O outro lado

Hamlet, mergulhado na sua tragédia, diz: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. Filosofando, claro. Mas não quero falar de filosofia, e sim do “outro lado”. Ou “outros lados”, que sempre acompanham qualquer acontecimento, em especial os grandiosos ou trágicos.

Assistindo a um pedaço de Manhattan Connection neste final de semana, acompanhei uma discussão sobre o aumento das medidas de segurança implantadas nos aeroportos dos Estados Unidos, reforçadas a cada novo atentado terrorista. Ricardo Amorim dizia que um dos efeitos colaterais do atentado de 11 de setembro (entre tantos outros) foi a diminuição do uso do transporte aéreo por muitos americanos. E isso não apenas devido ao medo de novos atentados, mas às próprias dificuldades e transtornos causados pelo aumento das medidas de segurança nos aeroportos. Como os índices de acidentes e mortes nos transportes terrestres (principalmente nas estradas) é muito maior do que no transporte aéreo, Amorim afirmava que a Al Qaeda havia matado mais americanos nas estradas do que nas torres gêmeas.

E nos vangloriamos de nossa inteligência e racionalidade.

—*—

Esse blog, fiel ao seu ecletismo, também publica piadas. Quando elas, claro, têm um “outro lado”:

A moça se derrama em lágrimas diante do juiz. O magistrado, condoído diante de tanta dor, pergunta delicadamente:

-Mas quando a senhorita percebeu que havia sido um estupro?

-Quando o cheque voltou, meretríssimo! – Buááááááááá

 

A educação no Brasil de hoje

A EDUCAÇÃO NO BRASIL DE HOJE

A educação virou notícia. Não notícia especializada, restrita a revistas segmentadas sobre pedagogia, língua portuguesa, literatura e outros conteúdos de cunho educacional. Nem notícias específicas, publicadas em suplementos de jornais ou outros meios de divulgação de instituições acadêmicas, incluindo artigos e ensaios feitos por e para educadores. Essas sempre existiram.

A educação chegou à mídia de massa. E, como praticamente todos os assuntos que ganham repercussão massiva e bombástica, chegou lá não por suas virtudes e eventuais feitos louváveis, mas por seus defeitos recorrentes e por uma degradação que beira à tragédia.

Numa reportagem que alcançou repercussão nacional, a revista Veja, publicação semanal da Editora Abril, estampou na capa de sua edição 2074[1] de 20 de agosto de 2008 a seguinte manchete: O inssino no Brasiu è otimo. O que parece, a princípio, uma construção irônica de um jornalista, reflete, na verdade, uma realidade de sala de aula que está longe de ser engraçada. A reportagem constata que, a exemplo da construção gramatical da frase destacada na capa, os estudantes brasileiros apresentam desempenho medíocre nos testes nacionais e estão entre os piores colocados em todos os rankings internacionais. E que, apesar desses resultados medíocres, tanto alunos quanto pais acham que as instituições de ensino fornecem uma educação de boa qualidade.

O jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, desenvolveu um projeto editorial de fôlego denominado O X da educação que abrangeu reportagens, entrevistas, artigos de opinião de especialistas em educação e de cronistas respeitados, e até mesmo alguns editoriais. O foco, apesar de centrado em questões relacionadas ao processo educacional, abriu um amplo leque de abordagens que discutiram desde a posição de professores, pais e alunos até um mergulho incisivo na cada vez mais preocupante questão das drogas e da violência em sala de aula.

Esses são dois exemplos de um fenômeno mais amplo que enseja reflexão. O que faz com que um assunto que, apesar de ser alardeado como prioritário por políticos e governantes de todos os matizes mas que sempre ocupou mais espaço nos discursos demagógicos do que nas ações concretas, conquiste, de repente, tamanha repercussão? Para os céticos ou para aqueles que acreditam que a grande mídia é somente mais um instrumento de manipulação da opinião pública utilizada pelas elites dominantes, tudo pode se resumir a apenas um jogo de cena cuja finalidade é bloquear os avanços que surgem em questões sociais, como a instituição de cotas raciais ou a ampliação da universalização do ensino. Mas talvez a educação e, em especial, a má educação, tenha atingido um nível tal que a repercussão alcançada na mídia não seja apenas uma manobra diversionista, mas sim um grito de alerta da sociedade.

Segundo o último levantamento do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF[2]), realizado pelo Instituto Paulo Montenegro[3] em 2007, apenas 28% da população brasileira é capaz de ler e compreender o conteúdo de um texto como este artigo ou de um projeto de lei que tenha importância vital para sua vida. É necessário repetir esse número assombroso: apenas 28% dos brasileiros possui a capacidade de ler um texto longo, fazer comparações ou sínteses. A capacidade de leitura e compreensão dos demais 72% da população nacional não vai além de manchetes de revistas sensacionalistas, placas com ofertas no mercadinho da esquina ou do letreiro do ônibus que utiliza para ir ao trabalho.

Certamente não por acaso, em sua última edição de 2007, o teste PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), desenvolvido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que testou jovens de cinqüenta e sete países diferentes, colocou o Brasil em posição destacadíssima: foi o quinquagésimo terceiro colocado em matemática, quinquagésimo segundo em ciências e conquistou a quadragésima oitava posição em leitura e interpretação.

Numa análise mais apressada, pode-se atirar essa conta sobre as costas largas da escola pública, sabidamente de sofrível qualidade, e defender que as escolas particulares, em sua maioria, conseguem oferecer uma educação de razoável qualidade, salvando pelo menos os filhos de nossas elites sociais e econômicas do caos. Não é verdade. Em um artigo perturbador intitulado Preocupe-se: seu filho é mal educado[4], publicado em novembro de 2007, o articulista de Veja Gustavo Ioschpe declara:

“A ideia de que a escola particular brasileira é boa e protege seus alunos das deficiências da escola pública é falsa. Nossas escolas particulares são apenas menos ruins do que as públicas – mas, se comparadas às escolas de outros países ou a um nível ideal de qualidade, certamente ficam muito distantes.”

