O mundo tá virado numa jabulani III

1-A pior partida da Copa do Mundo, até agora, foi Inglaterra e Argélia. Parecia aquelas peladas de solteiros contra casados do escritório da firma. Rooney, o craque da Inglaterra, conseguiu a façanha de errar 110% dos passes que deu. Os times passaram o tempo inteiro entregando a bola um para o outro. A Lika ficou com sono. Eu fiquei irritado. Foram tantos erros que para salvar um pouco da dignidade do futebol o juiz deveria ter dado cartão vermelho para os vinte e dois jogadores e mandado todos de volta para casa.

2-E, por falar em dignidade, acho que a Lika matou a charada: vendo o desinteresse com que jogaram, por exemplo, França e Inglaterra, a impressão é que os jogadores estavam morrendo de tédio e se esforçavam não para vencer a partida, mas para achar um jeito de voltar o mais rápido possível para os bares da Champs Elysèes ou para os pubs da Trafalgar Square. É possível que o berro primitivo das vuvuzelas, o caos generalizado do trânsito e o ar algo tribal dessa Copa tenha feito com que as equipes de países desenvolvidos tenham se arrependido de ter embarcado para a África. Bom para seleções como a Argentina que jogam cada partida como um leão faminto lutando pelo jantar.

3-Aliás, por falar em Argentina, descobri um detalhe interessante. E, como “Deus está nos detalhes” segundo Mies Van Der Rohe, ou Le Corbusier, ou Friedrich Nietzsche, ou Albert Einstein, ou Miguelângelo, ou, ou, vale a pena refletir sobre ele. Sim, o detalhe. O melhor jogador do mundo da atualidade, segundo eleição da FIFA , e que tem sido o principal líder do time da Argentina nessa Copa, é Lionel Messi. Altamente técnico, cerebral, driblador. Pois, conforme estatística oficial, na última partida da Argentina contra a Coreia do Sul, o jogador mais veloz em campo foi, adivinhem? Lionel Messi. O que podemos concluir de um time onde o jogador mais importante, mais técnico e mais badalado também é o que mais corre? Leões famintos, leões famintos.

4-E, nada a ver com leões famintos, a Alemanha foi do céu ao inferno com a velocidade de um guepardo africano. Inacreditável ver um jogador com a experiência de Klose, titular absoluto de uma das seleções mais vitoriosas do Mundo, sério candidato a se transformar no maior goleador de toda a história das Copas, cometer duas faltas estúpidas e ser expulso aos 37 minutos do primeiro tempo. Depois, nada mais funcionou. O que confirma que é uma injustiça atribuir os fracassos aos desígnios do deuses. Messi não teve nada a ver com isso.

5-E, para quem acha que macheza é fazer cara feia e tratar todo mundo na porrada, vale a pena ler o texto do David Coimbra, Beijos que vencem.

 

O mundo tá virado numa jabulani II

1-Terminada a primeira rodada da Copa do Mundo de Futebol 2010, a grande notícia acabou saindo da última partida: a derrota surpreendente da favorita Espanha para a retrancadíssima Suiça. Um alento para todas as seleções que estrearam mal e que preferem usar os péssimos exemplos alheios para explicarem seus fracassos ao invés de colocarem o dedo nas próprias feridas. Como a Espanha levou a taça de maior vexame da primeira rodada, a vitória mediocre do Brasil sobre a fraquíssima Coréia do Norte ficou com o vice-campeonato.

2-Mas há uma diferença importante entre os tropeços de Espanha e Brasil: a Fúria jogou bem, mostrou criatividade e velocidade no ataque e perdeu um pouco pelo seu preciosismo na hora de marcar o gol, um pouco por azar. Já o Brasil mostrou uma falta de criatividade constrangedora e um esquema tático que não sabe o que fazer com a bola quando passa do meio campo. Todo o jogo brasileiro se resumiu a alguns lances de genialidade de Robinho que, além de ser o mais talentoso, também foi o mais esforçado. A grande estratégia do Brasil, me parece, é o guarda-roupa do Dunga, que pode deixar os adversários paralisados com tanto mau gosto.

3-Das expectativas iniciais é possível afirmar que a Alemanha foi melhor do que se esperava, Holanda e Inglaterra confirmaram sua força, Argentina deu pro gasto e Brasil e Espanha decepcionaram. Itália e França? Bons queijos e ótimos vinhos…

4-Todas essas análises e previsões só servem para encher linguiça. Na maioria das vezes, quem vence a Copa é quem começou tropeçando nos cadarços. Portanto, cuidado com a Argélia!

