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	<title>O Jardim do Diabo &#187; Philip Roth</title>
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	<description>A mente desocupada é o Jardim do Diabo</description>
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		<title>Mar de Letras, bendito seja</title>
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		<pubDate>Sun, 02 May 2010 16:12:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<description><![CDATA[26/04 a 01/05
1-No planejamento de 2010, elegi como uma das prioridades mais prioritárias(com o perdão da redundância) o Projeto Mar de Letras. E não apenas pelo ócio reparador, pelo exercício intelectual edificante ou pelas eventuais produções literárias. O Projeto Mar de Letras é uma espécie de ponta de lança, de projeto piloto de um desejo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>26/04 a 01/05</p>
<p>1-No planejamento de 2010, elegi como uma das prioridades mais prioritárias(com o perdão da redundância) o Projeto Mar de Letras. E não apenas pelo ócio reparador, pelo exercício intelectual edificante ou pelas eventuais produções literárias. O Projeto Mar de Letras é uma espécie de ponta de lança, de projeto piloto de um desejo maior, uma nova fase após a conturbada jornada de menino-prodígio, jovem-trabalhador-exemplar, filhinho-de-papai, empresário peixe-fora-d&#8217;água e alma perdida. Metade do plano já funcionou.</p>
<p>2-Cheguei na praia, 2a feira, debaixo de chuva e, mesmo que o tempo tenha ameaçado dar uma trégua para que eu pudesse dar aquele velho pulo no centro e comprar algumas bobagens, na volta desabou um temporal que me fez chegar ao apartamento completamente encharcado. Porém, a noite, o céu limpou e fui dormir com estrelinhas espalhadas pelo firmamento. Muito meigo por parte de São Pedro, depois daquela bomba d`àgua que ele me jogou na cabeça.</p>
<p>3-Semelhante ao Mar de Letras de Março, esse também está completamente focado no novo livro que estou escrevendo sob encomenda. É uma pena porque, de todos os objetivos inerentes ao espírito lúdico e intelectualmente produtivo que imaginei para o Mar de Letras, só resta o trabalho árduo de escrever e escrever. Pior que é escrever a história dos outros, e não a de todos e minha também, que é o nome que se dá para ficção. Mas ainda assim é bem melhor do que digitar códigos de barra na internet ou decidir quais os fornecedores que serão brindados com o grampo por falta de dinheiro.</p>
<p>4-Esqueci de dizer que, além da obrigatoriedade de trabalhar quase que exclusivamente no livro da Fritz&amp;Frida, esse Mar de Letras começou meio capenga. Como não consegui adiantar todos os compromissos de uma semana, tive que passar na empresa na 2a feira de manhã. Trabalhei até o meio-dia e, na saída, passei no Makro Atacado imaginando algumas possibilidades gastronômicas para a semana especial que se prefigurava. Até um pacote com mexilhões, anéis de lula, pedaços de polvo e camarão eu comprei, imaginando algo parecido com a soberba Casuela de Calamares que fiz certo dia para a Lika. Espero que não fique só na imaginação. Até um Merlot de boa cepa veio junto como incentivo.</p>
<p>5-Segunda a noite comi um pedaço de pizza que trouxe de Porto Alegre, levemente incrementada com mais uns pedaços de queijo e uma lata de sardinha ao molho de tomate. Gastronomicamente, um início pobre, confesso. Pretendo, para os próximos Mares de Letra, elegar a gastronomia como parte integrante e prioritária do projeto.</p>
<p>6-Para aumentar minha produtividade na produção dos textos do novo, decidi que o cardápio do meio-dia se resumiria a um sanduiche. O motivo não é tanto a perda de tempo na confecção de um cardápio mais elaborado, mas os efeitos colaterais da degustação de uma refeição mais substanciosa acompanhada, invariavelmente, de cerveja ou vinho. A produção intelectual do início da tarde fica algo prejudicada. No entanto, esse plano falhou miseravelmente na terça-feira. Acontece que, no retorno da minha caminhada da manhã, já perto do meio-dia, passei em frente a um dos quiosques da beira-mar de Capão e um aroma irrestível penetrou em minhas narinas e me arrastou até o lugar de onde ele vinha: uma churrasqueira. Isso mudou imediatamente meus planos para o jantar, que era um espagueti a bolonhesa com iscas de peito de frango (tudo ingredientes que já estavam na geladeira). Fiz o espagueti no almoço e tirei do congelador um belo pedaço de maminha que irá para a churrasqueira à noite.</p>
