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	<title>O Jardim do Diabo &#187; Anthony Bourdain</title>
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	<description>A mente desocupada é o Jardim do Diabo</description>
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		<title>Dica literária&#8230; ou culinária</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 20:45:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Anthony Bourdain]]></category>
		<category><![CDATA[culinária]]></category>
		<category><![CDATA[psiquiatra]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou apaixonado por livros. Eles são ótimos para pensarmos nossa  própria história e descobrirmos soluções. Ou arranjar novos problemas.  Mas eles também são excelentes quando não queremos pensar no nosso  mundinho ou nas nossas mazelas mesquinhas que costumamos aumentar  ridiculamente. São ótimos para fugir dos problemas. E não dão ressaca.
Também tenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sou apaixonado por livros. Eles são ótimos para pensarmos nossa  própria história e descobrirmos soluções. Ou arranjar novos problemas.  Mas eles também são excelentes quando não queremos pensar no nosso  mundinho ou nas nossas mazelas mesquinhas que costumamos aumentar  ridiculamente. São ótimos para fugir dos problemas. E não dão ressaca.</p>
<p>Também tenho uma queda pela culinária. Brincar de <em>chef </em>é bem  mais barato, divertido e saboroso do que frequentar o psiquiatra. E tem  praticamente o mesmo efeito. E também é a melhor maneira de escapar de  uma das tarefas mais horrorosas do mundo: lavar a louça. <em>Eu cozinho</em> traz implícito, indiscutivelmente, <em>mas não lavo a louça</em>.</p>
<p>Por isso, quando descobri <a href="http://www.mood.com.br/literatura/30.asp" target="_blank"><em>Cozinha  Confidencial</em></a>, de Anthony Bourdain, do qual já falei aqui, tive  um daqueles longos momentos de felicidade pura, inebriante! Sempre que  posso, volto a visitar suas páginas. Enquanto os outros lavam a louça.</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; III e chega</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 03:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grandes eventos]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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		<category><![CDATA[Anthony Bourdain]]></category>
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		<description><![CDATA[O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo O último caso da colecionadora de livros? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo <em>O último caso da colecionadora de livros</em>? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos meses e estou um pouco enfarado de velhos doentes (sim, sim, prometo que depois falo de Philip Roth e seus últimos temas recorrentes).</p>
<p>Mas voltando às minhas leituras (já disse que falo de Philip Roth outra hora), tenho um plano que arquitetei no ano retrasado: ler no mínimo um livro de cada um dos últimos vencedores dos Prêmios Nobel de Literatura. Encarei Kenzaburo Oe e seu excelente <em>Uma questão pessoal</em> e Günter Grass e o estranho <em>Gato e rato</em>, comprei mais uns dois ou três e acabei me desviando para meu Trabalho de Conclusão de Curso da PUC. Agora, ando um pouco relutante em encarar essa literatura escolhida pela academia menos por seus méritos do que por seus aspectos políticos e sociais. Tomei um certo fartão de ler, nas cadeiras de literatura da PUC, um calhamaço de textos sobre pretensas minorias e oprimidos sociais: foram histórias de homossexuais, lésbicas, judeus, africanos, muçulmanos, alemães segregados nos tempos da guerra, gaúchos expulsos de suas pequenas propriedades pelo avanço dos latifúndios, vítimas de preconceitos e desajustados sociais de toda espécie. Há mérito em dar espaço para novas vozes, escapando do cerco opressivo dos WASP, e acabei lendo algumas boas histórias e textos de ótima qualidade. Mas quando o critério de escolha não é o mérito literário e sim algum tipo de denúncia social, acaba desabando muita porcaria nesse caldeirão bem intencionado. A verdade é que, se meu interesse fosse histórico ou sociológico, eu não teria escolhido a faculdade de Letras. É imprescindível que, além de uma boa história, um livro tenha também qualidades literárias.</p>