5-Os jogadores brasileiros, a comissão técnica e uma parte da imprensa têm repetido ad nauseaun que é muito mais difícil enfrentar uma equipe retrancada do que um time que joga de igual para igual, como justificativa para a bolinha murcha apresentada na estréia contra a Coreia do Sul. Como, em geral, quem joga retrancado é time fraco, essa afirmação equivale a dizer que é melhor jogar contra time forte do que contra time fraco. Ou seja, o Brasil deve achar muito melhor enfrentar a Alemanha do que a Grécia. Que papinho, como diria um amigo meu…

6-Novos fatos importantes sobre o linchamento da jabulani: o goleiro da Inglaterra não culpou a bola pelo seu frango monumental, coisa que qualquer brasileiro faria imediatamente. Está certo: o goleiro é inglês e a patrocinadora da Inglaterra é a Umbro. Já Maicon, o novo herói brasileiro do dia, deixou escapar com espantosa ingenuidade: a jabulani é ótima para chutar. Com certeza, vai ser repreendido pela Nike.

7-Já há dois movimentos unânimes na Copa do Mundo: o grito dos torcedores brasileiros de “Cala a boca, Galvão”, e a súplica de todos os repórteres, comentaristas e torcedores (que ainda não ficaram surdos) de “Cala a boca, vuvuzela”.

8-Espetáculo a charge de Marco Aurélio na Zero Hora de quarta-feira: o Dunga vestindo uma camiseta com a logomarca de uma conhecida (e muito ruim) marca de cerveja, onde está escrito: “BRAHSIL: jogue com moderação”.

9-Para quem está farto de ver carecas de negrões, canelas de coxas-brancas e bundas de amarelos, sugiro uma visita às Gatinhas da Copa. Bem melhor, bem melhor…

 

O mundo tá virado numa jabulani

Ainda não terminou a primeira rodada da Copa do Mundo de Futebol de 2010 mas já podemos constatar vários fatos incontestáveis:

1-O que parecia praticamente impossível, aconteceu: surgiu outra coisa quase tão irritante quanto o Galvão Bueno! É a vuvuzela, que transforma os estádios em uma espécie de ninho de vespas, com aquele zumbido interminável penetrando pelos ouvidos e abalando os nervos. Nem uma melodia, nem um ritmo, apenas um berro primitivo. Tudo a ver…

2-A copa revelou um inimigo quase unânime, mais odiado do que Inglaterra ou Estados Unidos, mais detestada inclusive do que, imaginem, a Argentina: é a jabulane. No entanto, uma investigação mais rigorosa revelou um aspecto interessante: assim como a aversão pelos Estados Unidos tem por trás, em geral, uma viúva do marxismo, o grosso da crítica à bola da Adidas é feita por jogadores patrocinados pela Nike. Coisas desse nosso relativismo pós-modernista, nem tão relativo e muito menos moderno…

3-Diego Maradona fica ridículo de terno.

4-Das grandes promessas dessa copa, só confirmaram até agora Alemanha, Lionel Messi e Budweiser.

5-O trânsito da África do Sul tem conseguido uma façanha que nenhum governo das grandes metrópoles mundiais conseguiu: fazer com que gaúchos, paulistas, londrinos e tantos outros achem que o trânsito caótico de suas cidades não seja, no final das contas, tão caótico assim.

6-O time da África do Sul demonstrou uma disciplina tática difícil de se imaginar em uma equipe africana que sai do vestiário e entra no túnel em direção ao campo dançando e cantando. Outras seleções africanas, como Camarões e Nigéria, já demonstraram vigor físico e bons talentos individuais. Mas, quando se fala em organização tática, elas lembram mais uma roda de pagode num boteco da Rocinha.

7-Acabaram de avisar, no SporTV, que amanhã haverá uma participação especial de Gilberto Gil antes da transmissão do Jogo do Brasil. A Bandeirantes agradece.

8-Galvão Bueno vai transmitir o jogo pela Globo e Luciano do Valle pela Bandeirantes. Talvez Gilberto Gil não seja tão ruim assim.

9-Camaronezi, da seleção italiana, foi um dos jogadores mais faltosos do jogo contra o Paraguai. Abusou dos empurrões, cotovelaços e entradas de sola. Ponto para os defensores da teoria de que o comportamento é definido pela genética. Camaronezi é argentino.

10-As melhores defesas da copa, até agora: do goleiro australiano nos chutes de Lionel Messi e da trave contra África do Sul e Camarões.

11-Como quem não quer nada, Coréia do Sul e Japão, mesmo com os olhinhos meio fechados, ganharam seus jogos. É bom que o Brasil abra os olhos contra a Coréia do Norte.