<p>7-Fazia tempo que não faltava luz em Capão da Canoa. Ao menos não por mais de duas horas, como aconteceu na terça-feira. Interessante que sempre que falta luz relembro que esse é, sem dúvida nenhuma, uma das invenções mais imprescindíveis do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, sua ausência revela uma porção de coisas que estavam ocultas (ou, no caso, melhor seria dizer ofuscadas). Por exemplo, terça era noite de lua cheia. E é sempre um espetáculo fantástico ver a lua surgindo no horizonte, atrás do mar, linda e brilhante. Mas, com todas as luzes de Capão apagadas, ela brilhou ainda mais imponente. Avassalador. Daquelas coisas de assistir de joelhos, agradecendo a verdadeira dádiva.</p>
<p>8-Também descobri, com a falta de luz, que não tenho em casa nem lanterna, nem uma mísera vela. Ainda bem que uma pequena luminária que uso no meu notebook e que funciona conectada à porta USB, quebrou o galho. E à lua cheia, claro, que iluminou parte da minha sala como se fosse dia.</p>
<p>9-Outra coisa da qual estava afastado (e que, de vez em quando, me traz muitas saudades) era meu violão. Desta vez não esqueci de trazer o afinador eletrônico (que substitui, como uma muleta, minha incapacidade deprimente de distinguir tons) e meu livrinho de músicas. Os dedos vacilaram nas pestanas e começaram a doer logo após os primeiros acordes. Mas o coração pulou faceirinho uma barbaridade.</p>
<p>10-Vi, pela janela, um velhinho atravessar a rua com seu passo claudicante. Usava um casaco de crochê mostarda, um gorro preto de lã, sandálias e meias escuras. Arrastava as pernas com dificuldade, olhando para os lados e para o chão à sua frente com desconfiança. Do outro lado da rua, na calçada, uma menina loirinha de uns treze anos, vestindo uma bermuda de malha azul brilhante e uma camisetinha branca sem mangas, avançava rápida sobre seu par de patins. Nunca antes esse contraste me pareceu tão aterrorizante. Será que é porque nunca antes eu tive cinquenta e um anos?????????????</p>
<p>11-Depois das chuvas, os dias têm sido lindíssimos. Claros, ensolarados, com uma temperatura de país civilizado. Não bastasse isso, o mar está liso e azulado, com as longas linhas de ondas quebrando muito brancas. As caminhadas da manhã são revigorantes. Terça, havia um vento sudoeste frio e irritante, que tive que driblar voltando da caminhada pela avenida Paraguaçú. Mas ver o movimento, as vitrines coloridas e a agitação de tamanho exato do centro de Capão da Canoa também tem sua beleza. Acho que estou ficando velho e sentimental&#8230;</p>
<p>12-Na nova versão cinematográfica de Sherlock Holmes, o famoso detetive afirma: &#8220;É inconveniente tentar criar teorias com fatos incompletos. Fatalmente você deturpará os fatos para provar sua teoria, ao invés de procurar uma teoria que explique os fatos, como manda a boa ciência&#8221;. Eis uma das pragas modernas: todas as pessoas estão cheias de teorias e pouco se lixam para os fatos. A realidade, quando se trata de desejos e necessidades, é totalmente irrelevante. Daí para se chegar a conclusão de que todos tem a sua própria verdade foi um tapa. E deu nessa merda na qual estamos atolados. O fato é que não poderia ter dado em outra coisa.</p>
<p>13-Descobri hoje, na propaganda política obrigatória e indesejável, que o Partido Progressista faz parte da base do Governo Lula. Dizia um dos políticos que ocupava a telinha que o governo do PT defendia pontos importantes da cartilha do partido. Quem é o PP? Não sei. Mas descobri também que um de seus principais membros é Paulo Maluf. Depois, querem que se leve a política a sério no Brasil&#8230;</p>
<p>14-&#8221;A hipocrisia é nosso último reduto de privacidade&#8221;, diz Cindy, uma scort-girl, no livro &#8220;Fletcher venceu&#8221;, de Gregory McDonald. Sim, estou lendo um livro de Fletcher, um jornalista atrapalhado que desrespeita tudo que é regra e gosta de brincar de detetive. É uma paródia, de gosto duvidoso e qualidade literária pobre. Espero que não seja a decadência, mas apenas um prato leve entre leituras mais pesadas. Na verdade, cansei um pouco de ver Philip Roth falando de suas paranóias com a velhice e sua fixação com a morte.</p>