<p>Há uma outra opção que me atrai pois significa retornar ao atraente gênero dos romances policiais. Em um dos programas de TV do Anthony Bourdain, ele entrevistou um conhecido autor de romances policiais da Escócia, Ian Rankin. Fiquei interessado e acabei comprando o livro <em>Questão de sangue</em>, que está lá na estante me olhando com aquela cara de &#8220;e aí, vai encarar?&#8221;. Quem sabe, quem sabe&#8230;</p>
<p>Também tenho algumas pendências, como ler novamente <em>O Nome da Rosa</em>, de Umberto Eco, que já comecei várias vezes e nunca consegui chegar ao fim. É um livro tão denso e cheio de referências extra-textuais (apesar de ser, no fundo, um romance policial) que acabo me sentindo sufocado por não compreender todas suas implicações.</p>
<p>Mas há outra linha de leitura que preciso seguir. Meu novo projeto literário, que por enquanto estou chamando apenas de “Humano&#8230;”, é uma espécie de continuação de <em>Deus está morto?</em> Se no livro anterior traço uma espécie de painel de como uma sociedade pode passar da civilização para a barbárie, nesse próximo pretendo discutir exatamente o caminho inverso. Para isso, quero reler alguns livros de história e de filosofia, principalmente sobre o período em que a humanidade emergiu das trevas da Idade Média e brilhou no renascimento e no iluminismo.</p>
<p>Esse emaranhado de opções cuspidas e escarradas acima acaba me lembrando a piada do sujeito que chegou no balcão do bar e pediu uma coca-cola. O atendente perguntou: “Regular ou diet?”. Ele pensou um pouco e respondeu: “Regular”. O atendente perguntou novamente: “Cherry ou normal?”. O sujeito pensou um tempo maior e disse: “Normal”. O atendente perguntou outra vez: “Com cafeína ou sem?”. O cara perdeu a paciência e falou: “Pensando bem, me vê uma Pepsi”.</p>
<p>Não, não vou ler a Caras.</p>
<p>&#8230;x&#8230;<em></em></p>
<p>Foi, no mínimo, uma sacanagem. Um pouco incomodado com meus remorsos, resolvi acordar mais cedo na quinta-feira. Não muito mais cedo, confesso, mas ainda assim mais cedo. Tomei meus mates e, continuando com a campanha anti-remorsos, decidi sair para minha caminhada. O céu estava claro e um sol já alto fez com que me lembrasse das recomendações da Lika. Meio contra a vontade, me lambuzei de protetor solar, coloquei um chapéu, óculos escuros e parti para a beira do mar, em direção a Araçá.</p>
<p>Tudo ia bem até que resolvi dar uma olhada por cima do ombro. Às minhas costas, um céu cinza-chumbo ameaçador se estendia até a Patagônia. A minha frente, um céu azul e um sol de verão. Atrás, uma amostra-grátis do Apocalipse.</p>
<p>Claro que voltei para casa debaixo de um aguaceiro de afogar jundiá. A chuva empapava minha camisa, embaçava meus óculos, arriava as abas do meu chapéu. E fazia eu me sentir completamente ridículo com aquele monte de protetor solar me lambuzando.</p>
<p>Mas, lembrando a hora em que eu andava acordando e o relaxameno com minhas caminhadas, fiquei contente por não ter caído um raio na minha cabeça.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Assisti ao filme <em>A Onda</em>, que estava em evidência nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa. É uma produção alemã que traz para discussão, mais uma vez, o sentimento atual dos alemães em relação ao episódio do nazismo. O enredo é interessante: um professor pouco tradicional planeja trabalhar, em uma classe especial, com o tema político anarquia, com o qual se identifica. No entanto, devido a uma manobra de um professor mais antigo, ele acaba incumbido de trabalhar com um tema totalmente oposto, a autocracia, que é um sistema ditatorial no qual um determinado grupo assume o governo e passa a exercer não apenas o poder, mas a representar a própria lei. Um pouco desconfortável, esse professor sente dificuldade em desenvolver o tema com seus alunos, principalmente quando surge em sala de aula a discussão sobre o nazismo como um exemplo de autocracia do passado. Como vários alunos defendem a tese de que não têm culpa pelos erros de seus antepassados e que não haveria