E completa, no mesmo artigo, certamente para desespero de muitos representantes de nossas elites conformadas:

“A situação fica ainda mais clara quando fazemos o recorte por nível socioeconômico: o desempenho dos 25% mais ricos do Brasil é menor do que a média dos 25% mais pobres dos países da OCDE. Deixe-me repetir: os alunos da nossa elite têm desempenho educacional pior do que os mais pobres dentre os países desenvolvidos.”

Ou seja, o Brasil consegue atingir praticamente a perfeição em termos de tragédia educacional: entre mortos e feridos, não se salva quase ninguém.

Há exceções? Claro. Existem professores, escolas e instituições que conseguem escapar dessa sarjeta. São exemplos de bons desempenhos no Enem, escolas disputadas onde há mais alunos interessados do que vagas, professores que educam ao invés de apenas cumprir horário ou fazer proselitismo político. São profissionais e instituições que assumem seu papel, estabelecem regras e cumprem sua função: promover o ensino e a aprendizagem.

E aprender, ao contrário do que dizem muitos teóricos modernos é, sim, absorver conteúdos. Não importa, em essência, quais sejam. Decorar os afluentes do Rio Amazonas ou as Capitanias Hereditárias do Brasil pode ser absolutamente inútil para a maioria dos alunos. Mas pode ser fundamental em um concurso público ou num programa de auditório de perguntas e respostas. Não importa se o tema estudado é o uso correto da crase ou da camisinha, a interpretação de um poema de Fernando Pessoa ou de uma placa de trânsito. O que importa é que a aprendizagem seja efetiva, isto é, que ela possa ser recuperada e utilizada quando necessária em situações futuras da vida do aluno.

Quando analisados os resultados dos testes nacionais e internacionais, ou mesmo o desempenho corriqueiro em sala de aula, o que mais chama a atenção não é o fato de os alunos não saberem aplicar a fórmula de Bhaskara ou não compreenderem a diferença entre um verbo transitivo e um intransitivo. O que realmente impressiona é ver estudantes, no final do ensino fundamental ou no início do ensino médio, que não sabem interpretar um texto simples ou que não são capazes de escrever um único parágrafo sem que apareçam erros graves de ortografia e sintaxe.

Enquanto se alardeia em discursos de intelectuais respeitadíssimos ou de autoridades governamentais que a principal função das escolas é “formar cidadãos”, as escolas falham miseravelmente naquela que é sua função mais básica, mais elementar: ensinar seus alunos a ler e a escrever. Não há cidadania com homens e mulheres que não sabem ler um jornal, que não compreendem o teor de leis que afetarão profundamente suas vidas, que não reconhecem um discurso político eivado de promessas falsas. Esta afirmação está longe de ser uma novidade. Paulo Coimbra Guedes (apud NEVES, 2000, p.135), em ensaio publicado no livro Ler e escrever: compromisso de todas as áreas, afirma:

“É um direito de cidadania do aluno ter acesso aos meios expressivos construídos historicamente pelos falantes e escritores da língua portuguesa para se tornar capaz de ler e compreender todo e qualquer texto já escrito nessa língua. Ensinar a ler é levar o aluno a reconhecer a necessidade de aprender a ler tudo o que já foi escrito, desde o letreiro do ônibus ao nome das ruas, dos bancos, das casas comerciais, leituras fundamentais para sua sobrevivência e orientação numa civilização construída a partir da língua escrita; ler o jornal, que vai relacioná-lo minimamente com o mundo lá fora; ler os poemas, que vão dar concretude, qualificar e expandir os limites de seus sentimentos; ler narrativas, que vão organizar sua relação com a complexidade da vida social, ler as leis e regulamentos que regem a sua cidadania, ler os ensaios que apelam à sua racionalidade e a desenvolvem.”

Na apresentação da mesma obra, os organizadores enfatizam (NEVES, 2000, p.10):

“Temos claro que ler e escrever sempre foram tarefas indissociáveis da vida escolar e das atribuições dos professores. Ler e escrever bem forjaram o padrão funcional da escola elitizada do passado. (…) Ler e escrever massiva e superficialmente tem sido a questão dramática da escola recente.”

Já Vera Teixeira Aguiar, na obra Que livro indicar: interesses do leitor jovem (1979, p.9), afirma:

“(…) a leitura é um dos meios mais eficazes para o desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo (…) portanto, a formação de hábitos permanentes de leitura promove o crescimento cultural do indivíduo e a sua capacitação de atuar criticamente no mundo em que vive.”

E, no artigo intitulado Dever do próximo presidente: vetar a expansão curricular[5], Gustavo Ioschpe declara:

“Nossa prioridade primeira deveria ser fazer com que as crianças de primeira série aprendessem a ler e a escrever. Enquanto isso não for estabelecido, todo o resto será mudança cosmética. Não é possível ensinar filosofia, sociologia, direito, história ou geografia a jovens semiletrados.”

Na verdade, não são apenas os conhecimentos básicos das ciências humanas ou exatas que serão inalcançáveis para uma pessoa que não dominar a linguagem na qual esses conhecimentos foram criados e armazenados. A concepção ontológica da linguagem discutida por Martin Heidegger[6] pensa o homem como “sendo” por meio da linguagem, e entende a linguagem “não apenas como veículo de transmissão de informações, mas como o modo no qual se manifesta o próprio existir humano”. Portanto, dominar a linguagem não nos torna apenas alfabetizados: nos torna seres humanos.

O diagnóstico, infelizmente, é trágico. E a tarefa de tirar o Brasil desse abismo é monumental. Mas há bravos Davids, a maioria não em gabinetes ministeriais mas em salas de aula, manejando suas pequenas atiradeiras contra esse gigante que mantém o Brasil preso à pobreza e à indigência intelectual.

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Kleber Boelter é empresário e escritor. Esse artigo foi baseado na monografia apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso para colação de grau na Faculdade de Letras da PUC-RS em 2009. Texto integral disponível em: http://www.kleberboelter.com/producoes-academicas e em: http://letraspuc2009.wordpress.com/curriculo-graduados/kleber-boelter/


[1] Disponível em: http://veja.abril.com.br/200808/sumario.shtml. Acesso em: 7 nov 2009.