 

De alma lavada

“Um dia inteiro andando de moto debaixo de chuva é muito melhor do que uma hora de trabalho num escritório”.

Difícil imaginar essa frase sendo aceita como uma unanimidade fora do círculo pouco convencional dos motoqueiros. Mas ela foi repetida com frequência nesse final de semana, em Camboriu, Santa Catarina, durante o encontro que comemorava os 10 anos de existência da Lista Shadow, uma das maiores comunidades virtuais de motoqueiros do Brasil.

O fato é que choveu. E choveu, choveu e choveu. Saímos de Porto Alegre às sete da manhã de quinta-feira, com um céu claro e poucas nuvens. Mas chegamos em Torres já com a viseira dos capacetes riscadas por filetes de água e com os joelhos das calças encharcados. Paramos num posto de combustível, abastecemos, colocamos as capas de chuva e aí não parou mais de desabar água. Foram trezentos e cinquenta quilômetros debaixo de chuva até chegarmos à Camboriu. E lá continuou chovendo toda a noite e a sexta-feira inteira.

Mas o que importa a chuva se estamos entre amigos, num encontro onde a alegria exagerada, a camaradagem explícita, o humor politicamente incorreto e muita cerveja correm soltos? Reencontramos velhos amigos e conhecemos novos, vindos de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo e até de Minas Gerais. Conversamos bobagens, rimos alto, jogamos fla-flu e ping-pong com os reflexos meio prejudicados pelo álcool, dançamos e bebemos aos pés do Cristo Luz com uma imagem deslumbrante da cidade – debaixo de chuva, claro – num ritual de descontração e camaradagem difícil de descrever.

É uma espécie de catarse. Ao amarrar os alforjes, colocar o capacete, ligar a moto e pegar a estrada, os problemas e angústias do dia-a-dia ficam para trás. Aceleramos em direção a uma purgação de nossas culpas e pecados, um processo de purificação da alma que atinge seu ápice quando encontramos os amigos que percorreram caminho semelhante. Dentro de seu colete de couro com o brasão do motoclube costurado nas costas, o mais pacato executivo ou funcionário público vira um motoqueiro malvadão de mentirinha, que divide com seus pares histórias heróicas e divertidas, de credibilidade duvidosa, mas que todos fingem acreditar. E esse ritual se estende pela noite (ou enquanto durar a cerveja) até que, finalmente, todos atingem uma espécie de epifania, uma revelação, quase um orgasmo. E uma puta ressaca.

E então chega a hora de colocar as roupas, agora suadas e sujas de lama, de volta nos alforjes, vestir o capacete e as luvas e pegar a estrada de volta. Por ironia do Patrão Grande do Céu, saímos de Camboriu com um dia lindíssimo e rodamos os mais de quinhentos quilômetros da volta debaixo de um céu claro e ensolarado. De alma lavada, enxaguada e seca.

 

Sentenças não apagam a verdade

Em decisão de primeira instância,a juíza Lilian Cristiane Siman, da 5° Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, condenou a Ford a pagar duas indenizações ao governo do Estado: a primeira no valor de R$ 42 milhões e a segunda de R$ 92 milhões. Na decisão, a magistrada alega que a Ford foi responsável pelo rompimento do contrato e que o governo do Estado cumpriu todos os pontos que haviam sido acordados.

Uma das (poucas) vantagens de se ter uma certa idade é que nos tornamos testemunhas de certos fatos da história.

Esse imenso, incomensurável e absurdo equívoco do então eleito governador Olívio Dutra, do PT, provocado pela arrogância e pela imaturidade, jamais será apagado, nem mesmo por uma sentença judicial. Esse episódio eu vi, e acompanhei muito de perto porque na época tinha algum contato no meio político. E vi, entre perplexo e consternado, o momento em que a Ford desistiu de tentar falar com o governo (que humilhou, com um certo sadismo, os executivos da empresa americana como se tivesse se vingando de todo o colonialismo falsamente imaginado nas Veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano).

O que se seguiu ao anúncio da Ford de transferir o imenso investimento para a Bahia foi patético: um clima de pânico se instaurou no primeiro escalão do governo do PT porque eles jamais imaginaram que aquilo pudesse acontecer. Pela cartilha do PT, o Rio Grande do Sul estava entregando seus tesouros para um bandido que havia conseguido um saque monumental. Não imaginaram que pudesse haver outra vítima ávida para ser saqueada.

Infelizmente, foi uma perda que afetará várias gerações de gaúchos, e que nenhuma sentença jurídica contestável poderá apagar da história.