mais espaço para um regime fascista na Alemanha, o professor sugere uma experiência prática. Propõe a criação de uma autocracia no próprio grupo, através da disciplina, organização e igualdade. Em pouco tempo, através da liderança rígida do professor que define um pensamento único e proíbe discordâncias, do sentimento de unidade que surge, da anulação das individualidades e da criação de símbolos (como o nome do grupo, <em>A Onda</em>, um uniforme e um logotipo), cria-se um forte sentimento de grupo. Esse sentimento dá aos membros da <em>Onda</em> a sensação de que são melhores do que os outros e eles passam a excluir os que não pertencem ao grupo. Inevitavelmente, esse comportamento logo resulta em episódios de intolerância, preconceito e violência. E, quando o professor se dá conta, o movimento fugiu ao seu controle.</p>
<p>É uma interessante visão da natureza humana e do comportamento das massas, quando manipuladas. É fácil (e assustador) perceber que a maioria nem sempre tem razão. Porém, é igualmente uma maneira de reduzir a responsabilidade do povo alemão pelos resultados do nazismo, evidenciando o enorme poder que uma liderança carismática pode exercer e a irracionalidade que permeia os comportamentos grupais.</p>
<p>Mas <em>A Onda</em>, se por um lado descreve o comportamento sectário e violento que, aos poucos, vai tomando conta do grupo, não deixa de mostrar que há escolha e que, no fim, é impossível fugir da responsabilidade individual. No grupo, há duas pessoas de comportamento exatamente oposto. Um garoto que transforma o movimento do grupo na sua razão de vida, e uma estudante que, desde o princípio, percebe que há algo de errado no rumo que os acontecimentos vão tomando e acaba lutando contra o movimento.</p>
<p>Tecnicamente, o filme não é dos melhores, principalmente para quem está acostumado ao padrão hollywoodiano. Mas a atuação do professor como líder do movimento é convincente e a riqueza do tema acaba prendendo a atenção até o desfecho presumivelmente trágico.</p>
<p>Recomendo.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Como publiquei um post exaltando os amigos que estiveram presentes na minha formatura, não posso deixar de comentar que dois queridos companheiros que não estiveram lá me ligaram durante a semana. Alberto e João, obrigado pelas felicitações e pelo apoio sincero. Estão, obviamente, perdoados.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Entre outros aspectos, esse primeiro Mar de Letras do ano estava se destacando pela pobreza culinária. Como disse em outras ocasiões, sinto verdadeiro prazer em pensar em combinações de ingredientes e temperos e, mais ainda, de colocar tudo isso em prática na cozinha. Mas, até agora, tudo que fui capaz de fazer foi um churrasco de carne velha, uma macarronada com restos de frango, uma torrada com tomate, outro churrasco e um picadinho de queijo e salamito.</p>
<p>Então resolvi, na quinta-feira, tentar um prato que há tempos vinha planejando. Não sei quando ouvi falar nele pela primeira vez, mas assisti no mês passado a um programa gastronômico do Olivier Anquier em que ele visitou um famoso restaurante flutuante em Angra dos Reis e o proprietário apresentou uma de suas especialidades: o ceviche. Dizem que é uma especiaria originária dos Incas e um prato muito comum no Peru e no Equador. Outros dizem que sua origem é árabe, tendo chegado na Europa e na Espanha e, daí, alcançado as colônias na América do Sul.</p>
<p>Acreditando que a verdadeira origem do universo é, na verdade, esse blog, vamos ao que interessa. O ceviche é, basicamente, pedaços de peixe (de preferência de carne firme) que são mergulhados em suco de limão por um tempo que varia conforme o tipo de peixe. A carne é cozida apenas pela acidez do limão. Depois, os pedaços de peixe são misturados com cebola e tomate picados. Também podem ser acrescentados pimentão (verde e vermelho) picados e azeitonas fatiadas. Pelas características do prato, acredito que algumas alcaparras combinariam bem e cogumelos fariam um belo contraponto em termos de textura.</p>