<p>15-Sábado, último dia de Mar de Letras, acordei muito cedo para assistir ao nascer do sol. Cevei um mate, ajeitei a cadeira na frente da janela, sentei e aguardei o espetáculo. Por mais que eu estivesse preparado, não imaginaria algo tão esplêndido. Magnífico. Maravilhoso. Fantástico. Espetacular. Extasiante. Monumental. Incrível. Mágico. Inebriante. Etc, etc, etc&#8230; Sei que a alegria e a felicidade faz uma literatura muito mais pobre do que a dor e a angústia. Já dizia Vinícius de Morais, nosso querido e eternamente embriagado poetinha: &#8220;mas pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza / é preciso um bocado de tristeza / se não não se faz um samba, não&#8221;. Ah, foda-se a tristeza e até a boa literatura. Nessa hora, quero mesmo é poder sentir toda essa felicidade que a vida me reservou (ou eu conquistei, sei lá). Só sei que vale a pena lutar por ela, mesmo tendo que sacrificar outras coisas. Inclusive a boa literatura.</p>
<div id="attachment_355" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04015_640x4801.jpg"><img class="size-full wp-image-355" title="DSC04015_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04015_640x4801.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">A lua surgindo no horizonte</p></div>
<div id="attachment_356" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04050_640x4801.jpg"><img class="size-full wp-image-356" title="DSC04050_640x480" src="http://www.kleberboelter.com/ojardimdodiabo/wp-content/uploads/2010/05/DSC04050_640x4801.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">O nascer do sol... indescritível</p></div>
<p>&#8230;</p>
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		<title>Mar de Letras 01_2010 &#8211; III e chega</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 03:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
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		<category><![CDATA[A Onda]]></category>
		<category><![CDATA[Anthony Bourdain]]></category>
		<category><![CDATA[ceviche]]></category>
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		<category><![CDATA[Philip Roth]]></category>

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		<description><![CDATA[O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo O último caso da colecionadora de livros? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que começar a ler depois dessa decepção causada pelo John Dunning e seu péssimo <em>O último caso da colecionadora de livros</em>? Tenho um Philip Roth (preciso falar de Philip Roth!) intocado que ganhei de presente de aniversário da Lika. Mas já li três livros de Roth (em breve falarei de Philip Roth) nos últimos meses e estou um pouco enfarado de velhos doentes (sim, sim, prometo que depois falo de Philip Roth e seus últimos temas recorrentes).</p>
<p>Mas voltando às minhas leituras (já disse que falo de Philip Roth outra hora), tenho um plano que arquitetei no ano retrasado: ler no mínimo um livro de cada um dos últimos vencedores dos Prêmios Nobel de Literatura. Encarei Kenzaburo Oe e seu excelente <em>Uma questão pessoal</em> e Günter Grass e o estranho <em>Gato e rato</em>, comprei mais uns dois ou três e acabei me desviando para meu Trabalho de Conclusão de Curso da PUC. Agora, ando um pouco relutante em encarar essa literatura escolhida pela academia menos por seus méritos do que por seus aspectos políticos e sociais. Tomei um certo fartão de ler, nas cadeiras de literatura da PUC, um calhamaço de textos sobre pretensas minorias e oprimidos sociais: foram histórias de homossexuais, lésbicas, judeus, africanos, muçulmanos, alemães segregados nos tempos da guerra, gaúchos expulsos de suas pequenas propriedades pelo avanço dos latifúndios, vítimas de preconceitos e desajustados sociais de toda espécie. Há mérito em dar espaço para novas vozes, escapando do cerco opressivo dos WASP, e acabei lendo algumas boas histórias e textos de ótima qualidade. Mas quando o critério de escolha não é o mérito literário e sim algum tipo de denúncia social, acaba desabando muita porcaria nesse caldeirão bem intencionado. A verdade é que, se meu interesse fosse histórico ou sociológico, eu não teria escolhido a faculdade de Letras. É imprescindível que, além de uma boa história, um livro tenha também qualidades literárias.</p>
