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Miséria

Por Kleber Boelter, 20 de julho de 2010 11:16


A neblina era gelatinosa. Tinha-se a impressão de que, com uma faca, seria possível recortar alguns nacos para enxergar a rua direito. Era final de tarde, e o lento anoitecer ajudava a tornar as imagens mais difusas. Os faróis, inúteis como duas lanternas de pilhas gastas, iluminavam apenas um círculo de névoa opaca, um palmo à frente do capô.

A rua era coberta por uma camada de asfalto irregular e cheio de buracos. Rita dirigia devagar, concentrada. Seus olhos ardiam do esforço para enxergar alguma coisa e os músculos da panturrilha doíam por causa da tensão.

Paralela à rua, uma pequena faixa de terra estreita, coberta de lixo e detritos, mal a separava de uma confusão de casebres em ruínas. Eram malocas feitas de tábuas velhas, pedaços de telhas de fibrocimento e tiras enferrujadas de latas de azeite e de óleo para automóveis. Um mau cheiro de carniça, lixo e esgoto entrava pela ventilação do carro. Com freqüência, surgia no meio da penumbra um ciclista bêbado ou uma carroça. Agarrada ao volante, Rita desviava, nervosa, soltando pragas.

Ao seu lado, Pierre agarrava-se no braço da porta, duro. Com seus braços finos, seu cabelo lustroso de brilhantina e seu terno escuro de micro-fibra, tinha os pés cravados no assoalho do carro e a testa molhada de suor. Não conseguia desgrudar os olhos arregalados do pára-brisa.

- Cuidado! – grita Pierre, de repente.

Rita enxerga um vulto à sua direita e torce o volante com força. Com um barulho forte, algo bate contra o pára-lama, parece dar um giro sobre si mesmo, bate de novo contra o espelho retrovisor e cai ao lado do carro. Um objeto cilíndrico estilhaça-se contra o pára-brisa, e uma nuvem de um líquido incolor misturada com cacos de vidro esparrama-se sobre o capô.

- Meu Deus, tu atropelaste alguém! Vamos embora – esganiça Pierre, numa voz apavorada. – Vamos embora!

Rita freia o carro. Pensa por um minuto, com a respiração acelerada. Então, abre o cinto de segurança e desce. Contorna o carro pela dianteira, enquanto escuta algumas vozes se aproximando.

Ao chegar ao lado da porta de Pierre, vê um garoto caído. Ele está consciente e segura o braço esquerdo contra o peito. Olha em torno, assustado, como se procurasse alguma coisa. Não chora. Apenas geme, como se tentasse conter a dor. Rita se ajoelha ao seu lado e coloca a mão sobre o seu ombro.

- Você está bem? – pergunta, procurando um tom de voz calmo.

- Tô, sim. Desculpa, moça, eu tava com pressa – diz o garoto, cheio de angústia. – Não vi o carro.

Pierre abre o vidro da porta e insiste, na sua voz histérica:

- Rita, pelo amor de Deus, vamos embora. O garoto está bem. – Olha em roda e seu pavor aumenta – está cheio de gente chegando! Isto aqui é um monte de malocas! Vamos embora!

- Cale a boca, Pierre – ela rosna, sem lhe dar muita atenção. Concentrada no garoto, fala com delicadeza: – Deixe-me ver este braço.

Pega o braço esquerdo do menino na altura do pulso e ele grita de dor. Experiente, com a outra mão apoiada no ombro, ela move o braço bem devagar. Procura por hematomas acentuados. Nada. O braço não está quebrado. Pega com delicadeza a mão do menino e verifica a articulação do pulso e os dedos. Nada quebrado, também.

- Você bateu com alguma outra parte do corpo? – pergunta, depois do breve exame.

O garoto levanta os olhos para ela, parecendo mais calmo. Ela sorri.

- Acho que sim – ele diz. – O peito. Aqui…dói… – aponta o lado esquerdo do corpo. – Dói.

Ela apalpa devagar e o menino solta um gemido, baixinho.

Ao redor, juntou uma pequena multidão que mantém-se tensa, na expectativa. A atenção de Rita e seu aparente conhecimento médico mantém as pessoas caladas.

- Parece que não foi nada de grave, mas é melhor a gente ir até um hospital.

- Não! – grita o garoto, novamente assustado, como se lembrasse de algo importante. – Meu pai. Está me esperando. Eu quebrei… – cala-se antes de completar a frase.

- E onde está seu pai? Vamos até lá falar com ele.