[2] Resultados das pesquisas e detalhes da metodologia do INAF disponíveis em http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.00.00.00&ver=por. Acesso em: 7 nov 2009.

[3] Instituto Paulo Montenegro, vinculado ao IBOPE: Informações disponíveis em: http://www.ipm.org.br/. Acesso em: 7 nov 2009.

[4] Disponível em: http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_011107.shtml. Acesso em: 7 nov 2009.

[5] Disponível em: http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_080908.shtml. Acesso em: 23 nov 2009.

[6] Disponível em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302005000200004&lng=pt&nrm=.pf&tlng=pt. Acesso em: 23 nov 2009.

 

Mar de Letras again

14 a 20/03/2010

1-Eis-me novamente em Capão para mais uma edição do Mar de Letras. Depois das últimas confissões sobre o prazer quase transcendental que esse retiro ócio-literário-espiritual me proporciona, desnecessário repetí-las. Apenas para não deixar passar em branco esse momento de intenso sentimento, vou abandonar momentaneamente a linguagem literária para reafirmar essa sensação de uma forma mais, como direi, popular: é bom pra caralho!

2-Bueno, deixe-me retirar o ócio e o espiritual. O Mar de Letras de janeiro tinha uma forte carga de relax após os quatro anos da Faculdade de Letras. Eu estava com um fartão da PUC (agora estou com saudades, fazer o quê…), e queria mesmo vadiar, apenas vadiar. Por isso caminhei muito, li muito, vi vários filmes e produzi uma razoável quantidade de textos descomprometidos. Dessa vez, porém, estou aqui com um compromisso e já bastante atrasado. Em dezembro, fechei contrato para a produção de mais uma história empresarial de uma importante indústria de alimentos do Vale dos Sinos. Com as festas de final de ano, as várias férias (esse foi um ano generoso!) e mais carnaval e otras cositas, acabei ficando atrasado com meu cronograma. Consegui fazer várias entrevistas e recolher boa quantidade de material, mas a produção literária estava um fiasco. Então, esse Mar de Letras foi uma concentração para recuperar o atraso. Deu certo.

3-Mas, em contrapartida, todo o resto foi pobre de doer.

4-Em termos de leitura, avancei mais algumas páginas do livro que eu já estava lendo, maisquememória, do Marcelo Bakes, mas sem dedicação nem entusiasmo. É um livro estranho, que merece o rótulo de interessante mas que não me fez perder o sono nenhuma noite. Consegui ler um conto do Altair Martins, publicado no jornal literário Rascunho que assino (e pouco leio), uma reportagem antiga sobre uma viagem de moto de um maluco até Ushuaia (maluco não por ter ido até lá de moto, mas por ter feito isso em três dias e meio, com uma média de quase mil quilômetros por dia!). Ah, e li também um rótulo de um vidro de azeite de oliva. Pouco, muito pouco. Também tentei ler uns dois artigos da Speak-Up, uma espécie de curso de inglês em formato de revista, mas o resultado foi tão lamentável que nem conta. Apaga aí.

5-Em termos culinários, foi pior ainda. Tirando os churrascos de segunda, quinta e sexta, o resto foi alguns sanduíches sem imaginação, uma galinha assada no forno com menos imaginação ainda e uma omelete sem comentários. Arrisquei uma salada de siri, usando um pouco da carne que havia comprado para fazer umas casquinhas no sábado para minha amada e a sogra, mas o resultado foi decepcionante. Não das casquinhas, bem entendido. Mas, pensando bem, que chances tinha uma salada de siri de sair uma coisa que prestasse?

6-No departamento cinematográfico, as coisas não foram muito melhores. Remei dois dias num filme chato de doer que simplesmente não engrenava. O nome do dito era O solista, com o Downey Junior e o Jamie Fox. Os atores não são ruins, mas o roteiro se arrastava para lugar nenhum. Simplesmente abandonei o maldito. Praga de alguma associação anti-pirataria?

7-Também tentei o The blind side (pessimamente traduzido em português para Um sonho possível), filme que deu um espantoso Oscar para Sandra Bulock na edição desse ano. Em tese, o filme se baseia numa história real. Mas é tão inverossímel que só pode mesmo ter acontecido na realidade. Na ficção, não convence.

8-Quanto ao Oscar da Sandra, certamente foi uma piada da Academia. Logo, logo eles devem chamar a Meryl Streep, pedir desculpas e dizer que as piadas da cerimônia estão mesmo ficando cada vez mais sem graça.

9-Para não dizer que foi tudo lamentável, cinematograficamente falando, dei boas risadas com o DVD do show do Guri de Uruguaiana, uma competente criação do Jairo Kobe. Ver o Michael Jackson e o Elvis Presley interpretando o Canto Alegretense foi de lascar. E as participações do Rui Biriva e do Daniel Torres estavam excelentes.

10-O tempo ajudou e consegui manter longas e deliciosas caminhadas à beira mar. Como o mar estava limpo e a areia livre do enxame de porcos que caminham sobre duas patas e transformam a praia num lixão a céu aberto durante a temporada, foi só alegria. Deu até para filosofar sobre o incrível contraste entre a obra de Deus e a obra dos homens, expostas lado a lado. Mas ficou tão piegas que vou poupar vocês, estimados leitores.

11-Escrevo essas tortuosas linhas na sexta-feira, depois de um churrasquinho amigo e de terminar de ver o filme da Sandra Bulock, e já recordo que amanhã é dia de voltar para a cidade. Algumas lamentações até caberiam, mas seria uma ingratidão.

12-Nesse entrevero, troquei vários telefonemas com minha amada que está na maior ansiedade. Depois de dez anos com seu valente Ka, ela está trocando de carro. Merecido, muito merecido. É uma mulher adorável, cheia de entusiasmo e batalhadora. Merece até o excepcional (e modesto) parceiro que tem.