 

Dica literária… ou culinária

Sou apaixonado por livros. Eles são ótimos para pensarmos nossa própria história e descobrirmos soluções. Ou arranjar novos problemas. Mas eles também são excelentes quando não queremos pensar no nosso mundinho ou nas nossas mazelas mesquinhas que costumamos aumentar ridiculamente. São ótimos para fugir dos problemas. E não dão ressaca.

Também tenho uma queda pela culinária. Brincar de chef é bem mais barato, divertido e saboroso do que frequentar o psiquiatra. E tem praticamente o mesmo efeito. E também é a melhor maneira de escapar de uma das tarefas mais horrorosas do mundo: lavar a louça. Eu cozinho traz implícito, indiscutivelmente, mas não lavo a louça.

Por isso, quando descobri Cozinha Confidencial, de Anthony Bourdain, do qual já falei aqui, tive um daqueles longos momentos de felicidade pura, inebriante! Sempre que posso, volto a visitar suas páginas. Enquanto os outros lavam a louça.

 

Dia das mães

Massacrante essa inundação de propaganda repleta de apelos sentimentais sobre o dia das mães, não é mesmo?

Não, não é pela quantidade de comerciais. É porque minha mãe já se foi…

 

Mar de Letras, bendito seja

26/04 a 01/05

1-No planejamento de 2010, elegi como uma das prioridades mais prioritárias(com o perdão da redundância) o Projeto Mar de Letras. E não apenas pelo ócio reparador, pelo exercício intelectual edificante ou pelas eventuais produções literárias. O Projeto Mar de Letras é uma espécie de ponta de lança, de projeto piloto de um desejo maior, uma nova fase após a conturbada jornada de menino-prodígio, jovem-trabalhador-exemplar, filhinho-de-papai, empresário peixe-fora-d’água e alma perdida. Metade do plano já funcionou.

2-Cheguei na praia, 2a feira, debaixo de chuva e, mesmo que o tempo tenha ameaçado dar uma trégua para que eu pudesse dar aquele velho pulo no centro e comprar algumas bobagens, na volta desabou um temporal que me fez chegar ao apartamento completamente encharcado. Porém, a noite, o céu limpou e fui dormir com estrelinhas espalhadas pelo firmamento. Muito meigo por parte de São Pedro, depois daquela bomba d`àgua que ele me jogou na cabeça.

3-Semelhante ao Mar de Letras de Março, esse também está completamente focado no novo livro que estou escrevendo sob encomenda. É uma pena porque, de todos os objetivos inerentes ao espírito lúdico e intelectualmente produtivo que imaginei para o Mar de Letras, só resta o trabalho árduo de escrever e escrever. Pior que é escrever a história dos outros, e não a de todos e minha também, que é o nome que se dá para ficção. Mas ainda assim é bem melhor do que digitar códigos de barra na internet ou decidir quais os fornecedores que serão brindados com o grampo por falta de dinheiro.

4-Esqueci de dizer que, além da obrigatoriedade de trabalhar quase que exclusivamente no livro da Fritz&Frida, esse Mar de Letras começou meio capenga. Como não consegui adiantar todos os compromissos de uma semana, tive que passar na empresa na 2a feira de manhã. Trabalhei até o meio-dia e, na saída, passei no Makro Atacado imaginando algumas possibilidades gastronômicas para a semana especial que se prefigurava. Até um pacote com mexilhões, anéis de lula, pedaços de polvo e camarão eu comprei, imaginando algo parecido com a soberba Casuela de Calamares que fiz certo dia para a Lika. Espero que não fique só na imaginação. Até um Merlot de boa cepa veio junto como incentivo.

5-Segunda a noite comi um pedaço de pizza que trouxe de Porto Alegre, levemente incrementada com mais uns pedaços de queijo e uma lata de sardinha ao molho de tomate. Gastronomicamente, um início pobre, confesso. Pretendo, para os próximos Mares de Letra, elegar a gastronomia como parte integrante e prioritária do projeto.

6-Para aumentar minha produtividade na produção dos textos do novo, decidi que o cardápio do meio-dia se resumiria a um sanduiche. O motivo não é tanto a perda de tempo na confecção de um cardápio mais elaborado, mas os efeitos colaterais da degustação de uma refeição mais substanciosa acompanhada, invariavelmente, de cerveja ou vinho. A produção intelectual do início da tarde fica algo prejudicada. No entanto, esse plano falhou miseravelmente na terça-feira. Acontece que, no retorno da minha caminhada da manhã, já perto do meio-dia, passei em frente a um dos quiosques da beira-mar de Capão e um aroma irrestível penetrou em minhas narinas e me arrastou até o lugar de onde ele vinha: uma churrasqueira. Isso mudou imediatamente meus planos para o jantar, que era um espagueti a bolonhesa com iscas de peito de frango (tudo ingredientes que já estavam na geladeira). Fiz o espagueti no almoço e tirei do congelador um belo pedaço de maminha que irá para a churrasqueira à noite.

