois cantores interpretando seus principais sucessos. “Você quer ganhar um ringtone para seu celular com as músicas de Milionário e José Rico?” diz o locutor com voz de barítono. Não resisto e grito a plenos pulmões: “NÃÃÃÃÃÃÃOOOO”.
7-Sábado acordei bem cedo e sentei na frente da janela para assistir ao nascer do sol. É sempre um espetáculo deslumbrante. Fiquei lá, de boca aberta, feliz, inundado por nova onda de sentimentos de dar inveja a qualquer manual de auto-ajuda. Depois, resolvi mudar minha rotina e, ao invés de preparar o mate e ficar lendo e escrevendo e apreciando essa obra-prima da natureza que é minha janela, resolvi sair para caminhar de térmica e cuia na mão. Não estava tão frio e pude arriscar sair de calção. O sol estava alto e, para o norte, o céu azul, riscado por nuvens esparsas. Mas, para o sul, a visão era diferente: tempo fechado, nuvens de um azul carregado e um cheiro inconfundível de chuva. Saí na direção norte e tropecei com outro obstáculo: um vento nordeste irritante que fazia com que uma nuvem de areia corresse a um palmo do chão. Depois de dez minutos desisti de tomar mate com areia.
8-Li numa edição da revista Vida Simples um artigo de Luiz Alberto Marinho sobre uma pesquisa feita por pela agência de propaganda multinacional JWT, que resolvera pesquisar o tamanho da ansiedade das pessoas em oito países, incluindo o Brasil. Contrariando aquela imagem que se tem do brasileiro como um sujeito despreocupado e de bem com a vida, a pesquisa descobriu que o nível de preocupação e ansiedade dos brasileiros é alto. Os motivos são um pouco diferentes daqueles que preoupam os moradores de países mais desenvolvidos, onde a crise financeira andava, por exemplo, tirando o sono de quase 90% dos japoneses. No Brasil, as preocupações são mais básicas: violência, custo de vida, corrupção, desemprego, a eterna impunidade de crimosos de todos os tipos, de assassinos e traficantes a deputados e senadores. A pesquisa tinha como objetivo sugerir estratégias de propaganda que se adaptassem a essa realidade. Além de propor uma maior ênfase no otimismo, bom-humor, nacionalismo e nostalgia, a agência sugeriu que as empresas ressaltassem a enorme quantidade de produtos e serviços que os consumidores têm à sua disposição e seu grande poder de escolha, inclusive para optar por novos padrões de consumo. É um exercício psicológico meio complicado, mas a verdade é que são as pessoas que estão no controle. Elas podem escolher o que vão e o que não vão comprar, decidindo o quanto vão deixar se influenciar por símbolos de status ou apelos consumistas. Em um mundo instável e, muitas vezes, hostil, ajuda perceber que, ao menos em relação às coisas que nos cercam, somos nós que estamos no controle.