13-Como nem tudo é perfeito, acabo de lembrar que a pia está cheia de louça, talheres, copos e espetos. Minha saudade da minha amada aumentou.

14-Por mais inacreditável que pareça (e é realmente inacreditável), depois da fraca produção literária da segunda-feira decidi que teria que mudar minha rotina para que pudesse chegar ao menos perto do objetivo deste Mar de Letras. Então, acordei às sete e meia na terça e, na quarta, quinta e hoje, às sete. Eu disse que era inacraditável. Eu próprio não acredito. E amanhã, sábado, pretendo acordar às sete de novo. Acredito menos ainda.

15-Pois acordei de novo às sete! Foi demais! Nem São Pedro aguentou. Choveu uma barbaridade.

16-Mas chuva só é castigo para quem fica. Como eu ia embora da praia, logo saiu um sol de rachar.

17-Nada que abalasse meu bom humor ou diminuísse essa minha espécie de felicidade existencial. Ah, que bem me faz um Mar de Letras!

 

Devassa de mentirinha

O Conar (Conselho nacional de Autoregulamentação Publicitária) proibiu a veiculação de comercial da cerveja Devassa, nova marca da cervejaria Schincariol, estrelado pela polêmica Paris Hilton. O argumento é de que a campanha comercial teria “apelo sensual excessivo” e seria “desrespeitosa à condição feminina e de natureza sexista”.

Não gosto da Paris Hilton e muito menos da Schincariol. Mas, como ser humano normal, fiquei automaticamente curioso para saber que excessos de libertinagem essa escandalosa propaganda havia cometido que justificasse a aplicação de algo tão deplorável e fora de moda quanto a censura.

Felizmente, a internet veio nos libertar do jugo autoritário dos donos da verdade e da virtude. Bastou digitar algumas palavras e dar um clique e encontrei a escorraçada propaganda aqui. Me ajeitei na cadeira e me preparei para uma experiência proibida, tórrida, talvez, quem sabe, até devassa.

Que decepção! O comercial mostra a Paris Hilton completamente vestida, num quarto de hotel envidraçado, esfregando uma lata de cerveja pelo corpo com a sensualidade de um chipanzé amestrado, enquanto um bando de admiradores pouco convincentes fica apreciando a cena de longe. Perto do que se vê na televisão brasileira, bem poderia ser o comercial de uma paróquia convocando seus fiéis para um comportamento mais recatado.

Só há duas explicações. Ou o pessoal da Ambev, usando o poder absurdo que possui, resolveu dar uma rasteira na concorrente, ou o pessoal da Schin se deu conta de que uma proibição do Conar e toda a polêmica gerada pela medida quixotesca daria um recall maior do que a veiculação normal deste comercial fraquinho.

Por via das dúvidas, vou continuar bebendo Bohemia.

 

Estamos avisados

Sábado, voltamos da Praia da Barra, em Garopaba, após uma semana e meia mergulhados numa deliciosa imitação do paraíso.

Domingo, fomos ao enterro do pai de um grande amigo nosso, que morreu de forma inesperada.

Registro esse contraste não para provocar filosofadas de botequim sobre a finitude da vida ou a fragilidade de nossa condição humana. É para lembrar de não ficarmos reclamando por bobagens nem adiando projetos por preguiça ou covardia.

Sei que não funciona. Mas estamos avisados.

 

Ah, férias

Amanhã, saio para umas merecidas férias. Serão dez dias na Praia da Barra, ao lado da Ferrugem, em Garopaba. Meu plano é não ter plano nenhum.

Antes que os maldosos (já os imagino de olhos arregalados, escandalizados) digam “DE NOVO?!”, relembro que o cruzeiro por Natal, Recife e Fernando de Noronha, com umas visitinhas à Praia da Boa Viagem e Porto de Galinhas, foi no ano passado (ok, ok, dezembro. Mas do ano passado). E o Mar de Letras não foi férias, mas um intenso trabalho intelectual de análise e reflexão sobre as virtudes do ócio.

Além disso, andar de navio e pensar cansa uma barbaridade. Vocês nem imaginam!

Nos vemos na volta. E comportem-se. Inveja faz mal para a saúde…

 

Caras não…

Recebi várias reclamações sobre meus últimos posts dizendo que eles tinham texto demais e figurinhas de menos. É verdade.

Alguma coisa que preste, ao menos de vez em quando, eu tenho que fazer…

 

Mar de Letras 01_2010 – III e chega

O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo O último caso da colecionadora de livros? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos meses e estou um pouco enfarado de velhos doentes (sim, sim, prometo que depois falo de Philip Roth e seus últimos temas recorrentes).

Mas voltando às minhas leituras (já disse que falo de Philip Roth outra hora), tenho um plano que arquitetei no ano retrasado: ler no mínimo um livro de cada um dos últimos vencedores dos Prêmios Nobel de Literatura. Encarei Kenzaburo Oe e seu excelente Uma questão pessoal e Günter Grass e o estranho Gato e rato, comprei mais uns dois ou três e acabei me desviando para meu Trabalho de Conclusão de Curso da PUC. Agora, ando um pouco relutante em encarar essa literatura escolhida pela academia menos por seus méritos do que por seus aspectos políticos e sociais. Tomei um certo fartão de ler, nas cadeiras de literatura da PUC, um calhamaço de textos sobre pretensas minorias e oprimidos sociais: foram histórias de homossexuais, lésbicas, judeus, africanos, muçulmanos, alemães segregados nos tempos da guerra, gaúchos expulsos de suas pequenas propriedades pelo avanço dos latifúndios, vítimas de preconceitos e desajustados sociais de toda espécie. Há mérito em dar espaço para novas vozes, escapando do cerco opressivo dos WASP, e acabei lendo algumas boas histórias e textos de ótima qualidade. Mas quando o critério de escolha não é o mérito literário e sim algum tipo de denúncia social, acaba desabando muita porcaria nesse caldeirão bem intencionado. A verdade é que, se meu interesse fosse histórico ou sociológico, eu não teria escolhido a faculdade de Letras. É imprescindível que, além de uma boa história, um livro tenha também qualidades literárias.