<p>Eu, particularmente, sou fã de uma citação atribuída a Woody Allen quando indagado sobre comidas exóticas, principalmente aquelas especiarias asiáticas que costumam rastejar no prato: “Eu gosto da minha comida morta. Bem morta”. Eu ampliaria essa citação para dizer que gosto da minha comida cozida. Bem cozida. Não tenho nenhuma atração por carnes cruas (exceto, talvez, um carpaccio regado com um bom azeite extra-virgem e guarnecido de alcaparras). Portanto, esse peixe cozido apenas pelo suco de limão não gozava da minha confiança. Para evitar passar fome caso minhas suspeitas se confirmassem, resolvi fazer metade do peixe levemente frito e depois rapidamente refogado no vinho branco.</p>
<p>Assim, montei os dois pratos, ambos misturados com cebola, tomate, pimentões verde e vermelho e azeitonas verdes recheadas com pimentão fatiadas. No prato com o peixe cozido misturei um pouco de suco de limão. Ficaram dois pratos de sabor completamente diferentes e nenhum deles muito bom.</p>
<p>O ceviche, apesar de não ter ficado com gosto de peixe cru, ficou muito forte, com o sabor excessivamente carregado pelo limão. Talvez se, depois do tempo marinando, o peixe fosse lavado em água ou em vinho branco, ficasse com um gosto menos ácido. Já o peixe cozido, ao contrário, ficou com gosto de nada. Apenas a cebola e as azeitonas deram um pouco de sabor ao conjunto. Mas há a forte possibilidade de que essa minha impressão tenha sido causada pelo contraste com o sabor forte do peixe marinado em limão.</p>
<p>No final, fiquei com a impressão de que uma mistura, na proporção de duas partes de peixe cozido com uma parte de ceviche, resultaria num prato de personalidade bem marcante.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Uma pergunta que Tony Bourdain costuma fazer quando entrevista chefs de cousine: “Imagine você no corredor da morte, com direito a uma última refeição. Que prato você pediria?”.</p>
<p>Acho isso uma grande sacanagem. Não estar no corredor da morte já que é provável que a cota de pecados que acumulei seja suficiente para me garantir uma vaga nesse lugar famoso. Falo de escolher apenas UM prato. Quem poderia resumir seus desejos mais viscerais a apenas uma opção?</p>
<p>Mas pense, se você estivesse nessa situação, o que pediria. É provável que a resposta a esta pergunta revele mais de você do que todas as consultas ao analista que você já freqüentou na vida. E a revelação, sinto dizer, provavelmente o surpreenderá. Negativamente.</p>
<p>Apenas uma pessoa no mundo é capaz de adivinhar qual o prato que você escolheria, o que equivale a dizer que apenas uma pessoa no mundo, e não é você, o conhece de verdade. É aquela que lava suas cuecas.</p>
<p>Não me pergunte qual a relação que existe entre especiarias gastronômicas e lavagem de cuecas. Não faço a mínima idéia. Mas pode acreditar que é verdade.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Ok, ok. Se eu estivesse no corredor da morte e tivesse direito a uma última refeição, que prato eu pediria?</p>
<p>Minha tese está correta. Eu gostaria de achar que pediria um filé de salmão grelhado guarnecido por aspargos, champignons e legumes cozidos no vapor, acompanhado de um Chardonay ou de um Chablis de boa cepa. Ou, quem sabe, um <em>boeuf a bourgnion</em> com um vigoroso Cabernet Sauvignon. Mas esse não sou eu, sou apenas quem eu acho que gostaria de ser.</p>
<p>Na verdade, eu pediria um churrasco de costela mal-passado, com aipim cozido e um engradado de cerveja bem gelada.</p>
<p>Eu avisei&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Esse Mar de Letras, o primeiro de 2010, não era para fazer um balanço do ano passado nem para definir objetivos e metas para esse ano. Não era para ler coisas que eu deveria ter lido e não consegui, nem para escrever coisas pendentes ou inacabadas. Esse Mar de Letras era para vadiar. Para relaxar. Para não fazer nada que representasse uma obrigação auto-imposta ou uma responsabilidade herdada.</p>
<p>Em novembro, completei cinqüenta e um anos. Um dia antes, minha filha fez dezoito e alcançou a maioridade. No domingo passado, me formei na Faculdade de Letras da PUC, minha segunda faculdade. Esses acontecimentos representam, para mim, uma espécie de marco, o encerramento de uma etapa de vida.</p>
