MAR DE LETRAS – 23 a 28/05/2011
1-Este Mar de Letras começou com boas e más notícias: a má é que ele já arrancou atrasado mais uma vez. Na 2ª feira, tive que ir na empresa pela manhã: não havia conseguido fazer a programação financeira de toda a semana, desta vez menos por falta de dinheiro do que por falta de tempo; a boa notícia é que eu havia marcado para a 2ª feira de tarde uma nova reunião na Fritz & Frida, por solicitação deles. Havia um novo capítulo para ser escrito e vários detalhes da publicação do livro que precisavam ser discutidos. Foi uma tarde bastante agradável, conversando sobre literatura e histórias de vida, alternativas de capa e possíveis títulos, estrutura de layout e estratégias de divulgação. Ainda não há uma data definida para a publicação, mas as coisas voltaram a se movimentar depois de uma brusca parada no final do ano passado. Beleza!
Saindo de Ivoti já no final da tarde, parti rumo a Capão por um caminho diferente, passando por Campo Bom, Parobé e, antes de Rolante, pegando à direita rumo à Santo Antônio. Apesar de ter feito a maior parte do caminho à noite e debaixo de chuva, foi bom escapar do velho circuito da BR 116 e freeway. Dizem que ir para lugares conhecidos por novos caminhos ajuda a prevenir o mal de Alzheimmer. Poderei dar minha opinião assim que me lembrar quem diabo é esse alemão Alz.
2-Como, neste final de semana, fiz dezenas de churrascos ― na sexta com a Lika, no domingo ao meio-dia com meu pai e, no domingo à noite, na casa de um amigo, ― e cheguei a Capão já depois das oito da noite, não cumpri o saboroso ritual de colocar fogo na churrasqueira para comemorar o início do sempre digno de comemoração Mar de Letras. Me contentei com coxinhas de galinha na manteiga com um spaghetini Barilla no 3. Uma delícia, considerando que não era carne assada nas brasas.
3-E, por falar em excesso de churrasco, isso acabou influenciando também meu almoço de terça-feira. Eu havia trazido uns filés de salmão congelados que comprara no Makro e resolvi experimentar uma receita que vi em um desses programas culinários que infestam a TV atualmente: filé de peixe grelhado com batatas cozidas grelhadas na manteiga. Achei interessante a forma como o gourmet do programa havia preparado as batatas: deixe-as cozinhar, com casca, na água fervente. Quando estiverem mais ou menos macias, corte-as em cubos médios (pode deixá-las com casca), tempere com sal ou tempero completo e coloque-as em uma frigideira com um pouco de manteiga. Deixe-as dourar levemente, virando-as para que dourem todas as faces. Tempere o filé de peixe com tempero completo, pimenta e limão e grelhe, também na manteiga. Para contrabalançar o sabor da manteiga e do peixe e dar um frescor ao prato, pique uma boa quantidade de salsinha e cebolinha frescas e espalhe sobre a batata e o peixe. É um prato leve, saudável e delicioso. E facílimo de fazer. Ah, para acompanhar, claro, um bom vinho, de preferência um tinto leve como Pinot Noir, Cabernet Franc ou Carmenère. Salut!
3-No jornal de terça-feira li uma notícia que me deixou estupefato: um conhecidíssimo surfista gaúcho, pertencente a uma das mais tradicionais famílias do Estado, os Chaves Barcelos, assassinou a facadas o namorado de sua ex-esposa. O matador, Alemão Caio, com 54 anos; o morto, Zeca Bezerra, também surfista, com 50. Meus contemporâneos, famosas figuras da minha geração do surf, membros da classe alta, conhecidos personagens da elite gaúcha, com viagens e aventuras pelo Havaí, Indonésia e outros points famosos do surf mundial. De repente, envolvidos numa disputa amorosa que acabou numa tragédia que marcará suas famílias para sempre. Impressionante! Com essa notícia trágica na mente, cuia na mão e a garrafa térmica debaixo do braço, saí para uma longa caminha pela praia. E concluí mais uma vez que sou mesmo um rapaz de sorte.
4-Bom, não aconteceu na chegada mas aconteceu na tradicional quarta-feira: uma bela costela de ovelha foi para o fogo. Dia de churrasco, cerveja e futebol. Na TV, mais uma demonstração de que não existem jogos ganhos na véspera e que nem sempre uma vantagem conseguida numa partida é realmente decisiva. Em muitos campeonatos, a partir de uma determinada fase as disputas entre duas equipes passam a ser eliminatórias, com uma partida na casa de cada uma. E, em quase todas essas competições, o critério de desempate é o gol qualificado, ou seja, o gol marcado na casa do adversário. E aí, dependendo do resultado, se criam as falsas sensações de que a disputa já está vencida. Foi assim na Libertadores, onde o Internacional empatou em 1×1 com o Peñarol em Montevidéu e precisava apenas de um empate em 0×0 em pleno Beira Rio para seguir adiante na disputa. Perdeu por 2×1 dentro de casa. O Grêmio, na final do Campeonato Gaúcho, fizera 3×2 no Beira Rio e poderia, na sua casa, empatar e até perder por 1×0 ou 2×1 que seria o campeão gaúcho pelo quantidade de gols que havia feito no Beira-Rio. Entrou no gramado do Olímpico com a virtual faixa de campeão no peito. Pois tomou três gols em casa, foi conseguir o placar de 3×2 já no final da partida, deixando tudo igual ao primeiro jogo, e acabou derrotado nos pênaltis. Quarta-feira aconteceu o mesmo com o Avai, time catarinense que vinha fazendo uma campanha espetacular na Copa do Brasil. No Rio de Janeiro havia empatado em 1×1 com o Vasco da Gama e no jogo da volta, em Florianópolis, precisava apenas de um empate em 0×0. Entrou em campo ovacionado por uma imensa e fanática torcida, entusiasmada com a possibilidade de um time pequeno como o Avaí conquistar um torneio tão importante que lhe daria a possibilidade de disputar a Libertadores da América, o mais importante campeonato do continente. Pois aos três minutos, em uma bola cruzada para a área, um zagueiro do Avaí pula e cabeceia de raspão contra o próprio gol. Um a zero para o Vasco. A partir daí o time catarinense ficou ansioso e não conseguiu se impor a um Vasco que fazia uma brilhante partida, com trocas de passes precisas e uma dupla de atacantes, Diego Souza e Alecsandro, criando jogadas brilhantes. Final: 2×0 para o Vasco, Avaí eliminado e mais uma prova de que as vantagens podem ser ilusórias e que jogo de futebol só termina no apito final do juiz.