Há uma outra opção que me atrai pois significa retornar ao atraente gênero dos romances policiais. Em um dos programas de TV do Anthony Bourdain, ele entrevistou um conhecido autor de romances policiais da Escócia, Ian Rankin. Fiquei interessado e acabei comprando o livro Questão de sangue, que está lá na estante me olhando com aquela cara de “e aí, vai encarar?”. Quem sabe, quem sabe…

Também tenho algumas pendências, como ler novamente O Nome da Rosa, de Umberto Eco, que já comecei várias vezes e nunca consegui chegar ao fim. É um livro tão denso e cheio de referências extra-textuais (apesar de ser, no fundo, um romance policial) que acabo me sentindo sufocado por não compreender todas suas implicações.

Mas há outra linha de leitura que preciso seguir. Meu novo projeto literário, que por enquanto estou chamando apenas de “Humano…”, é uma espécie de continuação de Deus está morto? Se no livro anterior traço uma espécie de painel de como uma sociedade pode passar da civilização para a barbárie, nesse próximo pretendo discutir exatamente o caminho inverso. Para isso, quero reler alguns livros de história e de filosofia, principalmente sobre o período em que a humanidade emergiu das trevas da Idade Média e brilhou no renascimento e no iluminismo.

Esse emaranhado de opções cuspidas e escarradas acima acaba me lembrando a piada do sujeito que chegou no balcão do bar e pediu uma coca-cola. O atendente perguntou: “Regular ou diet?”. Ele pensou um pouco e respondeu: “Regular”. O atendente perguntou novamente: “Cherry ou normal?”. O sujeito pensou um tempo maior e disse: “Normal”. O atendente perguntou outra vez: “Com cafeína ou sem?”. O cara perdeu a paciência e falou: “Pensando bem, me vê uma Pepsi”.

Não, não vou ler a Caras.

…x…

Foi, no mínimo, uma sacanagem. Um pouco incomodado com meus remorsos, resolvi acordar mais cedo na quinta-feira. Não muito mais cedo, confesso, mas ainda assim mais cedo. Tomei meus mates e, continuando com a campanha anti-remorsos, decidi sair para minha caminhada. O céu estava claro e um sol já alto fez com que me lembrasse das recomendações da Lika. Meio contra a vontade, me lambuzei de protetor solar, coloquei um chapéu, óculos escuros e parti para a beira do mar, em direção a Araçá.

Tudo ia bem até que resolvi dar uma olhada por cima do ombro. Às minhas costas, um céu cinza-chumbo ameaçador se estendia até a Patagônia. A minha frente, um céu azul e um sol de verão. Atrás, uma amostra-grátis do Apocalipse.

Claro que voltei para casa debaixo de um aguaceiro de afogar jundiá. A chuva empapava minha camisa, embaçava meus óculos, arriava as abas do meu chapéu. E fazia eu me sentir completamente ridículo com aquele monte de protetor solar me lambuzando.

Mas, lembrando a hora em que eu andava acordando e o relaxameno com minhas caminhadas, fiquei contente por não ter caído um raio na minha cabeça.

…x…

Assisti ao filme A Onda, que estava em evidência nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa. É uma produção alemã que traz para discussão, mais uma vez, o sentimento atual dos alemães em relação ao episódio do nazismo. O enredo é interessante: um professor pouco tradicional planeja trabalhar, em uma classe especial, com o tema político anarquia, com o qual se identifica. No entanto, devido a uma manobra de um professor mais antigo, ele acaba incumbido de trabalhar com um tema totalmente oposto, a autocracia, que é um sistema ditatorial no qual um determinado grupo assume o governo e passa a exercer não apenas o poder, mas a representar a própria lei. Um pouco desconfortável, esse professor sente dificuldade em desenvolver o tema com seus alunos, principalmente quando surge em sala de aula a discussão sobre o nazismo como um exemplo de autocracia do passado. Como vários alunos defendem a tese de que não têm culpa pelos erros de seus antepassados e que não haveria mais espaço para um regime fascista na Alemanha, o professor sugere uma experiência prática. Propõe a criação de uma autocracia no próprio grupo, através da disciplina, organização e igualdade. Em pouco tempo, através da liderança rígida do professor que define um pensamento único e proíbe discordâncias, do sentimento de unidade que surge, da anulação das individualidades e da criação de símbolos (como o nome do grupo, A Onda, um uniforme e um logotipo), cria-se um forte sentimento de grupo. Esse sentimento dá aos membros da Onda a sensação de que são melhores do que os outros e eles passam a excluir os que não pertencem ao grupo. Inevitavelmente, esse comportamento logo resulta em episódios de intolerância, preconceito e violência. E, quando o professor se dá conta, o movimento fugiu ao seu controle.

É uma interessante visão da natureza humana e do comportamento das massas, quando manipuladas. É fácil (e assustador) perceber que a maioria nem sempre tem razão. Porém, é igualmente uma maneira de reduzir a responsabilidade do povo alemão pelos resultados do nazismo, evidenciando o enorme poder que uma liderança carismática pode exercer e a irracionalidade que permeia os comportamentos grupais.

Mas A Onda, se por um lado descreve o comportamento sectário e violento que, aos poucos, vai tomando conta do grupo, não deixa de mostrar que há escolha e que, no fim, é impossível fugir da responsabilidade individual. No grupo, há duas pessoas de comportamento exatamente oposto. Um garoto que transforma o movimento do grupo na sua razão de vida, e uma estudante que, desde o princípio, percebe que há algo de errado no rumo que os acontecimentos vão tomando e acaba lutando contra o movimento.

Tecnicamente, o filme não é dos melhores, principalmente para quem está acostumado ao padrão hollywoodiano. Mas a atuação do professor como líder do movimento é convincente e a riqueza do tema acaba prendendo a atenção até o desfecho presumivelmente trágico.

Recomendo.

…x…

Como publiquei um post exaltando os amigos que estiveram presentes na minha formatura, não posso deixar de comentar que dois queridos companheiros que não estiveram lá me ligaram durante a semana. Alberto e João, obrigado pelas felicitações e pelo apoio sincero. Estão, obviamente, perdoados.