7-Fazia tempo que não faltava luz em Capão da Canoa. Ao menos não por mais de duas horas, como aconteceu na terça-feira. Interessante que sempre que falta luz relembro que esse é, sem dúvida nenhuma, uma das invenções mais imprescindíveis do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, sua ausência revela uma porção de coisas que estavam ocultas (ou, no caso, melhor seria dizer ofuscadas). Por exemplo, terça era noite de lua cheia. E é sempre um espetáculo fantástico ver a lua surgindo no horizonte, atrás do mar, linda e brilhante. Mas, com todas as luzes de Capão apagadas, ela brilhou ainda mais imponente. Avassalador. Daquelas coisas de assistir de joelhos, agradecendo a verdadeira dádiva.

8-Também descobri, com a falta de luz, que não tenho em casa nem lanterna, nem uma mísera vela. Ainda bem que uma pequena luminária que uso no meu notebook e que funciona conectada à porta USB, quebrou o galho. E à lua cheia, claro, que iluminou parte da minha sala como se fosse dia.

9-Outra coisa da qual estava afastado (e que, de vez em quando, me traz muitas saudades) era meu violão. Desta vez não esqueci de trazer o afinador eletrônico (que substitui, como uma muleta, minha incapacidade deprimente de distinguir tons) e meu livrinho de músicas. Os dedos vacilaram nas pestanas e começaram a doer logo após os primeiros acordes. Mas o coração pulou faceirinho uma barbaridade.

10-Vi, pela janela, um velhinho atravessar a rua com seu passo claudicante. Usava um casaco de crochê mostarda, um gorro preto de lã, sandálias e meias escuras. Arrastava as pernas com dificuldade, olhando para os lados e para o chão à sua frente com desconfiança. Do outro lado da rua, na calçada, uma menina loirinha de uns treze anos, vestindo uma bermuda de malha azul brilhante e uma camisetinha branca sem mangas, avançava rápida sobre seu par de patins. Nunca antes esse contraste me pareceu tão aterrorizante. Será que é porque nunca antes eu tive cinquenta e um anos?????????????

11-Depois das chuvas, os dias têm sido lindíssimos. Claros, ensolarados, com uma temperatura de país civilizado. Não bastasse isso, o mar está liso e azulado, com as longas linhas de ondas quebrando muito brancas. As caminhadas da manhã são revigorantes. Terça, havia um vento sudoeste frio e irritante, que tive que driblar voltando da caminhada pela avenida Paraguaçú. Mas ver o movimento, as vitrines coloridas e a agitação de tamanho exato do centro de Capão da Canoa também tem sua beleza. Acho que estou ficando velho e sentimental…

12-Na nova versão cinematográfica de Sherlock Holmes, o famoso detetive afirma: “É inconveniente tentar criar teorias com fatos incompletos. Fatalmente você deturpará os fatos para provar sua teoria, ao invés de procurar uma teoria que explique os fatos, como manda a boa ciência”. Eis uma das pragas modernas: todas as pessoas estão cheias de teorias e pouco se lixam para os fatos. A realidade, quando se trata de desejos e necessidades, é totalmente irrelevante. Daí para se chegar a conclusão de que todos tem a sua própria verdade foi um tapa. E deu nessa merda na qual estamos atolados. O fato é que não poderia ter dado em outra coisa.

13-Descobri hoje, na propaganda política obrigatória e indesejável, que o Partido Progressista faz parte da base do Governo Lula. Dizia um dos políticos que ocupava a telinha que o governo do PT defendia pontos importantes da cartilha do partido. Quem é o PP? Não sei. Mas descobri também que um de seus principais membros é Paulo Maluf. Depois, querem que se leve a política a sério no Brasil…

14-”A hipocrisia é nosso último reduto de privacidade”, diz Cindy, uma scort-girl, no livro “Fletcher venceu”, de Gregory McDonald. Sim, estou lendo um livro de Fletcher, um jornalista atrapalhado que desrespeita tudo que é regra e gosta de brincar de detetive. É uma paródia, de gosto duvidoso e qualidade literária pobre. Espero que não seja a decadência, mas apenas um prato leve entre leituras mais pesadas. Na verdade, cansei um pouco de ver Philip Roth falando de suas paranóias com a velhice e sua fixação com a morte.