<p>Há uma outra opção que me atrai pois significa retornar ao atraente gênero dos romances policiais. Em um dos programas de TV do Anthony Bourdain, ele entrevistou um conhecido autor de romances policiais da Escócia, Ian Rankin. Fiquei interessado e acabei comprando o livro <em>Questão de sangue</em>, que está lá na estante me olhando com aquela cara de &#8220;e aí, vai encarar?&#8221;. Quem sabe, quem sabe&#8230;</p>
<p>Também tenho algumas pendências, como ler novamente <em>O Nome da Rosa</em>, de Umberto Eco, que já comecei várias vezes e nunca consegui chegar ao fim. É um livro tão denso e cheio de referências extra-textuais (apesar de ser, no fundo, um romance policial) que acabo me sentindo sufocado por não compreender todas suas implicações.</p>
<p>Mas há outra linha de leitura que preciso seguir. Meu novo projeto literário, que por enquanto estou chamando apenas de “Humano&#8230;”, é uma espécie de continuação de <em>Deus está morto?</em> Se no livro anterior traço uma espécie de painel de como uma sociedade pode passar da civilização para a barbárie, nesse próximo pretendo discutir exatamente o caminho inverso. Para isso, quero reler alguns livros de história e de filosofia, principalmente sobre o período em que a humanidade emergiu das trevas da Idade Média e brilhou no renascimento e no iluminismo.</p>
<p>Esse emaranhado de opções cuspidas e escarradas acima acaba me lembrando a piada do sujeito que chegou no balcão do bar e pediu uma coca-cola. O atendente perguntou: “Regular ou diet?”. Ele pensou um pouco e respondeu: “Regular”. O atendente perguntou novamente: “Cherry ou normal?”. O sujeito pensou um tempo maior e disse: “Normal”. O atendente perguntou outra vez: “Com cafeína ou sem?”. O cara perdeu a paciência e falou: “Pensando bem, me vê uma Pepsi”.</p>
<p>Não, não vou ler a Caras.</p>
<p>&#8230;x&#8230;<em></em></p>
<p>Foi, no mínimo, uma sacanagem. Um pouco incomodado com meus remorsos, resolvi acordar mais cedo na quinta-feira. Não muito mais cedo, confesso, mas ainda assim mais cedo. Tomei meus mates e, continuando com a campanha anti-remorsos, decidi sair para minha caminhada. O céu estava claro e um sol já alto fez com que me lembrasse das recomendações da Lika. Meio contra a vontade, me lambuzei de protetor solar, coloquei um chapéu, óculos escuros e parti para a beira do mar, em direção a Araçá.</p>
<p>Tudo ia bem até que resolvi dar uma olhada por cima do ombro. Às minhas costas, um céu cinza-chumbo ameaçador se estendia até a Patagônia. À minha frente, um céu azul e um sol de verão. Atrás, uma amostra-grátis do Apocalipse.</p>
<p>Claro que voltei para casa debaixo de um aguaceiro de afogar jundiá. A chuva empapava minha camisa, embaçava meus óculos, arriava as abas do meu chapéu. E fazia eu me sentir completamente ridículo com aquele monte de protetor solar me lambuzando.</p>
<p>Mas, lembrando a hora em que eu andava acordando e o relaxamento com minhas caminhadas, fiquei contente por não ter caído um raio na minha cabeça.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Assisti ao filme <em>A Onda</em>, que estava em evidência nas barraquinhas de DVDs aqui de Capão da Canoa. É uma produção alemã que traz para discussão, mais uma vez, o sentimento atual dos alemães em relação ao episódio do nazismo. O enredo é interessante: um professor pouco tradicional planeja trabalhar, em uma classe especial, com o tema político anarquia, com o qual se identifica. No entanto, devido a uma manobra de um professor mais antigo, ele acaba incumbido de trabalhar com um tema totalmente oposto, a autocracia, que é um sistema ditatorial no qual um determinado grupo assume o governo e passa a exercer não apenas o poder, mas a representar a própria lei. Um pouco desconfortável, esse professor sente dificuldade em desenvolver o tema com seus alunos, principalmente quando surge em sala de aula a discussão sobre o nazismo como um exemplo de autocracia do passado. Como vários alunos defendem a tese de que não têm culpa pelos erros de seus antepassados e que não haveria mais espaço para um regime fascista na Alemanha, o professor sugere uma experiência prática. Propõe a criação de uma