…x…

Entre outros aspectos, esse primeiro Mar de Letras do ano estava se destacando pela pobreza culinária. Como disse em outras ocasiões, sinto verdadeiro prazer em pensar em combinações de ingredientes e temperos e, mais ainda, de colocar tudo isso em prática na cozinha. Mas, até agora, tudo que fui capaz de fazer foi um churrasco de carne velha, uma macarronada com restos de frango, uma torrada com tomate, outro churrasco e um picadinho de queijo e salamito.

Então resolvi, na quinta-feira, tentar um prato que há tempos vinha planejando. Não sei quando ouvi falar nele pela primeira vez, mas assisti no mês passado a um programa gastronômico do Olivier Anquier em que ele visitou um famoso restaurante flutuante em Angra dos Reis e o proprietário apresentou uma de suas especialidades: o ceviche. Dizem que é uma especiaria originária dos Incas e um prato muito comum no Peru e no Equador. Outros dizem que sua origem é árabe, tendo chegado na Europa e na Espanha e, daí, alcançado as colônias na América do Sul.

Acreditando que a verdadeira origem do universo é, na verdade, esse blog, vamos ao que interessa. O ceviche é, basicamente, pedaços de peixe (de preferência de carne firme) que são mergulhados em suco de limão por um tempo que varia conforme o tipo de peixe. A carne é cozida apenas pela acidez do limão. Depois, os pedaços de peixe são misturados com cebola e tomate picados. Também podem ser acrescentados pimentão (verde e vermelho) picados e azeitonas fatiadas. Pelas características do prato, acredito que algumas alcaparras combinariam bem e cogumelos fariam um belo contraponto em termos de textura.

Eu, particularmente, sou fã de uma citação atribuída a Woody Allen quando indagado sobre comidas exóticas, principalmente aquelas especiarias asiáticas que costumam rastejar no prato: “Eu gosto da minha comida morta. Bem morta”. Eu ampliaria essa citação para dizer que gosto da minha comida cozida. Bem cozida. Não tenho nenhuma atração por carnes cruas (exceto, talvez, um carpaccio regado com um bom azeite extra-virgem e guarnecido de alcaparras). Portanto, esse peixe cozido apenas pelo suco de limão não gozava da minha confiança. Para evitar passar fome caso minhas suspeitas se confirmassem, resolvi fazer metade do peixe levemente frito e depois rapidamente refogado no vinho branco.

Assim, montei os dois pratos, ambos misturados com cebola, tomate, pimentões verde e vermelho e azeitonas verdes recheadas com pimentão fatiadas. No prato com o peixe cozido misturei um pouco de suco de limão. Ficaram dois pratos de sabor completamente diferentes e nenhum deles muito bom.

O ceviche, apesar de não ter ficado com gosto de peixe cru, ficou muito forte, com o sabor excessivamente carregado pelo limão. Talvez se, depois do tempo marinando, o peixe fosse lavado em água ou em vinho branco, ficasse com um gosto menos ácido. Já o peixe cozido, ao contrário, ficou com gosto de nada. Apenas a cebola e as azeitonas deram um pouco de sabor ao conjunto. Mas há a forte possibilidade de que essa minha impressão tenha sido causada pelo contraste com o sabor forte do peixe marinado em limão.

No final, fiquei com a impressão de que uma mistura, na proporção de duas partes de peixe cozido com uma parte de ceviche, resultaria num prato de personalidade bem marcante.

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Uma pergunta que Tony Bourdain costuma fazer quando entrevista chefs de cousine: “Imagine você no corredor da morte, com direito a uma última refeição. Que prato você pediria?”.

Acho isso uma grande sacanagem. Não estar no corredor da morte já que é provável que a cota de pecados que acumulei seja suficiente para me garantir uma vaga nesse lugar famoso. Falo de escolher apenas UM prato. Quem poderia resumir seus desejos mais viscerais a apenas uma opção?

Mas pense, se você estivesse nessa situação, o que pediria. É provável que a resposta a esta pergunta revele mais de você do que todas as consultas ao analista que você já freqüentou na vida. E a revelação, sinto dizer, provavelmente o surpreenderá. Negativamente.

Apenas uma pessoa no mundo é capaz de adivinhar qual o prato que você escolheria, o que equivale a dizer que apenas uma pessoa no mundo, e não é você, o conhece de verdade. É aquela que lava suas cuecas.

Não me pergunte qual a relação que existe entre especiarias gastronômicas e lavagem de cuecas. Não faço a mínima idéia. Mas pode acreditar que é verdade.

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Ok, ok. Se eu estivesse no corredor da morte e tivesse direito a uma última refeição, que prato eu pediria?

Minha tese está correta. Eu gostaria de achar que pediria um filé de salmão grelhado guarnecido por aspargos, champignons e legumes cozidos no vapor, acompanhado de um Chardonay ou de um Chablis de boa cepa. Ou, quem sabe, um boeuf a bourgnion com um vigoroso Cabernet Sauvignon. Mas esse não sou eu, sou apenas quem eu acho que gostaria de ser.

Na verdade, eu pediria um churrasco de costela mal-passado, com aipim cozido e um engradado de cerveja bem gelada.

Eu avisei…

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Esse Mar de Letras, o primeiro de 2010, não era para fazer um balanço do ano passado nem para definir objetivos e metas para esse ano. Não era para ler coisas que eu deveria ter lido e não consegui, nem para escrever coisas pendentes ou inacabadas. Esse Mar de Letras era para vadiar. Para relaxar. Para não fazer nada que representasse uma obrigação auto-imposta ou uma responsabilidade herdada.

Em novembro, completei cinqüenta e um anos. Um dia antes, minha filha fez dezoito e alcançou a maioridade. No domingo passado, me formei na Faculdade de Letras da PUC, minha segunda faculdade. Esses acontecimentos representam, para mim, uma espécie de marco, o encerramento de uma etapa de vida.