15-Sábado, último dia de Mar de Letras, acordei muito cedo para assistir ao nascer do sol. Cevei um mate, ajeitei a cadeira na frente da janela, sentei e aguardei o espetáculo. Por mais que eu estivesse preparado, não imaginaria algo tão esplêndido. Magnífico. Maravilhoso. Fantástico. Espetacular. Extasiante. Monumental. Incrível. Mágico. Inebriante. Etc, etc, etc… Sei que a alegria e a felicidade faz uma literatura muito mais pobre do que a dor e a angústia. Já dizia Vinícius de Morais, nosso querido e eternamente embriagado poetinha: “mas pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza / é preciso um bocado de tristeza / se não não se faz um samba, não”. Ah, foda-se a tristeza e até a boa literatura. Nessa hora, quero mesmo é poder sentir toda essa felicidade que a vida me reservou (ou eu conquistei, sei lá). Só sei que vale a pena lutar por ela, mesmo tendo que sacrificar outras coisas. Inclusive a boa literatura.

A lua surgindo no horizonte

O nascer do sol... indescritível

 

HD TV: verdades e mentiras

Todos sabem que vendedor é uma profissão que exige uma grande dose de persuasão. E boa parte dela está baseada na sua capacidade de mentir ou, na melhor das hipóteses, de esconder informações que não interessem ao seu obejtivo maior que é vender a qualquer custo.

Com a proximidade da Copa do Mundo, e um pouco decepcionado com o péssimo sinal que recebo da Sky, minha operadora de TV a cabo, resolvi pesquisar se valia a pena assinar um pacote com canais HD (de alta definição). A primeira coisa que descobri é que a oferta de canais transmitindo em HD é muito pequena. Depois, descobri que a desinformação dos vendedores, tanto das operadoras de TV paga quanto das lojas que comercializam aparelhos, é de chorar. E descobri, finalmente, que esses vendedores compensam sua falta de conhecimento com um bem arquitetado conjunto de informações falsas cujo objetivo é vender pacotes de canais HD e TVs Full HD.

Antes de analisarmos os fatos verdadeiros, vamos recordar algumas definições técnicas. O principal fator que caracteriza a qualidade de uma transmissão de imagem é chamado de definição. Como se forma a imagem em uma TV? A grosso modo, ela é desenhada em “linhas” na tela, começando da esquerda para a direita e de cima para baixo. Mas não são linhas contínuas, como se você pegasse uma régua e fizesse um traço a caneta. As linhas são formadas por pontos, como se você colocasse vários pontinhos, um ao lado do outro. Então imagine que você vai colocar uma cena na tela da TV e começa no canto superior esquerdo. Você coloca um monte de pontinhos, um ao lado do outro, até formar a primeira linha. Então, começa a colocar os pontinhos na segunda linha e assim por diante, até completar a imagem em toda a tela. Como você vê, dá um trabalho danado desenhar cada lance de uma partida de futebol ou de um filme, mesmo de um jogo entre pernas-de-pau ou um filme ruim à beça.

Cada um desses pontinhos se chama pixels. É fácil concluir que quanto mais linhas de pontinhos, ou seja, quanto mais pixels, mais nítida será a imagem. As TVs antigas (analógicas) tinham imagens formadas por 400 linhas horizontais e 525 linhas verticais (que se escreve 525×400). Com o crescimento dos televisores (que antigamente tinham, no máximo, 21 polegadas), essa quantidade de pontinhos (pixels) não era mais suficiente para “encher” a tela. Então, junto com as tecnologias LED e Plasma, surgiram várias definições maiores, sendo classificadas como SD (standard definition) imagens formadas por 480 linhas e, a partir de 720 linhas, como HD (hight definition). Os padrões atuais de TVs de LCD e Plasma mais comuns encontradas nas lojas são de 1020×720, 1366×726 e 1920×1080 (a famosa Full HD). Além da quantidade de linhas, também é importante saber como essas imagens são formadas, se de forma entrelaçada ou progressiva. Uma explicação mais detalhada pode ser encontra nesse artigo. E é importante pensar que uma definição de 340 linhas em uma tela de celular pode ser excelente e que uma definição de 720 linhas em uma TV de 50 polegadas não é grande coisa.

Feita essa pequena (e necessária) introdução, vamos aos fatos. A primeira coisa que vendedores de TV a cabo e, principalmente, de televisores, nos levam a crer é que TV digital é sinônimo de alta definição (e que, portanto, para assistirmos a Sky ou NET digital precisamos ter uma TV digital). Depois, eles nos induzem a pensar que alta definição é sinônimo de 1920×1080 pixels (isto é, 1920 linhas verticais e 1080 linhas horizontais progressivas, chamada de full HD).  Nesse embalo, as operadoras de TV por assinatura dizem que transmitem sua programação HD em 1080 linhas e, obviamente, os vendedores de TV empurram a idéia de que apenas com uma TV Full HD (bem mais cara) você poderá assistir a esses programas com uma ótima definição. Tudo mentira.