<p>Desde os catorze anos, quando meu pai me levou para a empresa e disse que era hora de começar  a trabalhar para dar valor ao dinheiro, que tenho vivido soterrado por objetivos, metas, planos e projetos. Sempre fui assim. O desempenho escolar, a poupança rígida para as primeiras viagens, o vestibular na UFRGS, a casa na praia, a primeira motocicleta, os projetos de engenharia na empresa, as expectativas do casamento, planos e mais planos ambiciosos de crescimento nos negócios, a educação da filha. E então a difícil convivência com os fracassos, o inevitável sentimento de culpa, uma cobrança opressiva e permanente. Ao decidir mudar tudo e recomeçar, mais planos, projetos, objetivos e metas. E cobranças, muitas cobranças.</p>
<p>A maldição é que o carrasco mais cruel que maneja o chicote das cobranças não é um patrão obsessivo e autoritário, um pai controlador, nem mesmo uma sociedade manipuladora ou um círculo de relações com um opressivo código de status. O grande criador, manipulador e controlador desse sistema de exigências sou eu próprio.</p>
<p>Não que isso seja necessariamente ruim. É bem provável que seja uma vida melhor do que ser inconseqüente, irresponsável e vagabundo. Mas tenho a sensação de que, ao fim e ao cabo, andei exagerando. Eu devia pegar um pouco mais leve comigo mesmo.</p>
<p>Pois essa é a idéia não só desse Mar de Letras, mas de todo o ano de 2010. Uma espécie de Ano Sabático, de relaxamento e reflexão, de colocar em prática alguns dos meus desejos mais profundos que estão encarceirados exatamente porque fogem do padrão, do normal, do seguro.</p>
<p>Isso pode soar meio absurdo para um sujeito que, aos quarenta anos, decidiu mudar radicalmente de profissão, fez uma nova faculdade, escreveu vários livros, deu dezenas de palestras para estudantes por todo o interior do Rio Grande do Sul, cruzou a Cordilheira dos Andes de moto, embarcou em vários cruzeiros marítimos, fez incontáveis viagens e se divertiu com amigos do peito. E que conseguiu, ao menos algumas vezes, por em prática esse tal de Mar de Letras, onde jogou para um lado toda a rotina, as obrigações e as responsabilidades para se dedicar à contemplação de uma janela maravilhosa de frente para o mar, lendo, escrevendo e se dando ao direito de fazer apenas o que der vontade. Bem, não apenas soa como absurdo: é um absurdo mesmo.</p>
<p>A verdade é que ter feito tudo o que fiz sem, no entanto, ter rompido radicalmente com o passado nem ter jogado todas as cartas numa aventura incerta pode muito bem ser visto mais como uma virtude do que como um defeito. E essa minha aparente revolta contra as cobranças nada mais é do que a repetição da mesma maldição. Afinal, aqui estou me cobrando novamente por não ter feito as coisas de forma diferente.</p>
<p>Acho que estou precisando de umas boas palmadas na bunda&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; II</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 00:38:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Diário de bombordo
Por falar em Bastardos Inglórios, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Diário de bombordo</strong></p>
<p>Por falar em <em>Bastardos Inglórios</em>, o filme de Quentim Tarantino tem uma trama interessante. Durante a segunda Guerra Mundial, um grupo de judeus forma uma unidade de elite cujo único objetivo é caçar e matar nazistas. E o chefe dessa unidade, interpretado por Brad Pitt, exige de cada um de seus comandados um mínimo de cem escalpos de alemães. É ao menos uma abordagem diferente daquela que o cinema nos acostumou a ver, com milhares de judeus marchando submissos para as câmaras de gás. No desenrolar da ação, duas outras tramas paralelas se entrelaçam numa conspiração para eliminar o terceiro Reich.</p>
<p>Mas o filme é Tarantino demais. Não são as referências cinematográficas extra-filme, nem o clima indisfarçável de western e o constante ar de paródia e de deboche que acaba me incomodando. Essa fórmula, que zomba do conceito de verossimilhança, precisa de mais humor ou mais cinismo para funcionar. Em <em>Bastardos Inglórios</em> faltaram ambos.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Quarta-feira acordei tarde de novo. Não tinha mais a pedra no estômago, mas continuei com remorso, agora também por perder novamente outro pedaço da manhã. Ao menos o tempo tem me ajudado. Chovia quando levantei e, exceto por alguns breves minutos ao longo do dia, o céu esteve sempre cinzento. Na verdade, esteve assim na segunda e na terça-feira. Cevei meu mate e, pensando sobre os planos para 2010, li alguns relatos das poucas vezes em que consegui executar meu projeto Mar de Letras no ano passado. Mas já falei disso e falei com gosto.</p>