Desde os catorze anos, quando meu pai me levou para a empresa e disse que era hora de começar  a trabalhar para dar valor ao dinheiro, que tenho vivido soterrado por objetivos, metas, planos e projetos. Sempre fui assim. O desempenho escolar, a poupança rígida para as primeiras viagens, o vestibular na UFRGS, a casa na praia, a primeira motocicleta, os projetos de engenharia na empresa, as expectativas do casamento, planos e mais planos ambiciosos de crescimento nos negócios, a educação da filha. E então a difícil convivência com os fracassos, o inevitável sentimento de culpa, uma cobrança opressiva e permanente. Ao decidir mudar tudo e recomeçar, mais planos, projetos, objetivos e metas. E cobranças, muitas cobranças.

A maldição é que o carrasco mais cruel que maneja o chicote das cobranças não é um patrão obsessivo e autoritário, um pai controlador, nem mesmo uma sociedade manipuladora ou um círculo de relações com um opressivo código de status. O grande criador, manipulador e controlador desse sistema de exigências sou eu próprio.

Não que isso seja necessariamente ruim. É bem provável que seja uma vida melhor do que ser inconseqüente, irresponsável e vagabundo. Mas tenho a sensação de que, ao fim e ao cabo, andei exagerando. Eu devia pegar um pouco mais leve comigo mesmo.

Pois essa é a idéia não só desse Mar de Letras, mas de todo o ano de 2010. Uma espécie de Ano Sabático, de relaxamento e reflexão, de colocar em prática alguns dos meus desejos mais profundos que estão encarceirados exatamente porque fogem do padrão, do normal, do seguro.

Isso pode soar meio absurdo para um sujeito que, aos quarenta anos, decidiu mudar radicalmente de profissão, fez uma nova faculdade, escreveu vários livros, deu dezenas de palestras para estudantes por todo o interior do Rio Grande do Sul, cruzou a Cordilheira dos Andes de moto, embarcou em vários cruzeiros marítimos, fez incontáveis viagens e se divertiu com amigos do peito. E que conseguiu, ao menos algumas vezes, por em prática esse tal de Mar de Letras, onde jogou para um lado toda a rotina, as obrigações e as responsabilidades para se dedicar à contemplação de uma janela maravilhosa de frente para o mar, lendo, escrevendo e se dando ao direito de fazer apenas o que der vontade. Bem, não apenas soa como absurdo: é um absurdo mesmo.

A verdade é que ter feito tudo o que fiz sem, no entanto, ter rompido radicalmente com o passado nem ter jogado todas as cartas numa aventura incerta pode muito bem ser visto mais como uma virtude do que como um defeito. E essa minha aparente revolta contra as cobranças nada mais é do que a repetição da mesma maldição. Afinal, aqui estou me cobrando novamente por não ter feito as coisas de forma diferente.

Acho que estou precisando de umas boas palmadas na bunda…

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Mar de Letras 01_2010 – II

Diário de bombordo

Por falar em Bastardos Inglórios, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um mínimo de cem escalpos de alemães. É ao menos uma abordagem diferente daquela que o cinema nos acostumou a ver, com milhares de judeus marchando submissos para as câmaras de gás. No desenrolar da ação, duas outras tramas paralelas se entrelaçam numa conspiração para eliminar o terceiro Reich.

Mas o filme é Tarantino demais. Não são as referências cinematográficas extra-filme, nem o clima indisfarçável de western e o constante ar de paródia e de deboche que acaba me incomodando. Essa fórmula, que zomba do conceito de verossimilhança, precisa de mais humor ou mais cinismo para funcionar. Em Bastardos Inglórios faltaram ambos.

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Quarta-feira acordei tarde de novo. Não tinha mais a pedra no estômago, mas continuei com remorso, agora também por perder novamente outro pedaço da manhã. Ao menos o tempo tem me ajudado. Chovia quando levantei e, exceto por alguns breves minutos ao longo do dia, o céu esteve sempre cinzento. Na verdade, esteve assim na segunda e na terça-feira. Cevei meu mate e, pensando sobre os planos para 2010, li alguns relatos das poucas vezes em que consegui executar meu projeto Mar de Letras no ano passado. Mas já falei disso e falei com gosto.

Evitei o mesmo erro de terça e comi uma fatia de cuca integral às onze, três pedaços de milho verde à uma e um sanduíche aquecido na torradeira às duas. Isso permitiu que eu voltasse a pensar com carinho na janta e isso me levou, inevitavelmente, a um belo pedaço de costela assada. Fora essa fidelidade gauchesca ao churrasco, devo confessar que esse Mar de Letras está terrivelmente pobre em termos gastronômicos.

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Terminei de ler O último caso da colecionadora de livros, de John Dunning. Foi uma enorme decepção. John Dunning é o autor de um dos melhores livros policiais que já li até hoje. A empatia com seu detetive Cliff Janeway, que conheci em Impressões e Provas, foi imediata. Não apenas o texto era bem construído e o ritmo rápido e contagiante. A saga pessoal de Janeway me cativou. Ele é um policial durão que, nas horas vagas, coleciona livros raros. No meio da trama, ao enfrentar um criminoso abjeto que constantemente se livra da lei graças à sua fortuna pessoal, a advogados imorais e a um sistema frouxo que beneficia os criminosos, ele passa dos limites e é obrigado a abandonar seu emprego. Então, corajosa (ou temerariamente), ele se atira num sonho maluco de virar livreiro. Falando assim, pode soar meio inverossímil. Aliás, policial durão que coleciona livros raros parace uma baita viadagem. Mas a narrativa é bem construída e Janeway transita bem nesse duplo papel, com um certo ar de menino perdido que não sabe o que quer da vida.

Já nesse O último caso da colecionadora de livros tudo é ruim. A trama é mal arquitetada e tudo soa meio falso. A investigação de Janeway é arrastada, claudicante e sem uma lógica que o leitor possa acompanhar. Mas o pior é que a narrativa se arrasta por quase quatrocentas páginas com um desenrolar absurdo. O grande detetive Janeway, dono de uma livraria em Denver, passa quase todo o livro trabalhando de ajudante em hipódromos, carregando feno, lavando e esfregando cavalos e limpando bosta das baias. Nos intervalos ele interroga pessoas de forma aleatória e com resultados pífios.