autocracia no próprio grupo, através da disciplina, organização e igualdade. Em pouco tempo, através da liderança rígida do professor que define um pensamento único e proíbe discordâncias, do sentimento de unidade que surge, da anulação das individualidades e da criação de símbolos (como o nome do grupo, <em>A Onda</em>, um uniforme e um logotipo), cria-se um forte sentimento de grupo. Esse sentimento dá aos membros da <em>Onda</em> a sensação de que são melhores do que os outros e eles passam a excluir os que não pertencem ao grupo. Inevitavelmente, esse comportamento logo resulta em episódios de intolerância, preconceito e violência. E, quando o professor se dá conta, o movimento fugiu ao seu controle.</p>
<p>É uma interessante visão da natureza humana e do comportamento das massas, quando manipuladas. É fácil (e assustador) perceber que a maioria nem sempre tem razão. Porém, é igualmente uma maneira de reduzir a responsabilidade do povo alemão pelos resultados do nazismo, evidenciando o enorme poder que uma liderança carismática pode exercer e a irracionalidade que permeia os comportamentos grupais.</p>
<p>Mas <em>A Onda</em>, se por um lado descreve o comportamento sectário e violento que, aos poucos, vai tomando conta do grupo, não deixa de mostrar que há escolha e que, no fim, é impossível fugir da responsabilidade individual. No grupo, há duas pessoas de comportamento exatamente oposto. Um garoto que transforma o movimento do grupo na sua razão de vida, e uma estudante que, desde o princípio, percebe que há algo de errado no rumo que os acontecimentos vão tomando e acaba lutando contra o movimento.</p>
<p>Tecnicamente, o filme não é dos melhores, principalmente para quem está acostumado ao padrão hollywoodiano. Mas a atuação do professor como líder do movimento é convincente e a riqueza do tema acaba prendendo a atenção até o desfecho presumivelmente trágico.</p>
<p>Recomendo.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Como publiquei um post exaltando os amigos que estiveram presentes na minha formatura, não posso deixar de comentar que dois queridos companheiros que não estiveram lá me ligaram durante a semana. Alberto e João, obrigado pelas felicitações e pelo apoio sincero. Estão, obviamente, perdoados.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Entre outros aspectos, esse primeiro Mar de Letras do ano estava se destacando pela pobreza culinária. Como disse em outras ocasiões, sinto verdadeiro prazer em pensar em combinações de ingredientes e temperos e, mais ainda, de colocar tudo isso em prática na cozinha. Mas, até agora, tudo que fui capaz de fazer foi um churrasco de carne velha, uma macarronada com restos de frango, uma torrada com tomate, outro churrasco e um picadinho de queijo e salamito.</p>
<p>Então resolvi, na quinta-feira, tentar um prato que há tempos vinha planejando. Não sei quando ouvi falar nele pela primeira vez, mas assisti no mês passado a um programa gastronômico do Olivier Anquier em que ele visitou um famoso restaurante flutuante em Angra dos Reis e o proprietário apresentou uma de suas especialidades: o ceviche. Dizem que é uma especiaria originária dos Incas e um prato muito comum no Peru e no Equador. Outros dizem que sua origem é árabe, tendo chegado na Europa e na Espanha e, daí, alcançado as colônias na América do Sul.</p>
<p>Acreditando que a verdadeira origem do universo é, na verdade, esse blog, vamos ao que interessa. O ceviche é, basicamente, pedaços de peixe (de preferência de carne firme) que são mergulhados em suco de limão por um tempo que varia conforme o tipo de peixe. A carne é cozida apenas pela acidez do limão. Depois, os pedaços de peixe são misturados com cebola e tomate picados. Também podem ser acrescentados pimentão (verde e vermelho) picados e azeitonas fatiadas. Pelas características do prato, acredito que algumas alcaparras combinariam bem e cogumelos fariam um belo contraponto em termos de textura.</p>