Primeiro, transmissão digital não é sinônimo de alta definição (e nem mesmo de grande qualidade). É apenas uma forma de transmissão de sinais diferente da TV analógica. Isso explica uma coisa que todos vêem mas não conseguem entender: porque a imagem da Sky, que é digital (e tão alardeada nas propagandas), recebida numa TV digital de 40 polegadas ou mais, é pior do que a imagem normal da TV aberta recebida numa TV analógica de 21 polegadas? Muito simples. Porque a imagem da Sky, apesar de ser digital, é transmitida em definição standard, e fica uma porcaria em uma TV com tela grande (tem poucos pixels e não consegue “encher” a tela).

Segundo, nenhuma operadora de TV a cabo transmite imagens com 1080 linhas progressivas (full HD). São, sim, imagens de alta definição (HD), mas com, no máximo, 720 linhas (e, em geral, menos do que isso). Portanto, com uma TV de 1336×726 (padrão da maioria das TV digitais) você estará perfeitamente aparelhado para assistir a TV de alta definição, sem precisar trocar seu aparelho por uma full HD como o fazem crer os vendedores de televisão. Se você comprar uma Full HD, gastará uma boa grana a mais e terá um equipamento cujos recursos não utilizará. Aliás, pasme, mas nem seu DVD de última geração, com upscale, True Motion e o escambau, transmite com 1080 linhas. Os únicos aparelhos comerciais, atualmente, que produzem imagens full HD são os Blu-Ray e alguns jogos do Play Station 3. Um ótimo artigo que explica bem isso pode ser encontrado aqui.

Portanto, a vendedora da Sky ou da NET que disser que, assinando seus pacotes HD, você estará recebendo imagens com 1080 linhas, estará mentindo. Vendedor de TV que disser que você precisa comprar uma TV full HD para assistir aos canais HD da TV por assinatura, estará mentindo ainda mais (porque essa mentira custará caro).

É recomendável lembrar que, se a definição é o fator mais importante ao escolher uma TV digital, ele não é o único. Outros parâmetros como tempo de resposta, taxa de contraste e outros também são importantes.

Mas, afinal, há uma diferença significativa entre os canais normais e os canais HD (em alta definição)? A resposta é sim. E muita, quando há riqueza de detalhes. Numa partida de tênis ou num show, aparece ao fundo uma platéia toda borrada nas TVs normais. Você nem consegue identificar se quem está assistindo é uma moça loirinha ou um orangotango peludo. Numa transmissão em alta definição, você saberá não apenas a cor do cabelo da loirinha, mas também a cor dos seus olhos e se ela está piscando para você. É impressionante a qualidade e a nitidez de detalhes em grande parte da programação em HD, principalmente quando provenientes de fontes qualificadas.

Se você puder, desfrute dessa nova e incrível experiência de imagem e som proporcionada pelas novas tecnologias. Mas não se deixe fazer de bobo.

 

Fórum da Liberdade

Assistir ao Fórum da Liberdade é sempre um exercício revigorante para o intelecto. Principalmente quando existem idéias contraditórias e podemos tirar conclusões a partir de nossas próprias deduções. Ou podem tirar conclusões aqueles que possuem, no mínimo, dois neurônios realizando sinapses (o Tico e o Teco). Não pude assistir a todas as palestras, mas o que vi (e ouvi) foi suficiente para confirmar algumas convicções e ver repetidos alguns exageros.

Tiro no pé

O principal convidado do Fórum da Liberdade desse ano como representante das idéias socialistas foi o Professor João Quartim de Moraes, um estudioso de formação marxista e adepto da teoria de que, no futuro, o capitalismo desembocará, fatalmente, em uma sociedade socialista. Mas sua palestra (e seus argumentos) foram por demais claudicantes diante dos atuais fatos históricos, como a comparação entre os resultados práticos da Alemanha e da Coréia Comunistas frente às suas irmãs gêmeas capitalistas ou o sempre desconcertante hábito dos cubanos de fugirem do paraíso socialista em balsas de borracha através de mares infestados de tubarões para desembarcar na cruel, desumana e pavorosamente capitalista Miami.