Acho que John Dunning perdeu um leitor.

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Foi um amigo que me levou a esse lugar, há algum tempo, numa ruazinha estreita e calçada de pedras de Edimburgo. (…) Um lugar perfeito para tomar uma cerveja, acreditem. Um pub de esquina, despretensioso, com uma pequena placa e janelas esfumaçadas. Da rua não se pode ver nada lá dentro. (…) É a calma perfeita, e o primeiro gole de cerveja inspira sentimentos de serenidade quase transcendental. O refúgio ideal, longe do mundo moderno, longe de todos os seus problemas. Imediatamente depois de dependurar meu casaco num velho cabide, virei para meu amigo e comuniquei: “Vou ficar morando aqui”.

Essa pequena passagem do livro Em busca do prato perfeito, de Anthony Bourdain (que peguei na estante após abandonar John Dunning), me fez lembrar com imensa saudade dos pubs de Londres. A calma, a paz, a serenidade, um ar meio medieval em meio às mesas e balcões de madeiras pesadas e escuras, uma sensação de isolamento mesmo em meio a outras pessoas, um estranho sentimento de se estar em um encontro perfeito com nós mesmos, prontos para confidências, abertos a pensamentos impuros, dispostos a uma honestidade brutal ou a um simples e reconfortante silêncio respeitoso.

Ainda há lugares para se fugir desse burburinho de gente barulhenta que se acotovela feito um enxame de formigas na beira da praia de Capão ou desses malditos carros de som que passam anunciando as ofertas do Shoping de Fábricas ou as promessas estridentes dos Aqualoucos.

 

Mar de Letras 01_2010 – I

20 a 25/01/2010

Diário de bombordo

Enquanto pensava em começar a escrever o diário desse Mar de Letras, já meio atrasado (hoje é quarta-feira e estou aqui desde o final da segunda), resolvi reler alguns dos últimos relatos do projeto. É fácil alinhavar motivos e justificativas que me levaram a criar esse projeto, mas é difícil explicar o quanto ele significa para mim e o prazer que ele me dá. É um conjunto de atividades que valorizo demais (ler, escrever, exercitar o intelecto), esta janela fantástica de frente para o mar e a sensação de liberdade, de dedicação apenas ao que é importante (mesmo que isso signifique, às vezes, não fazer nada ou trabalhar pesado). Mas lá estava, nesses relatos às vezes emocionados, às vezes meio decepcionados, um bom retrato do que vai pelo meu coração e mente. Há racionalizações irretocáveis, explosões de alegria, angústia e decepção. E também alguma poesia. Indiscutível, talvez, apenas a certeza de que a freqüência em que consegui colocar o Projeto Mar de Letras em prática é muito menor do que eu planejara. Em 2009 foram apenas duas edições, em julho e agosto.

Mas, como em todo início de ano, aqui estou novamente prometendo que, desta vez, será diferente. Há algumas circunstâncias que conspiram a favor: o término da Faculdade de Letras da PUC cuja formatura foi no domingo passado, que me roubava tempo e energia, apesar do estimulante exercício intelectual; o fato de minha filha ter feito dezoito anos, ter entrado para a faculdade e começado a trabalhar, o que, ao menos em tese, diminui o peso da minha responsabilidade com seu sustento e me permite levar mais a sério meus sonhos adiados; um certo estágio da carreira de escritor que me permite projetar resultados um pouco mais concretos; e, mais importante, o desejo de completar esse processo de transição iniciado há mais de dez anos.

Sei que é meio auto-flagelante lembrar que já fiz promessas parecidas antes, cobertas de argumentos bem racionalizados, transformadas em planos e metas infalíveis que, miseravelmente, falharam.   e que acabaram se mostrando um grande engano. Mas foda-se. Lá vou eu novamente!

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Cheguei na segunda já no fim da tarde. Era para ter saído de Porto Alegre de manhã, mas consegui ficar arrumando mesas, guardando papéis, revisando pendências, respondendo emails, limpando piscina, enrolando e enrolando até às quatro. Resultado que cheguei em Capão anoitecendo, num final de tarde cinzento e com um nordestão furioso varrendo a praia e levantando nuvens de areia. Com isso, minha caminhada sagrada foi suspensa e parti direto para a segunda parte do meu plano, sem dúvida a mais importante: abrir uma cerveja gelada, colocar carvão na churrasqueira e tirar da geladeira um pedaço de costela que tinha ficado lá no final de semana. Sem remorsos!

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Na terça, fiz uma coisa nada aconselhável quando se trata de alimentação. Como fui deitar tarde na segunda assistindo ao filme Bastardos Inglórios (do qual falarei logo adiante), acabei acordando já quase dez da manhã. Fiz um mate e fui revisar meu diário de 2009 para fazer um resumo, ressaltar as realizações mais importantes e esboçar algumas metas para 2010. Acabei tomando café (meu sagrado e inútil[1] prato de cereais) depois do meio dia e almoçando às quatro da tarde. Tudo errado, mas com potencial para piorar. Como almocei muito tarde e estava com uma fome de tiranossauro, devorei uma travessa pantagruélica de espagueti com peito de frango desfiado ao molho de tomate. Resultado que passei o resto da tarde e boa parte da noite com uma pedra no estômago. Era mais de meia noite quando consegui beliscar um picadinho de queijo e salamito de janta. E, claro, fui dormir tarde de novo. Desta vez, com remorsos.


[1] Com esse comentário inauguro a prática de Notas de Rodapé para relatos despretensiosos. Sem dúvida, uma baita pretensão. Quanto ao comentário em si, ano passado fiz uns exames que acusaram um alto nível de colesterol. O médico recomendou cuidados com a alimentação e, a partir de então, comecei a comer religiosamente, toda manhã, um prato de cereais com granola, aveia e flocos de milho. Semana passada repeti os exames e meu colesterol havia aumentado!