<p>Eu, particularmente, sou fã de uma citação atribuída a Woody Allen quando indagado sobre comidas exóticas, principalmente aquelas especiarias asiáticas que costumam rastejar no prato: “Eu gosto da minha comida morta. Bem morta”. Eu ampliaria essa citação para dizer que gosto da minha comida cozida. Bem cozida. Não tenho nenhuma atração por carnes cruas (exceto, talvez, um carpaccio regado com um bom azeite extra-virgem e guarnecido de alcaparras). Portanto, esse peixe cozido apenas pelo suco de limão não gozava da minha confiança. Para evitar passar fome caso minhas suspeitas se confirmassem, resolvi fazer metade do peixe levemente frito e depois rapidamente refogado no vinho branco.</p>
<p>Assim, montei os dois pratos, ambos misturados com cebola, tomate, pimentões verde e vermelho e azeitonas verdes recheadas com pimentão fatiadas. No prato com o peixe cozido misturei um pouco de suco de limão. Ficaram dois pratos de sabor completamente diferentes e nenhum deles muito bom.</p>
<p>O ceviche, apesar de não ter ficado com gosto de peixe cru, ficou muito forte, com o sabor excessivamente carregado pelo limão. Talvez se, depois do tempo marinando, o peixe fosse lavado em água ou em vinho branco, ficasse com um gosto menos ácido. Já o peixe cozido, ao contrário, ficou com gosto de nada. Apenas a cebola e as azeitonas deram um pouco de sabor ao conjunto. Mas há a forte possibilidade de que essa minha impressão tenha sido causada pelo contraste com o sabor forte do peixe marinado em limão.</p>
<p>No final, fiquei com a impressão de que uma mistura, na proporção de duas partes de peixe cozido com uma parte de ceviche, resultaria num prato de personalidade bem marcante.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Uma pergunta que Tony Bourdain costuma fazer quando entrevista chefs de cousine: “Imagine você no corredor da morte, com direito a uma última refeição. Que prato você pediria?”.</p>
<p>Acho isso uma grande sacanagem. Não estar no corredor da morte já que é provável que a cota de pecados que acumulei seja suficiente para me garantir uma vaga nesse lugar famoso. Falo de escolher apenas UM prato. Quem poderia resumir seus desejos mais viscerais a apenas uma opção?</p>
<p>Mas pense, se você estivesse nessa situação, o que pediria? É provável que a resposta a esta pergunta revele mais de você do que todas as consultas ao analista que você já freqüentou na vida. E a revelação, sinto dizer, provavelmente o surpreenderá. Negativamente.</p>
<p>Apenas uma pessoa no mundo é capaz de adivinhar qual o prato que você escolheria, o que equivale a dizer que apenas uma pessoa no mundo, e não é você, o conhece de verdade. É aquela que lava suas cuecas.</p>
<p>Não me pergunte qual a relação que existe entre especiarias gastronômicas e lavagem de cuecas. Não faço a mínima idéia. Mas pode acreditar que é verdade.</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Ok, ok. Se eu estivesse no corredor da morte e tivesse direito a uma última refeição, que prato eu pediria?</p>
<p>Minha tese está correta. Eu gostaria de achar que pediria um filé de salmão grelhado guarnecido por aspargos, champignons e legumes cozidos no vapor, acompanhado de um Chardonay ou de um Chablis de boa cepa. Ou, quem sabe, um <em>boeuf a bourgnion</em> com um vigoroso Cabernet Sauvignon. Mas esse não sou eu, sou apenas quem eu acho que gostaria de ser.</p>
<p>Na verdade, eu pediria um churrasco de costela mal-passado, com aipim cozido e um engradado de cerveja bem gelada.</p>
<p>Eu avisei&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
<p>Esse Mar de Letras, o primeiro de 2010, não era para fazer um balanço do ano passado nem para definir objetivos e metas para esse ano. Não era para ler coisas que eu deveria ter lido e não consegui, nem para escrever coisas pendentes ou inacabadas. Esse Mar de Letras era para vadiar. Para relaxar. Para não fazer nada que representasse uma obrigação auto-imposta ou uma responsabilidade herdada.</p>
<p>Em novembro, completei cinqüenta e um anos. Um dia antes, minha filha fez dezoito e alcançou a maioridade. No domingo passado, me formei na Faculdade de Letras da PUC, minha segunda faculdade. Esses acontecimentos representam, para mim, uma espécie de marco, o encerramento de uma etapa de vida.</p>