Mas o grande tiro no pé acabou sendo dado pelo mega-executivo Carlos Ghosn, Presidente do Conselho de Administração e Diretor Executivo da Renault e da Nissan Motor. Convidado como expoente do mundo empresarial e defensor da economia de mercado, acabou elogiando envergonhadamente a intervenção dos governos na recente crise mundial, achando que agiram muito bem governantes franceses e americanos ao transferirem milhões de dólares dos contribuintes para as empresas automobilísticas ameaçadas de falência. Sua justificativa não poderia ter sido melhor invocada por esquerdistas de todos os matizes: o salvamento de empregos. Entre eles, obviamente, o próprio.

As raposas e o galinheiro

O painel sobre capitalismo, que deveria ser um dos mais importantes e merecedor, por certo, de sólida e vigorosa argumentação, acabou sendo entregue a dois banqueiros (Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central, e Pedro Moreira Salles, Presidente do novo colosso bancário Itaú-Unibanco) e a um executivo estrangeiro que veio fazer média porque está abrindo negócios no Brasil.

Não foi apenas um painel monótono: comandado por dois representantes de um setor da economia que é visto com desconfiança por boa parte da sociedade, acabou pecando pela falta de credibilidade.

Divertido mas nada a ver

O palestrante que mais mexeu com a platéia, entre aqueles a que assisti, foi o renomado articulista de Veja e defensor meio circense dos administradores do Brasil, Stephen Kanitz. Gastou seu tempo fazendo propaganda de si próprio e tentando provar que os verdadeiros heróis da nação brasileira são os administradores. Foi o momento Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo do fórum.

Boas idéias

Mas teve coisas boas (e outras coisas ainda melhores) nas palestras a que assisti.

O discurso de Marcel Granier, presidente da RCTV, a emissora perseguida e fechada por Hugo Chavez na Venezuela, foi emocionante. Ao invés de demonstrar ódio e atacar Chavez, Granier exaltou a importância da liberdade de imprensa e o trabalho árduo (e perigoso) no qual estão envolvidos todos aqueles que tentam resistir à ditadura chavista. E ressaltou a difícil tarefa de vencer o medo.

Juan Fernando Carpio Tobar-Subía, professor de economia no Equador, fez uma palestra magistral. Densa, cheia de informações e exemplos e, ao mesmo tempo, divertida. É dele uma afirmação instigante: é repetida com insistência a tese da exploração dos países mais pobres pelos países mais ricos, principalmente em relação ao comércio de commodities e matérias primas. Afirma-se que os países ricos compram produtos baratos (ferro, alumínio, petróleo, carne, bananas) e revendem produtos industrializados caríssimos. Pois Fernando Carpio afirma que exploração de verdade é alguém oferecer um cacho de bananas ou um barril de óleo gosmento em troca de um Ipod.

Outro fato interessante que aconteceu foi a confissão, mesmo que disfarçada, feita por Quartim de Moraes, o socialista, de que a Rússia, em determinado momento de crise de produção de alimentos e de fome generalizada, permitiu que algumas comunidades de camponeses passassem a produzir alimentos sem o controle do Estado, em um sistema de liberdade, entregando apenas parte da produção como imposto, ao invés de entregar toda a produção e depois receber de volta cotas de racionamento de alimentos. O aumento de produtividade foi tremendo! Lembrou um pouco os cubanos que criam porcos e galinhas nos seus apartamentos, escondidos do governo, para terem uma alimentação melhor.

Outra questão que surgiu em mais de uma palestra do Fórum da Liberdade foi considerações sobre a pobreza no mundo, principalmente na palestra de Eduardo Marty, um argentino muito bem articulado. Todos os dados comprovam que houve um significativo aumento da riqueza em todos os continentes. E que esse crescimento foi bem mais acentuado nos países que optaram por sistemas econômicos de mercado. O padrão de vida de um cidadão de classe média nos dias atuais é superior ao de um rei da Idade Média.

Por falar nessa questão, Fernando Carpio propôs um exercício de raciocínio interessante. Ele pediu que se imaginasse esse rei medieval entrando em uma máquina do tempo e vindo aos dias atuais. Aqui, ele visitaria a casa de um cidadão rico e a de um cidadão pobre. O que mais impressionaria esse visitante do tempo? As diferenças ou as semelhanças entre as duas residências? É claro que seriam as semelhanças. Esse rei, que nunca viu uma geladeira ou um fogão a gás, encontraria ambos nas duas casas. De marcas e qualidade diferentes, é certo, mas ambos estariam presentes, tanto para o rico quanto para o pobre. Encontraria também, para seu total espanto, coisas incríveis como televisão e rádio. E encontraria em ambas as residêncais a maior invenção de todos os tempos, o utensílio mais útil e revolucionário que se pode imaginar: o banheiro. Para um rei que fazia suas necessidades em um penico e as guardava debaixo da cama, o banheiro é muito mais revolucionário do que o Ipod ou a internet.