Pelo vidro entreaberto da porta do carro, Pierre acompanha a cena, paralisado. A idéia de Rita permanecer ali naquele lugar o abala de novo.

- Você está louca, Rita? Entrar no meio destes casebres? Deve estar cheio de bandidos aí. – E suplica de novo, irritante: – Vamos embora, pelo amor de Deus !

- Cala a boca, almofadinha de merda – grita alguém no meio da multidão. – Tu não viu que a moça tá querendo ajudar e que o menino tá machucado?

Pierre se dá conta dos olhares ameaçadores e da asneira que está fazendo. Fecha a boca, enquanto o suor empapa agora suas costas e o peito da camisa.

Rita ajuda o rapaz a se levantar e se debruça na janela do carro:

- Pierre, meu querido: está vendo ali adiante uma parada de ônibus? Saia desse carro agora e suma da minha frente!

- Mas, Rita… – começa Pierre.

Ela vira as costas e se dirige ao menino.

- Vamos, garoto, me leve até o seu pai – diz de um jeito suave mas firme.

O garoto está paralisado, olhando os cacos de vidro espalhados sobre o parabrisa do carro. Rita coloca uma mão suavemente nas suas costas e começa a empurrá-lo, com firmeza. Atravessam a rua e embrenham-se por um beco em meio a dois casebres tortos. Atrás, segue uma parte da multidão que se formara em torno do carro.

Passam por uma poça de água enlameada, ao lado de uma cerca caída. Montes de lixo espalham-se pelos cantos e cachorros escavam suas entranhas. A escuridão é mais acentuada, e naquele beco apertado as formas decrépitas assumem um aspecto assustador. Dobram no final da viela e dão de cara com um barraco de aparência ainda mais miserável do que os outros. Na porta, um homem com aspecto de mendigo está sentado, segurando na mão esquerda um rolo de fumo e, na direita, um canivete. Corta pequenas lascas de fumo. Não levanta os olhos para Rita nem para o garoto.

O menino aproxima-se e dema uma eternidade para criar coragem.

- Pai – chama, com uma voz fraca.

O homem ergue os olhos devagar e encara o garoto. Rita adianta-se.

- Desculpe, senhor, mas o rapaz sofreu um pequeno acidente. Eu vinha pela estrada e não o vi, e bati com o carro no braço dele. – O homem não a olha. – Eu gostaria de levá-lo até um hospital para tirar uma radiografia. Parece que não foi nada sério, mas é preciso ter certeza.

O homem finalmente olha para o menino de cima a baixo, numa avaliação superficial. Diz:

- Pois ele parece muito bem, dona. Na última sova que ele tomou ele ficou bem piorzinho. Aqui, as criança tão acostumada com acidentes. – O homem baixa a vista para seu rolo de fumo, com uma visível contrariedade que Rita não compreende. – Moça, pode ir simbora. Deixa aí um dinheiro prá comprar uns remédio e vai andando.

― Mas eu insisto em levá-lo até o hospital ― fala Rita. ― Ele precisa de cuidado.

- Moça, do meu filho cuido eu – fala, ríspido. – Deixa um dinheiro aí e vai andando, que a senhora já tá querendo arranjar sarna pra se coçá.

Rita começa a protestar mas escuta, às suas costas, um murmúrio hostil da pequena turba que havia seguido os dois. Vira-se, brusca, e dá de cara com um bando maltrapilho, de rostos indistintos.

Desiste. Coloca a mão no bolso do casaco e pega a carteira. Tira um punhado de dinheiro, o suficiente para vários curativos, e entrega para o garoto. Este, imediatamente, colocou o dinheiro na mão do pai.

Rita encara o menino, gentil.

- Mais cuidado ao atravessar a rua, viu? – E, num tom mais alto, dirigindo-se também ao pai, completa: – E vá logo até uma farmácia, fazer um curativo nestes arranhões.

O garoto mantém os olhos baixos. Um sorriso some antes de aparecer em seu rosto.

Rita vira-se furiosa para o pai. Mas seus argumentos naufragam em dois olhos baços, inchados, coléricos.

Vira as costas e vai embora.

O homem acompanha seus passos até ela desaparecer no beco. Então, levanta-se e se aproxima do menino. Ergue a mão direita e dá-lhe uma bofetada no rosto. Pega um pouco do dinheiro e enfia na mão dele.

- Vorta lá de novo, sua peste! E vê se não me derrama de novo a minha cachaça!

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