<p>Desde os catorze anos, quando meu pai me levou para a empresa e disse que era hora de começar  a trabalhar para dar valor ao dinheiro, que tenho vivido soterrado por objetivos, metas, planos e projetos. Sempre fui assim. O desempenho escolar, a poupança rígida para as primeiras viagens, o vestibular na UFRGS, a casa na praia, a primeira motocicleta, os projetos de engenharia na empresa, as expectativas do casamento, planos e mais planos ambiciosos de crescimento nos negócios, a educação da filha. E então a difícil convivência com os fracassos, o inevitável sentimento de culpa, uma cobrança opressiva e permanente. Ao decidir mudar tudo e recomeçar, mais planos, projetos, objetivos e metas. E cobranças, muitas cobranças.</p>
<p>A maldição é que o carrasco mais cruel que maneja o chicote das cobranças não é um patrão obsessivo e autoritário, um pai controlador, nem mesmo uma sociedade manipuladora ou um círculo de relações com um opressivo código de status. O grande criador, manipulador e controlador desse sistema de exigências sou eu próprio.</p>
<p>Não que isso seja necessariamente ruim. É bem provável que seja uma vida melhor do que ser inconseqüente, irresponsável e vagabundo. Mas tenho a sensação de que, ao fim e ao cabo, andei exagerando. Eu devia pegar um pouco mais leve comigo mesmo.</p>
<p>Pois essa é a idéia não só desse Mar de Letras, mas de todo o ano de 2010. Uma espécie de Ano Sabático, de relaxamento e reflexão, de colocar em prática alguns dos meus desejos mais profundos que estão encarceirados exatamente porque fogem do padrão, do normal, do seguro.</p>
<p>Isso pode soar meio absurdo para um sujeito que, aos quarenta anos, decidiu mudar radicalmente de profissão, fez uma nova faculdade, escreveu vários livros, deu dezenas de palestras para estudantes por todo o interior do Rio Grande do Sul, cruzou a Cordilheira dos Andes de moto, embarcou em vários cruzeiros marítimos, fez incontáveis viagens e se divertiu com amigos do peito. E que conseguiu, ao menos algumas vezes, por em prática esse tal de Mar de Letras, onde jogou para um lado toda a rotina, as obrigações e as responsabilidades para se dedicar à contemplação de uma janela maravilhosa de frente para o mar, lendo, escrevendo e se dando ao direito de fazer apenas o que der vontade. Bem, não apenas soa como absurdo: é um absurdo mesmo.</p>
<p>A verdade é que ter feito tudo o que fiz sem, no entanto, ter rompido radicalmente com o passado nem ter jogado todas as cartas numa aventura incerta pode muito bem ser visto mais como uma virtude do que como um defeito. E essa minha aparente revolta contra as cobranças nada mais é do que a repetição da mesma maldição. Afinal, aqui estou me cobrando novamente por não ter feito as coisas de forma diferente.</p>
<p>Acho que estou precisando de umas boas palmadas na bunda&#8230;</p>
<p>&#8230;x&#8230;</p>
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		<title>Bom século passado&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Oct 2009 02:34:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kleber Boelter</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Animal agonizante]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[Philip Roth]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem desabou um temporal furioso em Porto Alegre, com ventos de mais de 100 km/h, derrubando árvores e destelhando casas. Quase metade da cidade ficou sem luz. Aqui em casa, a luz faltou por volta das seis da tarde e só voltou depois das onze da noite. Cinco horas sem lâmpadas, sem TV, sem computador, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem desabou um temporal furioso em Porto Alegre, com ventos de mais de 100 km/h, derrubando árvores e destelhando casas. Quase metade da cidade ficou sem luz. Aqui em casa, a luz faltou por volta das seis da tarde e só voltou depois das onze da noite. Cinco horas sem lâmpadas, sem TV, sem computador, sem internet! Algo capaz de enlouquecer qualquer habitante do século XXI.</p>
<p>Ainda bem que sou nascido no século passado. Procurei um daqueles vários livros que comprei e ainda não tinha tido tempo de ler, achei um pacote de velas na gaveta, enchi uma taça de vinho e devorei quase setenta páginas de uma história meio amarga, meio irônica, meio picante. É o segundo livro de Phillip Roth que leio e, apesar de não ser tão bom quanto o anterior (Fantasma sai de cena), ainda assim é instigante, profundo, denso e com um estilo fluido e elegante. O nome do livro é &#8220;Animal agonizante&#8221;.</p>
<p>Se faltar luz hoje, não vou ficar chateado.</p>
<p>&#8230;</p>
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