5-O último texto do livro da Fritz & Frida que estou escrevendo gira em torno de políticas fiscais e o mal que impostos demasiadamente elevados ou mal formulados fazem aos negócios e à sociedade em geral. Estamos cansados de ouvir que o governo cobra muito e gasta mal. E este desperdício de um dinheiro que foi arrancado de pessoas que trabalharam muito para conquistá-lo se dá através de duas pragas que caracterizam a atividade do governo: incompetência e corrupção.
Mas há um outro aspecto igualmente grave e que poucas pessoas se dão conta: é da natureza do governo gastar mal. E isso acontece porque os governantes não produzem riquezas, mas são meros intermediários que as tiram de uns e entregam à outros (ficando, claro, com a maior parte a título de salários e corrupção). Há uma historinha que não canso de repetir e que exemplifica bem isso. Imagine que você vai comprar um presente para alguém. Agora imagine três situações: na primeira, você compra um presente com seu dinheiro para dá-lo a uma pessoa que você não conhece. Nesse caso, o aspecto mais importante é o preço. Você vai comprar algo bem barato, não dando muita importância para a qualidade. Agora imagine você comprando um presente para você mesmo, mas com o dinheiro dos outros. Nesse caso, o preço pouco importa. Afinal, não é você que vai pagar. O mais importante é a qualidade. Finalmente, temos a situação em que você vai comprar um presente com o dinheiro dos outros para dar a um desconhecido. Nesse caso, nem o preço e nem a qualidade são muito importantes. Se você pagar caro (levando uma comissão) e comprar uma porcaria, não vai fazer muita diferença. Pois administradores públicos, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente isso: pegando um dinheiro que não é deles e comprando coisas para pessoas que não conhecem.
Imagino algum funcionário público lendo essas bem argumentadas linhas e partindo em defesa da classe: “Não é verdade! Há pessoas honestas que, inclusive, por gastarem um dinheiro que não é seu, tomam mais cuidado do que se fosse seu próprio salário”. Até pode ser. Exceções existem em todos os lugares. Mas infelizmente, conforme os noticiários, a realidade tem sido ainda pior do que a teoria.
6-Na quinta-feira o dia estava frio e chuvoso. Saí para caminhar já perto do meio dia, fiz o aprazível circuito da beira-mar pelo calçadão, depois passei na prefeitura para pegar o carnê do pagamento do IPTU do apartamento, fui até a agência do Itaú para abrir uma chamada conta eletrônica (na qual eles alcançam o objetivo supremo de qualquer banco que é não deixar a sua disposição nenhum funcionário – nem caixa, nem gerente, nem porteiro ‒ além de não lhe dar um talão de cheques com o qual você os inferniza na maldita tarefa de compensação) e depois passei no supermercado para comprar os ingredientes que faltavam para meu almoço e janta. A ideia era, em função do tempo pouco amistoso, encerrar por aí minhas saídas do dia. Mas não deu.
Já quase escurecendo, com o tempo mais firme, recebi aquele chamado irrecusável do mar. Desci até a rua, atravessei a avenida e, quando já me virava na direção do calçadão para iniciar uma lenta caminhada contemplativa, recebi um reforço do chamado. Caminhei pela areia até a beira do mar e fiquei olhando as ondas quebrarem na rebentação, tendo como moldura um céu azul-turquesa que começava a se tingir do tom róseo do pôr do sol. Ali estava, na minha frente, aquele espetáculo divino, aquela plasticidade inebriante da qual já falei aqui tantas vezes mas que não canso de exaltar. E me veio aquela sensação de infinita paz e reverência, aquele ânsia de fazer um profundo agradecimento, uma vontade de me ajoelhar e agradecer em infindáveis genuflexões a algum ente divino ou à ordem cósmica pela oportunidade de estar aqui e de desfrutar desse sentimento visceral.
Talvez alguns amigos coloquem essas adocicadas linhas na categoria de “viadagem”, não sem alguma razão.Mas vale o risco, vale o risco…
7-Esses idolatrados Mar de Letras têm como objetivo principal focar minha ainda claudicante carreira literária, envolto nesse ambiente marítimo que tanto me fascina. Mas eles também servem para resgatar alguns prazeres que, nessa caminhada meio atribulada, acabam abandonados à beira da estrada da vida. Nos últimos dias tenho conseguido dedilhar um pouco meu violão, desenferrujando os dedos há tanto distantes das cordas e dos acordes. E, em especial, tenho me esforçado para tocar a belíssima When I need you, de Albert Hammond, que descobri meses atrás em um programa do Multishow. Para quem tem um amor verdadeiro, recomendo. Veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=7kN0it5yK4s. É de arrepiar! Aqui, a tradução da letra: http://www.youtube.com/watch?v=PfMbn4NjnSA.

O sempre espetacular nascer do sol

Salmão com batatas grelhadas na manteiga: funcionou

O pôr do sol entre os edifícios de Capão da Canoa