<p>Evitei o mesmo erro de terça e comi uma fatia de cuca integral às onze, três pedaços de milho verde à uma e um sanduíche aquecido na torradeira às duas. Isso permitiu que eu voltasse a pensar com carinho na janta e isso me levou, inevitavelmente, a um belo pedaço de costela assada. Fora essa fidelidade gauchesca ao churrasco, devo confessar que esse Mar de Letras está terrivelmente pobre em termos gastronômicos.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Terminei de ler <em>O último caso da colecionadora de livros</em>, de John Dunning. Foi uma enorme decepção. John Dunning é o autor de um dos melhores livros policiais que já li até hoje. A empatia com seu detetive Cliff Janeway, que conheci em <em>Impressões e Provas</em>, foi imediata. Não apenas o texto era bem construído e o ritmo rápido e contagiante. A saga pessoal de Janeway me cativou. Ele é um policial durão que, nas horas vagas, coleciona livros raros. No meio da trama, ao enfrentar um criminoso abjeto que constantemente se livra da lei graças à sua fortuna pessoal, a advogados imorais e a um sistema frouxo que beneficia os criminosos, ele passa dos limites e é obrigado a abandonar seu emprego. Então, corajosa (ou temerariamente), ele se atira num sonho maluco de virar livreiro. Falando assim, pode soar meio inverossímil. Aliás, policial durão que coleciona livros raros parace uma baita viadagem. Mas a narrativa é bem construída e Janeway transita bem nesse duplo papel, com um certo ar de menino perdido que não sabe o que quer da vida.</p>
<p>Já nesse <em>O último caso da colecionadora de livros</em> tudo é ruim. A trama é mal arquitetada e tudo soa meio falso. A investigação de Janeway é arrastada, claudicante e sem uma lógica que o leitor possa acompanhar. Mas o pior é que a narrativa se arrasta por quase quatrocentas páginas com um desenrolar absurdo. O grande detetive Janeway, dono de uma livraria em Denver, passa quase todo o livro trabalhando de ajudante em hipódromos, carregando feno, lavando e esfregando cavalos e limpando bosta das baias. Nos intervalos ele interroga pessoas de forma aleatória e com resultados pífios.</p>
<p>Acho que John Dunning perdeu um leitor.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p><em>Foi um amigo que me levou a esse lugar, há algum tempo, numa ruazinha estreita e calçada de pedras de Edimburgo. (&#8230;) Um lugar perfeito para tomar uma cerveja, acreditem. Um pub de esquina, despretensioso, com uma pequena placa e janelas esfumaçadas. Da rua não se pode ver nada lá dentro. (&#8230;) É a calma perfeita, e o primeiro gole de cerveja inspira sentimentos de serenidade quase transcendental. O refúgio ideal, longe do mundo moderno, longe de todos os seus problemas. Imediatamente depois de dependurar meu casaco num velho cabide, virei para meu amigo e comuniquei: “Vou ficar morando aqui”.</em></p>
<p>Essa pequena passagem do livro <em>Em busca do prato perfeito</em>, de Anthony Bourdain (que peguei na estante após abandonar John Dunning), me fez lembrar com imensa saudade dos pubs de Londres. A calma, a paz, a serenidade, um ar meio medieval em meio às mesas e balcões de madeiras pesadas e escuras, uma sensação de isolamento mesmo em meio a outras pessoas, um estranho sentimento de se estar em um encontro perfeito com nós mesmos, prontos para confidências, abertos a pensamentos impuros, dispostos a uma honestidade brutal ou a um simples e reconfortante silêncio respeitoso.</p>
<p>Ainda há lugares para se fugir desse burburinho de gente barulhenta que se acotovela feito um enxame de formigas na beira da praia de Capão ou desses malditos carros de som que passam anunciando as ofertas do Shoping de Fábricas ou as promessas estridentes dos Aqualoucos.</p>
<p>&#8230;</p>
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